
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Pela primeira vez na democracia brasileira, convenções partidárias ocorrerão pela internet e, de forma presencial, com número mínimo de eleitores. Devido à pandemia da Covid-19, a aglomeração de pessoas deve ser evitada. Essa condição pode gerar duas situações na avaliação de analistas políticos: intensificar a centralização nos partidos políticos e distanciar o eleitor dos candidatos, principalmente no interior do estado.
Os encontros virtuais tendem a reforçar o direcionamento de decisões e a imagem de que as agremiações políticas têm donos, diz o cientista político Helso do Carmo Ribeiro. As convenções, tradicionalmente marcadas por festas e aglomerações, sairão do formato convencional para seguir as normas de distanciamento social. Segundo Ribeiro, eram nessas ocasiões que os candidatos tentavam obter mais espaço ativo nas legendas, o que será mais difícil à distância.
“Na época das convenções há uma tentativa, eu não diria nem que eles conseguem, mas há uma tentativa de horizontalizar. Você vê várias lideranças, vários candidatos a vereador levando a sua trupe”, diz.
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De acordo com Ribeiro, é comum associar os partidos a nomes de candidatos específicos, dando aos mesmos popularidade e mais influência. “Há uma tradição na política, e eu diria que mundial, de que os partidos políticos normalmente têm donos. Eles são estruturas não tão horizontalizadas, são poucos os partidos que adotam de fato uma democracia interna. A maioria, se eu for te falar de um partido, é do fulano, é do ciclano, porque eles têm propriedade”, afirma.
No meio virtual, segundo Ribeiro, essa ‘tradição’ se fortalece. “Essas convenções só vão reforçar algo já existente, um centralismo. Então são os líderes partidários, para não falar os donos dos partidos, que já direcionaram quem será o candidato, quem eles vão apoiar, com quem eles vão marchar. E aí qualquer partido tem interesse claro em garantir cargos né?”, completa.
Apesar da igualdade entre os filiados ser contemplada no estatuto dos partidos, na prática é diferente, afirma Ribeiro. “Se você pegar o estatuto dos 33 partidos brasileiros é até bonito. É prevista uma horizontalização do partido. Mas a gente sabe que uma coisa é o discurso e outra coisa é a prática”.
A centralização nos partidos, conforme Ribeiro, gera rejeição. “O que ocorre, mais uma vez, é que há um fenômeno mundial que se reflete no Brasil, em Manaus, no Amazonas. É o absenteísmo. Cada vez mais nas últimas eleições, se você pegar as cinco últimas eleições para prefeito você vai ver que houve um aumento leve para abstenção. Se você pega para governador e presidente esse aumento é maior”, afirma. “E por que isso? Porque parte da população que toma consciência de como funciona ela diz ‘Não, eu não vou participar disso, tô fora’. A população se vê impotente e a outra ela nem se toca de quando está sendo feito isso. Tem que ter muito esclarecimento e esse esclarecimento vem com a educação”.
Audiência
O cientista político Afrânio Soares diz que apesar de ser comum a presença de muitas pessoas nas convenções, a mudança para o meio virtual não é estranha para os que já vinham usando a tecnologia. “Eu acho que ninguém está pensando em ir em um show para ficar numa aglomeração. Falo show só para fazer uma analogia com uma convenção, que era quase isso. Eu acho que não vai ser traumático, porque a maioria das pessoas já está usando bastante meios de contato virtual. Esse foi um dos legados positivos desse isolamento”.
Soares avalia que no interior do Amazonas o impacto pode ser maior. “Agora, no interior talvez o pessoal sinta mais isso porque o costume era maior de soltar foguete, de reunir, fazer um almoço, um jantar, e ao mesmo tempo as convenções. Eu imagino que no interior possa ser visto com mais estranheza, mas eu não acredito que venha a causar um impacto”.
Afrânio Soares considera que o meio virtual é mais seguro para os candidatos. “Não creio que quem fizer de modo virtual vai ser visto como mais fraco. E quem fizer pensando em aglomerar pessoas corre risco até da convenção ser interrompida pela Vigilância Sanitária”.
Para Soares, o desafio no meio virtual é lidar com as limitações que o espaço oferece para a quantidade de pessoas que querem se posicionar. “Se você fizer uma reunião virtual com 500 pessoas que vão assistir, se conseguisse fazer, teria que administrar talvez um número maior de pessoas se inscrevendo para falar, querendo a sua vez para falar, ou qualquer coisa dessa forma. Eu acho que com muitas pessoas participando talvez haja essa dificuldade para o administrador da reunião”.
É como pensa também Orsine Junior, pré-candidato à Prefeitura de Manaus pelo PMN, que vê na convenção híbrida uma forma de segurança sanitária e compromisso político. “Essas aglomerações não são saudáveis no momento, então a gente faz a convenção de uma outra forma. Vamos chamar mais de corporativa. Todas as empresas estão fazendo reuniões virtuais, todo mundo está assinando documentos virtualmente. Então a gente tem que entender que a política também tem que evoluir”.
O pré-candidato acredita que pela internet o alcance da convenção pode ser maior. “Até porque as pessoas vão ficar no conforto das suas casas, escritórios. Hoje tudo está no telefone, na palma da nossa mão, e a política não pode ser diferente”, afirma.

O Avante, segundo David Almeida, pré-candidato à Prefeitura de Manaus, utilizará o formato drive-in. “A convenção será no formato drive-in num local para 300 carros. Na verdade, cabem 400, nós vamos colocar entre 270 e 300 carros, resguardando a distância, todos dentro do seu carro. E faremos a transmissão online, com os candidatos presentes, como simpatizantes que não vão poder estar presentes, com toda militância engajada na multiplicação das imagens desse evento”, diz.
Almeida não considera o ideal, mas admite que no momento é o melhor formato que pode ser adotado. “Não acredito que esse seja o melhor formato, é o formato possível. Nós vivemos o chamado ‘novo normal’ e dentro da nova normalidade é o que é possível”, diz.
