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© 2022 Amazonas Atual
Augusto Barreto Rocha

Na Amazônia, faltam diagnósticos antes das obras nas ‘hidrovias’

7 de setembro de 2026 Augusto Barreto Rocha
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MANAUS – O debate sobre a seca na Amazônia segue seca de propostas. As que existem são atiradas ao vento das ideias como se fossem soluções prontas para problemas não compreendidos. Fico com a impressão de que o que vemos são aproveitadores, tentando vender seus projetos, sem muita conexão com o problema. Há falta de calado no Rio Amazonas? Vende-se dragagem. Não importa se a dragagem resolve ou não. Outros vendem a taxa de seca.

Não importa se há correlação entre o aumento de custo da operação e o que é cobrado, afinal abriu-se uma chance de cobrar mais caro e apenas de alguns. Outros ainda vendem a privatização do rio, chamando-a de concessão. Não importa se isso é a solução, afinal há um caminho para cobrar-se um pedágio.

O problema nem foi compreendido em toda a sua extensão, por ser um problema de alta complexidade e pouco dominado, mas cada um vai vendendo o tem para vender, como unguentos para doenças. Muita solução para pouco diagnóstico. Muito jeito de transferir dinheiro da Amazônia para o exterior, para o Sudeste, para empresários, para impostos e pouca ou nenhuma preocupação com os interesses da sociedade da Amazônia.

Pouco ou nenhum interesse para o que pensam os índios, os ribeirinhos ou os moradores locais. Há um impor de agenda por aqueles que detêm o poder do capital, dos cargos executivos multinacionais ou nacionais.  Em meio a isto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente informou na semana passada que o planeta ultrapassará o 1,5ºC de aquecimento acima do nível pré-industrial “provavelmente nos próximos anos”.

Por aqui, há conversas, mas não há escutas. Há prescrições sem diagnósticos. Quando muito, há diagnósticos apressados e recorrentes. Conectados com outros problemas de outras realidades. Por isso no Norte do Brasil não há hidrovias. O que existe é uma abundância de rios, com trânsito expressivo de embarcações por estas “hidrovias”, assim entre aspas, porque não são hidrovias verdadeiras. São caminhos da natureza que permitem o trânsito da economia na Amazônia, enquanto há um ignorar de necessidades. A preocupação surge apenas no sentido de buscar oportunidades para o capital e pouco para enfrentar o problema pela perspectiva das necessidades das pessoas.

Até quando seguiremos neste modelo? Em um mundo que aquece mais a cada dia, no Rio Amazonas, o DNIT está alocando R$ 92,8 milhões, movendo 1,8 milhões de metros cúbicos, em um trecho de aproximadamente 200km. Sigo sem acreditar que esta solução é apropriada. Não consigo perceber estudos publicados e revisados por pares que demonstrem a efetividade ou viabilidade. Estudos técnicos mais profundos seriam muito mais baratos, mas não são feitos. Mais baratos? Sim.

Há propostas que custam cerca de R$ 30 milhões para o ciclo de cinco anos, que levaria a uma compreensão do problema, antes da ação que apresenta impactos e custos. Mas, mesmo assim, seguimos fazendo obras de grande impacto para um efeito incerto e, muito provavelmente, nulo na solução da causa do problema.

A boa-vontade está na fala das pessoas, mas as ações seguem erradas para a Amazônia. Seguimos com a gestão de Brasília a ignorar a Amazônia. Seguimos com empresas cobrando taxas da seca. Seguimos com o Custo Amazônia se empilhando ao Custo Brasil. Falta pensar para agir. O calor das redes sociais está invadindo a política e a gestão.

Precisaremos repensar a forma de conceber o Estado, para que a institucionalidade não se perca na emoção da ação rápida, onde os marcos de democracia se perdem. O problema de distanciamento da política pública da sociedade anda hoje em dia distante em muitas dimensões. Também na dimensão da seca de ideias e de ideais para as “hidrovias”.


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazonas, Amazônia, dragagem, hidrovias, Logística, seca dos rios, taxa da seca
Cleber Oliveira 7 de setembro de 2026
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