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© 2022 Amazonas Atual
Enock Nascimento

De onde se avista a roça

1 de dezembro de 2016 Enock Nascimento
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Para ilustrar a lancinante dor provocada pela maior catástrofe da história envolvendo uma equipe esportiva, boa parte dos jornais do mundo escolheram a foto de um menino descalço. A Chapecoense iria disputar o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional e das 77 pessoas – entre integrantes do time catarinense, jornalistas e tripulantes – que embarcaram no voo rumo à Colômbia, apenas seis sobreviveram.

Para dimensionar a profunda tristeza que tomou conta da cidade de Chapecó – onde até Natal e Réveillon foram cancelados – poderiam mostrar imagens pungentes e tocantes como as geradas no estádio lotado a prantear e velar os seus mortos. Na tentativa, porém, de simbolizar todo o luto e sofrimento, vários periódicos do planeta não selecionaram as imagens coletivas de aflição. Para mostrar a dor de todos, selecionaram a tristeza de um. A foto de um franzino garoto, retratado por Nelson Almeida (AFP). Uma imagem de desamparo, inconformismo e orfandade.

E se uma imagem é capaz de expressar sentimentos complexos, como fazer isso usando meras palavras? Só com o auxílio dos poetas. Os que têm um texto para todas as situações da vida. E também da morte.

Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, escreveu “Morte no Avião”, um poema com vários trechos que retratam e combinam com o que aconteceu às vítimas do desastre da Chapecoense. Observe os versos iniciais: “Acordo para a morte. Barbeio-me, visto-me, calço-me. É meu último dia: um dia cortado de nenhum pressentimento. Tudo funciona como sempre. Saio para a rua. Vou morrer”.

Com Drummond, não é preciso registro da caixa-preta. “Sinto-me natural a milhares de metros de altura, nem ave nem mito” (…) “Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio, cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em notícia”.

E como os poetas também são profetas, há também trechos que se encaixam com a história dos que não embarcaram na aeronave e escaparam. Caso de Matheus Saroli, filho do técnico do time Caio Júnior. Ele se salvou porque esqueceu o passaporte. Nas palavras de Drummond: “Pela última vez miro a cidade. Ainda posso desistir, adiar a morte, não tomar esse carro. Não seguir para. Posso voltar, dizer: amigos, esqueci um papel, não há viagem”.

Para quem acha exagero comparar poeta a profetas, preste atenção nos versos que acertam até o número de jornalistas que morreram. “A morte dispôs poltronas para o conforto da espera. Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem.” (…)Vamos morrer, já não é apenas meu fim particular e limitado, somos vinte a ser destruídos, morreremos vinte, vinte nos espatifaremos, é agora”.

Até os poetas do rock, como os Guns N’ Roses, também homenagearam a Chapecoense. A música escolhida foi “Knockin’ On Heaven’s Door” para declarar que os vitimados estavam “Batendo na porta do paraíso”. Pensar nisso ainda é insuficiente para atender o pedido para não chorar (Don’t Cry). Um pranto que provocou uma amarga chuva no penúltima dia de novembro (November Rain). O que fazer? Como numa horas dessas ter paciência (Patience)?

Por que tanto afeto com o time de Santa Catarina? Talvez o segredo comece no nome da cidade. Chapecó quer dizer, na língua Kaingang, “Donde se avista o caminho da roça”. E é de fato um time que nos faz visualizar a roça. O nosso lado rural, caipira, em todos os sentidos, do interior. Um time que veio de baixo, subiu honestamente, jogava entre os grandes, mas se mantinha ligado e íntimo da sua comunidade.

Além de ser exemplo de trajetória para clubes amazonenses, como não torcer para um time cuja mascote é um índio? Além disso, seu estádio homenageia um cacique, do século 19, Vitorino Condá.
Outro importante poeta, Mário Quintana, fez sua crítica sobre as viagens nas aeronaves. “O mal dos aviões é que não se pode descer toda hora para comprar laranjas”. É verdade, poeta, no avião da Chapecoense, várias “laranjas” deixaram de ser adquiridas. Títulos, projetos, família, amizades.

“Donde se avista a roça”, deve-se entender que é preciso plantar e cuidar. De planos e sonhos. Mas, nem todos teremos a chance de experimentar a colheita.


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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6 Comments
  • Vivian Souza disse:
    1 de dezembro de 2016 às 17:59

    Fantástico!! És um grande poeta!!
    Vc não conta histórias, as vive!

    Responder
  • Renato Mendes Freitas disse:
    2 de dezembro de 2016 às 08:20

    Emocionante!!!! Senti o peito apertado com teu artigo!! A vida medida em poesia e palavras como as suas. Parabéns pelo texto.

    Responder
  • Anônimo disse:
    4 de dezembro de 2016 às 12:53

    Maravilha de texto , é a descrição mais perfeita que pude ler entre outras, a mais simples forma,de demonstrar a clareza nessas belas entrelinhas de um sensivel escritor. Parabéns .

    Responder
  • Jessica disse:
    4 de dezembro de 2016 às 14:15

    Que texto lindo…

    Responder
  • Diana disse:
    4 de dezembro de 2016 às 15:41

    Extraordinário texto, magnífica e sábias palavras de um excelente jornalista e um poeta.
    Parabéns Enoque Nascimento.

    Responder
  • JFERNANDES disse:
    4 de dezembro de 2016 às 17:59

    Achei interessante a forma do poeta Carlos Drummond escrever, parecia mas um profeta que poeta, as músicas do guns, sem falar no november rain, e outros.
    Muito bom esse artigo. Faz pensar se exista coincidências ou visões futuristas ou mesmo premonições.

    Responder

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