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Dia a Dia

Ex-diretores do Amazonprev receberam R$ 620 mil de empresa investigada pela PF

6 de março de 2026 Dia a Dia
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aposentadoria
Servidores afastados da função no Amazonprev são investigados pela PF (Foto: Cláudio Heitor/Secom)
Por Felipe Campinas, do ATUAL

MANAUS — Os três ex-diretores da Amazonprev que foram alvos da Operação Sine Consensu (Sem Consentimento, em latim) nesta sexta-feira (6) receberam R$ 620,1 mil de uma empresa sediada em Niterói (RJ), que também está sendo investigada pela PF (Polícia Federal). Segundo a investigação, as transferências da Alfa A foram feitas entre junho e dezembro de 2024, no mesmo período das operações financeiras agora investigadas pela PF. Os ex-gestores beneficiados foram responsáveis pelas aplicações financeiras irregulares da Amazonprev.

A PF suspeita que o valor tenha sido transferido “a título de propina” em virtude dos “investimentos irregulares” feitos pela fundação, incluindo a aplicação de R$ 50 milhões no Banco Master, que entrou em liquidação extrajudicial. As aplicações irregulares, segundo a investigação, chegaram a R$ 390 milhões.

Na decisão que autorizou busca e apreensão contra os investigados, a juíza Ana Paula Serizawa, da 4ª Vara Criminal da Justiça Federal do Amazonas, afirmou que a operação entre a empresa e os ex-gestores foi atípica, “sem justificativa aparente”, e oferece “indícios de cometimento do crime de corrupção”.

“É completamente atípico que uma empresa que teria como objeto a administração de frotas de automóveis para terceiros e sediada na cidade de Niterói/RJ, repasse valores na casa da centena de milhares de reais a diretores de um fundo previdenciário do Estado do Amazonas, a milhares de quilômetros de distância da sede da empresa”, disse a juíza.

Nesta manhã, os agentes apreenderam materiais nos endereços de Claudinei Soares, ex-diretor de recursos e coordenador do Comitê de Investimentos; André Luis Bentes de Souza, ex-diretor de Previdência; e Cláudio Marins de Melo, ex-diretor de Administração e Finanças. A Justiça ordenou o afastamento dos três das funções na Amazonprev pelo prazo de 90 dias. O dono da Alfa A, Savio Loyola e Silva, também foi alvo de busca e apreensão. A juíza determinou a quebra do sigilo dos celulares deles.

A investigação mira cinco aplicações suspeitas de recursos da Amazonprev no período de junho a setembro de 2024. Uma delas, no valor de R$ 50 milhões, foi feita no Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Houve também aplicação de R$ 257,7 milhões no C6 Bank, R$ 51,7 milhões no Daycoval e R$ 42,2 milhões no BTG Pactual.

Atropelo de recomendação

Segundo a PF, as aplicações ocorreram em desacordo com normas de governança e regras federais aplicáveis aos investimentos de recursos previdenciários. Também foram identificados indícios de irregularidades em procedimentos internos na Amazonprev. Na decisão que autorizou as medidas judiciais, a juíza fala em “indícios de gestão inapropriada e fraudulenta dos recursos”.

De acordo com a investigação, os ex-gestores atropelaram recomendação do próprio setor técnico da instituição, que havia recomendado não realizar o investimento em letras financeiras, em razão dos riscos deste tipo de investimento e sua rentabilidade menor em curto prazo. Uma consultoria contratada pela Amazonprev em 2023 também orientava a não adquirir letras financeiras.

Além disso, a auditoria identificou que a Amazonprev, exceto na compra das letras emitidas pelo Banco Master, adquiriu os títulos através de corretoras, gerando custos e gastos de remuneração da intermediação, quando podia ter feito as aplicações diretamente junto às instituições financeiras.

“No caso da aplicação no Banco Daycoval, a entidade previdenciária utilizou os serviços da Mirae Asset CCTVM Ltda. Já nas aplicações em títulos do BTG Pactual e C6 Consignado S.A., estas foram feitas por meio da empresa Terra Investimentos”, diz a decisão.

