Apesar de suas múltiplas formas de manifestação, seria possível falar de uma violência estrutural, fenômeno quase sempre presente na raiz de variados tipos de violência?
Alguns estudiosos, afirmam essa possibilidade. E dizem que o que a mascara é que, muito frequentemente, fala-se em das diversas modalidades de violência (doméstica, étnica, sexual, no trânsito, urbano, no trabalho…), mas pouco se discute a violência estrutural. Alguns consideram uma abstração falar de violência estrutural.
A violência estrutural está na base da produção das demais violências. Em verdade, trata-se da violência original, aquela da qual formam-se as violências funcionais derivadas. Constitui-se, na realidade, na fonte das violências periféricas que envolvem distintas partes.
Assim como há registro de violência desde a gênese da história humana, também são bastante remotas no tempo as iniciativas e os esforços pela superação de todas as formas de violência. A dialética entre a cultura de violência e a busca de uma cultura de paz atravessa a história de diversas humanidades. E serve de argumento aos que alegam a existência de uma violência estrutural.
Violência e paz, diferentemente do que muitos pensam, são aprendidas. Pesquisadores e cientistas esclarecem que a agressividade humana é algo aprendido, não é inato, embora certas características genéticas possam predispor e potencializar certos comportamentos. Distintamente do que pensa o senso comum, que muitas vezes alardeia que “quem é bandido, nasce bandido”, pesquisam demonstram que a agressividade constante é um mau hábito emocional aprendido desde a infância. Por ser brutalmente tratado, ser privado de direitos básicos ou ter esses direitos violados, às vezes desde os primeiros meses de vida, o indivíduo passa a perceber somente hostilidade no ambiente a sua volta. E desenvolve uma linguagem e uma forma de inserção social identificada com a cultura da violência e até com a cultura do crime. Comumente, uma coisa leva a outra.
Contra a violência estrutural, Marx e Engels propuseram, no auge dos debates sobre capitalismo e socialismo no séc. XIX, o emprego da hoje superada violência revolucionária. Para o sociólogo francês Émile Durkheim, a anomia social, entendida como fraqueza das instituições sociais fundamentais para socializar o indivíduo (família, escola, igrejas, prisões e do próprio direito – de efetividade das leis de convivência social), concorre e favorece ao aparecimento de comportamentos desviantes e divergentes. Com isso, Durkheim indica que as causas da violência e do crime devem ser procuradas na sociedade e não apenas no delinquente. Robert Merton, sociólogo da escola americana, aponta que a anomia serve para compreender a escalada dos crimes violentos, afirmando que a pobreza estrutural e a exclusão de muitos da sociedade de consumo potencializam essa situação de anomia que contribui com a prática de violência. Para Merton, haveria sim uma alta correlação entre indicadores sociais e a prática de crimes violentos (sequestros, tráficos, homicídios etc).
No entendimento de Milton Santos, “a violência estrutural resulta da presença e das manifestações conjuntas, nessa era da globalização, do dinheiro em estado puro, da competividade em estado puro e da potência em estado puro, cuja associação conduz à emergência de novos totalitarismos”, dentre os quais podemos citar o do consumismo, o da informação e o da indiferença às graves questões socioeconômicas de fundo. Esse processo se revelaria no predomínio de políticas repressivas, identificado com mais prisões como sinônimo de justiça, e no relegar ao ocaso as questões de fundo, retomando a obsoleta ideia de que a injustiça e a desigualdade social são consequências inevitáveis da sociedade, uma fatalidade natural de qualquer regime político e modelo socioeconômico. Dar-se-ia, assim, a institucionalização da violência estrutural.
Dessa forma, atacar as violências periféricas sem combater a violência estrutural é atuar apenas no campo das consequências, desprezando o mais importante – os fatores que produzem as formas de violências cotidianas.
Quando um Estado restringe sua atuação apenas ao combate à criminalidade, age meramente sobre os efeitos, deixando de contribuir, de fato, para inibir a violência e promover a segurança pública. A ostentação de aparatos de polícia ostensiva, de polícia investigativa e a ênfase tão somente em números do combate ao crime podem até alcançar alguma eficiência, inclusive no campo eleitoral, porém não têm resultado social e politicamente eficaz.
Investimento com resultado eficaz em prol da segurança pública pressupõe, desse modo, intervenção para além das violências derivadas, ou seja, requer a disposição para combater e superar a violência estrutural, principal fator criminógeno das sociedades contemporâneas. Isso significa não apenas maior inclusão de indivíduos e de famílias na sociedade de consumo, mas também formação integral às crianças, a adolescentes, a jovens adultos e a ampliação da participação coletiva na busca por aprimorar as normas de convivência social. O enfrentamento da violência estrutural requer, enfim, ampla mobilização social e política em favor da formação de uma cultura de justiça e de paz.
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