

Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — “Professora”, “delegado”, “sargento”… Profissões e títulos aparecem nos nomes de urna de candidatos nas eleições gerais deste ano. A estratégia também inclui apelidos e referências populares, como “Sabugo”, “Curubão” e “Magrinha”.
O cientista político e professor da Uniasselvi Rafael Adílio dos Santos explica que esses nomes funcionam como “atalhos cognitivos” para aproximar o candidato do eleitor e facilitar a memorização na hora do voto.
Segundo Rafael, a estratégia busca criar uma identificação imediata com eleitores ligados a determinada profissão, atividade ou grupo social. O nome de urna fornece uma referência sobre o candidato mesmo para quem pouco conhece sua trajetória.
“A principal razão para essa escolha é a redução do custo de informação para o eleitor. Diante de uma quantidade massiva de candidatos, o cidadão comum busca atalhos cognitivos para tomar sua decisão”, disse Rafael.
“Quando um candidato se apresenta como ‘Professor’, ‘Pastor’ ou ‘Sargento’, ele transmite instantaneamente sua área de atuação, seus valores ou sua autoridade técnica, dispensando o eleitor de pesquisar toda a sua biografia”, completou.
O recurso não se restringe às profissões. Conforme o cientista político, apelidos relacionados ao comércio, a atividades profissionais ou à rotina dos bairros, como “Zé do Bar” e “Chico da Padaria”, podem despertar sentimentos de pertencimento e proximidade, considerados importantes principalmente nas disputas proporcionais.

Levantamento do ATUAL identificou diversos candidatos que incluíram “doutor” ou “doutora” no nome de urna, entre eles advogados e médicos. Outros optaram por “enfermeira”. Uma das candidatas se apresenta como “Doutora Enfermeira”. Também há “professores”, “delegados” e “sargentos”.
A lista inclui ainda referências a outras profissões, atividades e causas, como “Amanda Mototáxi”, “Donizete da Voz”, “Eberson Batera”, “Edjane da Fetagri”, “Karola Pró Vida”, “Leandro Ativista PCD”, “Loira do Salgado”, “Mateus do TI”, “Mazinho da Ecobarreira”, “Moisés das Ações”, “Raul da Reciclagem”, “Rayana Pinho do Bazar”, “Rita da Enfermagem”, “Rosa das Comunidades”, “Senhor Luiz Agricultor”, “Socorro do Café”, “Tati da Nutrição” e “Valdeco Tattoo”.
Segundo Rafael, em eleições proporcionais, como as disputas para deputado, nomes associados ao cotidiano das comunidades podem transmitir autenticidade e representatividade, sem necessariamente comprometer a imagem de seriedade do candidato.
O efeito, no entanto, pode ser diferente quando há uma incompatibilidade entre o nome escolhido e a imagem que o eleitor espera de quem disputa determinado cargo.
“Em disputas para o Poder Executivo (prefeitos, governadores e presidente) ou quando o apelido soa folclórico sem um histórico social legítimo por trás, a estratégia pode transmitir falta de gravidade institucional, afastando o eleitor que busca atributos de gestão e liderança”, afirmou.
“Em suma: o apelido atrai a atenção, mas é a trajetória e a coerência do candidato que definem se o eleitor enxergará ali proximidade ou falta de compromisso”, completou Rafael.