Aplicações

Apesar das restrições, a Amazonprev realizou as aplicações, conforme revelou auditoria do Ministério da Previdência Social. A primeira compra foi no dia 6 de junho de 2024, de letras financeiras emitidas pelo Banco Master, no valor de R$ 50 milhões. Segundo a PF, ela foi feita sem discussão prévia do Comitê de Investimento e sem a realização de cotações entre instituições financeiras diferentes. O Banco Master não estava na lista de instituições com baixo risco de crédito do BC.

A segunda aplicação foi feita no dia 20 de agosto de 2024, no valor de R$ 50 milhões, em títulos emitidos pelo Banco Daycoval. Segundo a PF, neste caso também não houve consulta a outras instituições que pudessem oferecer o produto desejado na ocasião.

A investigação aponta que, neste caso, houve deliberação prévia pelo Comitê de Investimentos em 15 de abril de 2024, que aprovou a alocação. Mas, para a PF, ainda assim, é questionável a aplicação da soma sem uma cotação prévia, ainda mais em uma instituição que também não estava na lista do BC.

A terceira aplicação foi realizada em 16 de setembro de 2024, no valor de R$ 40,7 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco BTG Pactual. Os investigadores afirmam que, embora a instituição tenha uma posição mais conceituada no mercado, a contratação das letras foi feita sem uma cotação prévia. Também não foi registrada a taxa de juros pagos pela aplicação.

A quarta aplicação foi feita de forma parcelada, em letras financeiras do Banco C6. Conforme o inquérito, a aplicação foi feita em duas parcelas, ambas no dia 16 de setembro de 2024, e que totalizaram R$ 250 milhões.

De acordo com a PF, nesta situação, não houve sequer deliberação prévia do Comitê de Investimentos. Da mesma forma que em outras aplicações irregulares, não foi feita cotação prévia e a instituição emissora dos títulos não se encontrava na lista de baixo risco do BC.

Ainda de acordo com a PF, houve outra irregularidade: o fracionamento da aplicação a fim de que esta não necessitasse da aprovação de outros setores da Amazonprev, no caso a Diretoria de Administração e Finanças e a Diretoria-Presidente, de forma conjunta. Porém, mesmo com o parcelamento, o valor de cada aplicação ficou ainda superior ao permitido dentro da alçada do Coordenador do Comitê de Investimentos. Os investigadores suspeitam que tenha havido erro de Claudinei.

Transferências

Na decisão, Ana Paula Serizawa afirma que a investigação identificou “indícios de que funcionários do fundo responsáveis pelos investimentos acima citados receberam valores de forma indevida e sem justificativa aparente da empresa Alfa A Consultoria e Gestão de Frota, que tem sua sede na cidade de Niterói (RJ) e tem como sócio o investigado Sávio Loyola e Silva”.

“Os repasses de valores aos membros da diretoria da Amazonprev, conforme consta na Informação de Polícia Judiciária 16/2025 (…), foram feitos entre 12/06 e 06/12/2024, lapso coincidente com as operações financeiras questionadas pela investigação”, diz a decisão.

Ainda de acordo com a investigação, Claudinei Soares, que era coordenador do Comitê de Investimentos do Amazonprev, recebeu o maior valor da Alfa A: R$ 273,8 mil. Ele foi o principal responsável por operar as aplicações em letras financeiras emitidas pelos bancos Master, Daycoval, BTG Pactual e C6 Consignado.

Cláudio Marins recebeu R$ 185,3 mil da Alfa A. Na época, ele era Diretor de Administração e Finanças da fundação, e foi o responsável por ordenar a aplicação de R$ 50 milhões em letras financeiras em 5 de junho de 2024, o que gerou a compra de títulos do Master, ordenada por Claudinei.

A investigação também aponta que Cláudio deferiu, em 7 de maio de 2024, o credenciamento do Banco Master como emissor de títulos credenciado pela Amazonprev, permitindo que o fundo previdenciário adquirisse as letras financeiras expedidas por aquele banco.

