
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Os cursos de licenciatura da Região Norte tiveram o pior desempenho no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) das Licenciaturas em 2025. O resultado, divulgado pelo MEC (Ministério da Educação), mostra que apenas 29,5% dos cursos de instituições de ensino superior do Norte alcançaram notas 4 e 5 (máxima).
Esse percentual ficou abaixo dos registrados nas demais regiões do país: Centro-Oeste (37,5%), Nordeste (39,7%), Sul (45,9%) e Sudeste (47,7%). Outros 27,6% dos cursos de licenciatura do Norte tiveram nota 1, indicando o menor desempenho em 109 dos 370 cursos avaliados na região, enquanto o percentual de cursos com nota mínima foi de 20,7% no Centro-Oeste, 18,1% no Nordeste, 14,1% no Sudeste e 13,5% no Sul.
A UFPA (Universidade Federal do Pará) obteve 18 notas de conceito 1, o maior quantitativo de notas mínimas dentre as instituições avaliadas pelo MEC. Na Ufam (Universidade Federal do Amazonas), dos 22 cursos de licenciatura avaliados, apenas o de Ciências Biológicas, no campus de Manaus, recebeu nota 5. A Universidade obteve seis notas de conceito 1. As demais variaram entre conceitos 2, 3 e 4.
Para o professor do curso de licenciatura em Letras da Ufam, Sérgio Freire, diversos fatores podem explicar as desigualdades regionais percebidas no resultado do Enade, como falta de incentivo e investimentos, infraestrutura e qualidade de vida dos estudantes.
“O Enade não cria essas desigualdades, mas as revela. E, para além da revelação, ele pode reforçá-las se os seus resultados forem usados apenas para penalizar instituições sem que venham acompanhados de políticas afirmativas de fortalecimento das regiões mais vulneráveis”, alerta Sérgio Freire.
“As universidades federais do Norte foram consolidadas décadas depois das grandes instituições do Sudeste e do Sul, o que resulta em menor acúmulo de capital científico e infraestrutura acadêmica. Além disso, a maior parte dos licenciandos da região são trabalhadores que dividem o tempo entre estudo, emprego e família. Também faltam políticas públicas consistentes, regionalizadas e de longo prazo”, acrescentou o professor.
O professor da UFPA, Rodolfo Salm, afirma que o baixo desempenho no Enade também pode ser explicado pelo desinteresse dos acadêmicos e por questões culturais, especialmente no interior da Amazônia, onde prevalecem desafios desde a educação básica.
“É uma falta de tradição de escolaridade e uma falta de oportunidades qualificadas. Faltam políticas, claro. Claro que um ensino público melhor termina melhorando a situação das universidades. A gente fala para os alunos se esforçarem, mas sobre a questão do Enade a gente tem uma dificuldade porque o aluno faz a prova, mas não é ele quem está sendo avaliado. O esforço que o aluno faz no Enade muitas vezes é inferior do que ele poderia fazer se ele tivesse interesse maior. A gente, na universidade, não deve pensar em produzir quantidade, e sim qualidade”, avalia Rodolfo.
O Enade das Licenciaturas foi instituído pelo MEC em 2024 com objetivo de reformular e aperfeiçoar a avaliação dos cursos de formação de professores no Brasil por meio de uma prova teórica, que utiliza o mesmo instrumento da PND (Prova Nacional Docente), e uma avaliação da prática pedagógica, realizada durante o estágio supervisionado. O exame é obrigatório para os concluintes da graduação, mas o resultado não afeta diretamente a vida acadêmica individual do aluno, o que, segundo especialistas, não gera incentivo real ao estudante.

“O aluno não tem incentivo pessoal direto para se empenhar na prova. Há um descompasso entre a seriedade com que a instituição precisa tratar o Enade e a percepção que o estudante tem de sua relevância para sua trajetória pessoal. Em muitos campi, a preparação é tímida. Alguns departamentos oferecem simulados ou revisões temáticas nos meses anteriores, outros praticamente ignoram o processo”, afirma Sérgio Freire.