Títulos e profissão
O histórico das eleições no Amazonas mostra que o uso de títulos e referências profissionais nos nomes de urna também está presente entre candidatos eleitos. Em 2022, Capitão Alberto Neto foi reeleito para a Câmara dos Deputados. Na Aleam (Assembleia Legislativa do Amazonas), foram eleitos nomes como Comandante Dan, Dr. George Lins, Dra. Mayara Pinheiro, Professor Sinésio, Dr. Gomes, Cabo Maciel e Delegado Péricles.
De acordo com o cientista político, a estratégia também pode levar à construção de um “personagem eleitoral”. Para Rafael, o risco ocorre quando o rótulo ganha mais espaço do que a trajetória do próprio candidato, fazendo com que a campanha se concentre em marcas e frases de efeito.
“Para a escolha do eleitor, uma consequência pode ser a superficialidade no voto. A decisão passa a ser tomada com base em estereótipos ou na simpatia do personagem, deixando de lado propostas concretas, histórico ético e capacidade de gestão”, afirmou o cientista político.
A avaliação, segundo ele, é diferente quando o nome utilizado representa uma identidade que o candidato já possui na profissão ou na comunidade. “A exceção ocorre quando o ‘personagem’ traduz uma identidade legítima de classe ou comunidade. Nesses casos, em vez de mascarar a realidade, o nome popular serve como uma ponte de comunicação genuína entre o representante e seu eleitorado”, completou.
Credibilidade
A inclusão de profissões, atividades ou causas no nome de urna também pode ser usada para associar o candidato a características valorizadas pelo eleitor. É o caso de referências como “doutor”, “professor”, “delegado”, “enfermeira”, “protetor” e “ativista”.
Segundo Rafael, ao incorporar um desses termos, o candidato tenta transferir para sua imagem eleitoral parte da credibilidade, autoridade ou relevância social associada à profissão ou à causa.
“Ao incorporar um título ao nome de urna, o candidato busca ‘pegar emprestada’ a credibilidade, a autoridade moral ou a utilidade social que a população já associa àquela profissão ou causa”, afirmou.
Para o cientista político, a estratégia tem dois efeitos possíveis. De um lado, ajuda o eleitor a identificar candidatos vinculados a determinados segmentos da sociedade. De outro, pode induzir à associação entre competência profissional e capacidade para exercer um cargo político.
“O efeito para o eleitorado é de via dupla: por um lado, facilita a identificação de representantes setoriais legítimos; por outro, corre-se o risco de criar uma falsa percepção de competência política irrestrita baseada apenas no prestígio de uma carreira profissional”, disse Rafael.
Marketing eleitoral
A escolha do nome de urna também integra a estratégia de comunicação da campanha. Em uma eleição com grande número de concorrentes, conseguir ser lembrado pode representar uma vantagem na disputa pela atenção do eleitor.
“Do ponto de vista da comunicação política, a definição do nome de urna é tratada como uma decisão estratégica central de posicionamento, projetada para capturar atenção em um ambiente saturado de informação”, afirmou Rafael.
Segundo o professor, um nome simples e de fácil memorização pode ajudar o candidato a deixar o anonimato e entrar no conjunto de opções consideradas pelo eleitor no momento da escolha.
“No marketing eleitoral, a memorabilidade do nome de urna opera como um poderoso filtro que retira o candidato do anonimato e o coloca no radar de decisão do eleitor”, completou.
Apelido popular e nome de campanha
Nem todo apelido usado na urna, porém, nasce de uma estratégia eleitoral. Rafael diferencia os nomes pelos quais os candidatos já são conhecidos socialmente daqueles criados especificamente para uma campanha. Para ele, a principal diferença está na autenticidade percebida pelo eleitor.
“A diferença é substancial e está na autenticidade. O apelido socialmente consolidado reflete a vida real do candidato. Quando ele usa o nome pelo qual já é conhecido no bairro ou na profissão, o nome transmite organicidade, pertencimento e confiança”, afirmou.
Nesses casos, a identificação usada na urna pode reforçar uma relação construída antes da campanha e permitir que o eleitor reconheça no candidato alguém já ligado à profissão, ao setor ou à própria comunidade.
A percepção pode mudar quando o nome surge exclusivamente para a disputa eleitoral. Rafael avalia que a estratégia pode chamar atenção e facilitar a memorização, mas também produzir o efeito contrário caso seja percebida como artificial.
“O nome criado exclusivamente para a campanha é uma jogada pura de marketing. Ele pode funcionar bem para chamar a atenção no rádio e na TV ou gerar piadas que facilitam a memorização, mas traz o risco do oportunismo. Se o eleitor percebe a artificialidade, a estratégia pode soar como falta de seriedade e afastar votos”, afirmou.
