
(Foto: Antonio Augusto/STF)
Por Eduardo Laguna e Geovani Bucci, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – O ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso disse em evento realizado nesta sexta-feira (22) que a revolução digital, que inclui as redes sociais, democratizou o acesso ao espaço público, mas também eliminou o filtro da imprensa profissional, abrindo “avenidas” para a desinformação e discursos de ódio.
“Agora cada tribo tem a sua narrativa, e, portanto, a gente não consegue mais trabalhar sobre fatos comuns. Isso é um problema grave que nós estamos vivendo”, comentou Barroso durante participação em fórum da Esfera no Guarujá, litoral de São Paulo.
Ele ressaltou que, sem o filtro antes feito pelos meios de comunicação, qualquer coisa chega ao espaço público, tendo como consequência a “tribalização da vida” e uma crise do modelo de negócio da imprensa tradicional.
Para Barroso, as pessoas terão que ser reeducadas ao uso das novas tecnologias. A regulação da inteligência artificial precisa acontecer da “melhor forma possível”, disse o ex-ministro do Supremo.
Ele chamou a atenção, porém, às dificuldades de regular juridicamente a inteligência artificial (IA) pela velocidade da transformação. “O ChatGPT chegou a 100 milhões de usuários em dois meses. Portanto, a velocidade da transformação é um problema. E há uma assimetria de conhecimento entre reguladores e regulados”, afirmou Barroso.
Banco Master
Luís Roberto Barroso defendeu o STF diante de questionamentos sobre a percepção da população diante do envolvimento de ministros com o caso Banco Master. Ele reconheceu em entrevista coletiva que há um conjunto de fatos que contribuiu para uma percepção negativa sobre o tribunal, mas afirmou não ter conhecimento de qualquer decisão do STF que tenha favorecido o banco.
As suspeitas relacionadas ao Master miram repasses e transações que teriam beneficiado familiares de ministros do Supremo, incluindo R$ 80 milhões ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes e R$ 6,6 milhões ligados a cotas de resort dos irmãos de Dias Toffoli.
“Há um conjunto de fatos que levaram a uma percepção negativa. Porém, primeiro é preciso não prejulgar e esperar que as investigações terminem”, disse Barroso. “Depois, é preciso fazer uma distinção entre o juízo que alguém faça sobre ministros individualmente e o papel institucional do Supremo”.
De acordo com o ex-integrante da Corte, as revelações não abalaram o papel institucional do Judiciário. Na avaliação dele, o tribunal segue tomando decisões importantes, com transparência, fundamentação e debates públicos de qualidade. Por isso, afirma, é preciso evitar que “episódios pontuais contaminem a percepção” sobre a instituição e desmereçam a função que ela desempenha para o país.
“Tem alguma decisão do Supremo favorecendo o Banco Master? Não que eu saiba. Portanto, por isso que eu falo: é preciso separar percepções individuais de comportamentos institucionais”, continuou. “Tanto quanto eu possa ver, não aconteceu nada de errado em decisões do Supremo nessa matéria, ou em qualquer outra”.
O ex-presidente do STF salientou ainda que o Supremo decide quase todos os temas relevantes da vida brasileira e, por isso, acaba frequentemente desagradando diferentes setores. Segundo ele, o protagonismo e a visibilidade da Corte fazem com que haja sempre alguém com um olhar severamente crítico sobre o tribunal Recentemente, o Congresso usou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado para mirar elos financeiros de ministros e sugerir indiciamento de magistrados, o Judiciário reagiu de forma incisiva, principalmente contra o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que foi alvo de solicitação de investigação Procuradoria-Geral da República (PGR) por abuso de autoridade.