Na Região Norte, 25 cursos de licenciatura em Matemática receberam nota de conceito 1, sendo o curso que obteve o maior quantitativo de notas mínimas, seguido por Física (14), Pedagogia (12), Letras-Inglês (9) e Música (7).
O estudante Cesar Augusto Barroso de Moraes, finalista da graduação em Matemática na Ufam, participou do exame em 2025 e conta que, apesar de ter tido consciência do conteúdo cobrado na prova, teve dificuldade na gestão de tempo e na interpretação de questões discursivas e textos longos. O acadêmico propõe melhorias no processo de preparação para o exame.
“A metodologia deve ser mais prática e integrada à formação acadêmica ao longo do curso, e não apenas nos períodos próximos à prova. É importante investir em simulados frequentes, resolução comentada de questões, de provas de outras edições do Enade, desenvolvimento da leitura crítica e interpretação de textos, além de atividades interdisciplinares que aproximem os conteúdos da realidade profissional”, disse Cesar Augusto.

Estratégias regionalizadas
A coordenadora do curso de licenciatura em Matemática da Ufam, Ana Acácia Pereira Valente, defende a criação de políticas adequadas às necessidades da realidade amazônica. Segundo ela, na região, além de características estruturais e geográficas, há limitações de acesso à internet, baixo volume de programas de pós-graduação e centros de pesquisa e desafios relacionados à permanência de professores.
“Não se trata apenas de uma questão de qualidade dos cursos, mas das condições em que essas instituições operam. São muitos os aspectos que precisam ser analisados, não com o objetivo de justificar os problemas existentes, mas de refletir sobre as dimensões social, política, econômica e cultural que atravessam a realidade amazônica e influenciam diretamente o contexto educacional”, disse Ana Acácia.
Nota 5
Apesar do baixo desempenho no ranking nacional, a Região Norte conseguiu nota de excelência em 29 cursos de licenciatura: Artes Visuais na Unir (Fundação Universidade Federal de Rondônia), em Porto Velho-RO; Ciência da Computação na UEA (Universidade do Estado do Amazonas), em Manaus; Ciências Biológicas na Unir, no IFPA (Instituto Federal do Pará), na Unama (Universidade da Amazônia), na UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e na Ufam.
Também alcançaram nota 5 os cursos de licenciatura em Ciências Sociais na UFAC (Universidade Federal do Acre), na UFPA e na Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará; Educação Física no Centro Universitário Fametro e no IFTO (Instituto Federal do Tocantins); História na UERR (Universidade Estadual de Roraima), na Unifap (Universidade Federal do Amapá) e na UFPA campus de Belém, Bragança e Ananindeua; Letras Português na UERR, na UFRR (Universidade Federal de Roraima) e na UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia).
No curso de Pedagogia, a nota máxima foi alcançada pelo Ceumap (Centro Universitário Meta do Amapá), UEAP (Universidade do Estado do Amapá), UEA nos campi de Manaus e Parintins, UNIFAP, UFPA, Unifesspa e UFRA. O curso de licenciatura em Química obteve nota de excelência na UFPA, campus de Ananindeua.
Formação docente
O resultado do Enade das Licenciaturas preocupa as redes de educação que receberão os futuros professores. Segundo a ONG (Organização Não Governamental) Todos Pela Educação, a partir dos dados, foi possível concluir que apenas 2 em cada 10 estudantes de licenciaturas atingem padrão adequado ao término do curso. Na EaD (Educação à Distância), o quadro é ainda mais grave: 1 em cada 10.
“Isso, por si só, revela um cenário bastante preocupante de precarização da formação docente no país, sobretudo nos cursos à distância. É preciso que o governo federal, Ministério da Educação e o Conselho Nacional de Educação enfrentem esse cenário com urgência”, disse Talita Nascimento, diretora de Relações Governamentais do Todos Pela Educação.
