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Igor Araujo Lopes

O senhor, o escravo e o trabalho

25 de março de 2017 Igor Araujo Lopes
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O povo voltou às ruas na semana passada, com paralisações e greves nos quatro cantos do Brasil, para mostrar a indignação contra a criminosa contrareforma da previdência. Mais um esboço de um avanço popular que agita a consciência de classe e seu real poder. A ideologia dominante impõe a ideia de que o poder da população está na individualidade do voto – como o maior grau possível de realização do espírito democrático. E um olhar dialético mais apurado aponta outra direção.

Desde os primórdios o da busca pela verdade se constituiu certa distância entre o entre o sujeito e o objeto, ou melhor, entre aquele que vê e aquilo que é visto – como coisas distintas. Através dessa perspectiva, pensadores foram capazes de chegar muito mais longe do que o pensamento corriqueiro um dia chegou a imaginar.

Um dos maiores expoentes dessa suposta objetividade é Aristóteles. Contudo – para além de querer adentrar seu pensamento – uma das características que marcaram sua abordagem foi a eliminação da contradição para a existência de verdade. Isto é, uma coisa só é igual a ela mesma, ao mesmo tempo que não pode ser diferente dela mesma. Se uma coisa é igual a ela mesma, e diferente dela mesma, existe uma contradição, então logo essa afirmação não pode ser verdadeira. O senhor, não é o escravo. E o escravo não é o senhor.

Com o passar dos séculos, surgiu na Prússia um dos maiores e mais incompreendidos pensadores da história: Hegel. E com ele veio a negação dessa forma de pensar que predomina até hoje. Hegel incorporou a contradição como algo inerente aos processos que constituem as coisas ao nosso redor, inclusive, nós mesmos. Dando-a um caráter fundamental, e não mais um caráter de falsidade.

Com isso, a dicotomia sujeito e objeto passa a se comportar como algo inseparável, não faz mais sentido falar de sujeito sem falar de objeto, ou falar de objeto sem falar de sujeito. Ambos coexistem. Com isso realiza-se um salto genial: Deixa-se de pensar as antigas questões epistemológicas e passa-se então a ter um conhecimento mais ‘político’ dos fenômenos. Em outras palavras, busca-se as razões pelas quais sujeito e objeto aparecem diferenciados e contrapostos.

Utilizando sobriedade filosófica, Hegel começa a colocar na reflexão a questão do trabalho – que mais tarde viria a ser melhor definida e compreendida por Karl Marx. Dessa forma ele consegue explicar a relação entre os seres humanos, a relação destes com o mundo e do porquê existir um certo ‘estranhamento’ em algumas questões entre eles e o mundo. Desta forma a contradição passa a ser o motor do movimento do real.

Para isso Hegel explica a Dialética do Senhor e do Escravo, uma alegoria capaz de mudar a forma de compreensão de nossa realidade. Isto é, não há engano nenhum perante a situação antagônica do que é um senhor e do que é um escravo. Contudo – e aí está a novidade – só se entende o que é um enquanto relacionado com o outro. Não existe um escravo sem um senhor para que lhe dê ordens, nem um senhor que não possui escravos para realizar seus trabalhos. Ou seja, a existência de um é a que dá sentido à existência do outro.

O escravo serve ao senhor, é posse dele. Trabalha para ele. Porém, sem o trabalho do escravo, o senhor não possui nada. Se o escravo não produzir, o senhor deixa de existir enquanto senhor. Sua sobrevivência e seu reconhecimento enquanto senhor dependem totalmente do escravo – Com isso, pode-se dizer que o escravo é senhor do senhor de certa forma.

Karl Marx vai mais tarde, ao criticar Hegel, amadurecer essa dialética num sentido mais material e histórico, e portanto mais político. Seu apontamento consiste em constatar toda a relação dialética entre as classes dominantes e os trabalhadores. A relação sempre contraditória daqueles que detém os meios de produção e aqueles que nada possuem, além da sua força de trabalho. E agora alguns poucos bens de consumo – para ser justo com o capitalismo atual.

Isto é, o prejuízo causado ao capital, e as reações tirânicas de políticos – como a aplicação de uma multa tucana, estilo Dória – demonstram o quanto o trabalhador possui capacidade de incomodar o poder estabelecido e afirmar, que no fundo, quem detém o maior poder é ele. Já volto….


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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