De acordo com a investigação, André Luis Bentes de Souza recebeu R$ 161 mil da Alfa A, à época, por meio de seu escritório de advocacia. Ele era diretor de Previdência da Amazonprev e foi responsável pelo deferimento do credenciamento dos bancos Master e C6 como emissores de títulos junto à Amazonprev.

Ainda conforme a apuração, André deferiu o credenciamento do Banco Master em 15 de maio de 2024, em conjunto com a então diretora-presidente, Maria Neblina Marães. O credenciamento do Banco C6 foi deferido por André no dia 16 de julho de 2024, em conjunto com Ary Renato Vasconcelos de Souza, que substituiu Maria Neblina no cargo de diretor-presidente da Amazonprev.

Cláudio e André foram nomeados para os cargos de diretor de Administração e Finanças e diretor de Previdência, respectivamente, em janeiro de 2023, no início do segundo mandato do governador Wilson Lima.

Cláudio foi exonerado do cargo em decreto assinado pelo governador em 3 de julho de 2024. No mesmo dia, a diretora-presidente Maria Neblina Marães foi demitida. André foi demitido do cargo no dia 30 de setembro.

Suspeita de corrupção

Para Ana Paula, as remessas de valores feitas pela Alfa A aos ex-diretores “oferecem indícios de cometimento do crime de corrupção passiva”, além de indicarem a participação de Sávio Loyola e Silva no delito de corrupção ativa.

A juíza disse que a autorização de busca e apreensão é necessária para o avanço das investigações, “permitindo a descoberta de novos elementos de prova que possam estar presentes em aparelhos eletrônicos, celulares e mídias, que podem acrescentar novos elementos aos fatos investigados, esclarecendo o contexto em que os fatos objeto da investigação foram cometidos, bem como encontrando provas do envolvimento de outras pessoas que possam ter participado da suposta empreitada delituosa”.

Em nota, o diretor-presidente da Amazonprev, Evilázio Nascimento, afirmou que não é alvo da investigação e que os fatos apurados ocorreram antes de sua nomeação ao cargo, em maio de 2025. Segundo ele, ao tomar conhecimento das operações, determinou a abertura de sindicância interna para apurar possíveis irregularidades e afastou servidores do setor de Operações Financeiras. Evilázio declarou ainda que o relatório da apuração foi encaminhado a órgãos de controle e que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.

O ATUAL não conseguiu contato com a defesa dos investigados.

Leia a nota completa:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

O diretor-presidente da Fundação Amazonprev, Evilázio Nascimento, vem à público apresentar esclarecimentos necessários ao entendimento da operação “Sine Consensu”, realizada na manhã desta sexta-feira, 6/3, nas dependências da instituição.

“Em primeiro lugar, é fundamental deixar claro que eu não fui o alvo das investigações, mas três servidores sobre os quais recaem as suspeitas de irregularidades em investimentos feitos pela instituição. Na época em que as operações com o Banco Master e o C6 Bank foram efetuadas – junho e agosto de 2024 -, eu ainda não fazia parte da gestão da Amazonprev. Minha nomeação para o cargo se deu, por decreto do governador Wilson Lima, em maio de 2025. Portanto não há nenhuma fundamentação que possa me associar a tais investimentos”, destaca Evilázio.

O diretor-presidente informa que, tão logo soube dessas transações, por meio de denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da Justiça (SINTJAM) ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), no dia 4 de novembro de 2025, e até como forma de preservar a instituição, determinou a abertura de uma sindicância para apurar o que estava sendo apontado como irregularidade, afastando, de imediato, do setor de Operações Financeiras, as pessoas envolvidas.

“Essa sindicância foi concluída em janeiro de 2026 e o relatório resultante dessa apuração está sendo distribuído aos órgãos de justiça e de controle do Estado, como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), bem como aos conselheiros da Fundação Amazonprev. Tenho total interesse de que esses fatos sejam bem esclarecidos e me coloco à disposição para o que for preciso a fim de que não restem dúvidas não do meu não envolvimento, bem como do meu total interesse na apuração de toda e qualquer irregularidade”, finaliza Evilázio.

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Felipe Campinas 6 de março de 2026
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