
Li neste início de semana o relato de um pai, Elvis Sant Anna, no Facebook sobre o que ele classificou “uma coisa muito ruim”. O filho de 6 anos, estudante da Escola Municipal Paula Frassinetti, no bairro da Glória, zona oeste, foi impedido de entrar na sala de aula porque usava uma farda de cor azul e não a de cor branca, fornecida pela nova gestão da Prefeitura de Manaus.
O que pesou na decisão de quem proibiu a entrada da criança no estabelecimento foi menos a cor da camisa e mais a marca de uma e de outra administração. A imagem abaixo dispensa explicação, mas nunca é demais reforçar: a farda azul tem a marca da administração do ex-prefeito Amazonino Mendes (PDT), com o slogan “Uma cidade melhor”. A branca, carrega a nova marca, criada sob encomenda pela administração de Arthur Virgílio Neto (PSDB), com o slogan “Sempre ao seu lado”.
Para os burocratas da educação, pouco importa se uma criança perde um dia de aula. Ela não pode é carregar nas costas uma marca que a burocracia municipal pretende jogar no baú do esquecimento. O absurdo, no entanto, é obrigar os estudantes a carregar marca de qualquer administração (o mesmo ocorre no governo do Estado).
Sou de uma época em que não se davam fardas aos estudantes. Os pais eram obrigados a fazer uma camisa de botões, que chamávamos de jaleco, e depois comprar um bolso, na escola. O bolso, que carregava o nome da escola e o brasão prefeitura ou do estado, era costurado pelas mães ou por uma costureira vizinha. Não havia propaganda de governo na farda escolar.
Hoje, as marcas da administração se transformaram em uma peça central na atividade de governar. O administrador assume o posto de comando e encomenda logo a sua marca. Depois de pronta, gasta milhares e milhares de reais do contribuinte para fazer a substituição da marca do antecessor.
Foi assim com Eduardo Braga (PMDB), ao assumir o governo, em 2003. Mandou arrancar todas as letras “A” estilizadas que simbolizavam o governo de Amazonino Mendes. O “A” era gravado em concreto e alto relevo nas fachadas dos prédios que Amazonino construía ou reformava. Braga gastou uma fortuna para arrancar um a um na capital e no interior do Estado e substitui-lo pela bandeira do Amazonas estilizada, que se transformou na marca de seu governo.
Quando Omar Aziz subiu à cadeira de governador, tratou de encomendar outra marca, e novamente o erário bancou a retirada de todas as placas e pinturas da bandeira estilizada para dar lugar a uma nova “identidade visual”, inclusive com um manual específico para orientar as secretarias a usar o novo símbolo do poder.
Na Prefeitura de Manaus, nos últimos anos, a criação de marcas só foi quebrada na administração de Serafim Corrêa (PSB), que resolveu usar o brasão do município como marca. Agora, Arthur tenta imprimir a marca da administração dele.
Trata-se de uma grande bobagem, porque o próximo prefeito e o próximo governador certamente tentarão apagar o que ficou dos antecessores. Essas marcas são algo tão efêmero que duvido que fique por muito tempo no imaginário popular. O que fica, mesmo, de uma administração, é aquilo que o administrador consegue fazer para melhorar a qualidade de vida de sua gente.
A imposição da marca, como quer fazer a Secretaria Municipal de Educação, é uma estupidez, como disse o pai, ao sugerir, com razão, que é a proibição de usar a farda da gestão passada é mero jogo político: “Agora, quero saber por que meu filho não pode estudar com a farda da prefeitura. Ou as fardas são das administrações querendo mostra seus símbolos? Que estupidez é essa?. Meu filho só vai poder estudar com a camisa da gestão atual?”, pergunta Elvis.
Valmir Lima é jornalista, graduado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), com pesquisa sobre rádios comunitárias no Amazonas. Atuou como professor em cursos de Jornalismo na Ufam e em instituições de ensino superior em Manaus. Trabalhou como repórter nos jornais A Crítica e Diário do Amazonas e como editor de opinião e política no Diário do Amazonas. Fundador do site AMAZONAS ATUAL.
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Sabemos que a cada gestão é criada uma nova marca. Com isso milhões de reais são desperdiçados, dinheiro que poderia ser empregado em algo realmente necessário. Minha ideia é a realização de um concurso público para escolher a marca dos governos tando estado como municípios, a qual não poderia ser alterada nos próximos 100 anos. Afinal a marca é do governo e não do governador. O governador ou prefeito eleito teria que usar a marca do estado ou prefeitura do qual seria servidor.