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© 2022 Amazonas Atual
Política

Última grande invenção exportada pela Itália foi o fascismo, diz escritor sobre trilogia literária

7 de janeiro de 2020 Política
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Antonio Scurati lança obras sobre ascensão do fascismo (Rai TV/Reprodução)

Por Reinaldo José Lopes, da Folhapress

SÃO CARLOS-SP – “A última grande invenção da Itália exportada mundo afora foi o fascismo”, diz o escritor napolitano Antonio Scurati, 50. “Sei que parece horrível, mas é a verdade”, completou. Numa trilogia de romances cujo primeiro volume chega agora ao Brasil, Scurati conta como tal invenção foi gestada adotando a perspectiva dos próprios fascistas, em especial a do ditador Benito Mussolini (1883-1945).

Essa é uma das premissas de ‘M, O Filho do Século’, livro que narra os primeiros anos da ascensão de Mussolini, da fundação do fascismo, logo após a Primeira Guerra Mundial, ao momento em que o líder do movimento, já primeiro-ministro, assume poderes totalitários abertamente, num célebre discurso ao Parlamento italiano em janeiro de 1925.

A outra premissa fundamental, afirma Scurati, foi usar ao máximo a abundante documentação histórica sobre o regime que existe hoje. “Existem bibliotecas inteiras dedicadas ao fascismo, como você pode imaginar. Portanto, escrever esses romances exigiu um tipo de cautela muito especial. Posso dizer que não existe no texto um único personagem ou acontecimento, nem mesmo um único diálogo, que não esteja presente nas fontes documentárias históricas. Quando esse tipo de documentação não existe, achei melhor não inventar o conteúdo de conversas, por exemplo, por mais que elas sejam importantes para a narrativa”.

De fato, todos os capítulos, em geral breves, contam com epígrafes tiradas de cartas, discursos, artigos de jornal e outros textos dos anos 1910 e 1920, os quais também são alinhavados no fluxo principal da narrativa. Mussolini e seus comparsas de primeira hora emergem desses dados documentais como, acima de tudo, produtos da brutalidade das trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

São ex-soldados rasos ou jovens oficiais da reserva desiludidos com a posição de inferioridade da Itália no pós-guerra, apesar de seu país ter ficado do lado dos vitoriosos no conflito e da morte de mais de 600 mil italianos. Muitos também são ex-socialistas, como o próprio Mussolini, para os quais é preciso evitar a todo custo que a revolução que criara a União Soviética na Rússia se repetisse na Itália. “Mussolini dizia que os fascistas eram profissionais da violência, e é uma descrição bastante boa, de fato”, afirma o escritor italiano.

Para Scurati, é preciso evitar a tentação de encaixar o líder fascista em dois estereótipos opostos: o de bufão político, com talento para lapidar sua imagem de durão com caras e bocas, mas pouca habilidade militar ou governamental, ou o de figura demoníaca. “As duas visões são totalmente incorretas. Estamos falando de alguém que tinha uma inteligência política extraordinária, que obteve o poder saindo praticamente do zero, e que inspirou toda uma forma nova de fazer política. Não podemos esquecer que Hitler considerava Mussolini a sua grande inspiração e chegou ao poder, em parte, copiando as estratégias dele”.

Diante da pergunta inevitável sobre as implicações de uma obra como a sua para compreender o momento político presente, Scurati parece tentar pesar bem as palavras.

“Penso que o contínuo alarmismo sobre uma nova onda fascista hoje tende a desviar a atenção do problema verdadeiro”, diz ele. “Aquele fascismo dos livros, com a saudação romana (o braço estendido, similar ao gesto nazista), não voltará. Não vemos hoje o uso generalizado da violência como arma política. O que temos são grupos agindo dentro das regras formais do jogo democrático. Mas, de fato, outra parte de suas táticas lembra as do fascismo, farejando os humores baixos, rancores, medos e descontentamentos das massas e se valendo deles para seus objetivos políticos”. Segundo ele, o Brasil foi o primeiro país a adquirir os direitos de tradução do livro. 

O escritor diz que já vem trabalhando há bastante tempo no segundo volume da trilogia, cujo título será ‘M, O Homem da Providência’. A expressão vem de declarações feitas por membros da Igreja Católica, incluindo o papa Pio 11, segundo as quais Mussolini teria sido enviado pela Providência divina para colocar a Itália no rumo certo (seu governo assinou o acordo que transformou o Vaticano em Estado independente).

“Esse segundo livro deve tratar dos anos centrais do regime fascista, até a metade da década de 1930, enquanto o terceiro volume abordará a criação de leis raciais semelhantes às do nazismo na Itália e a barbárie e a derrocada do regime na Segunda Guerra Mundial”. Segundo o autor, uma série de TV baseada nos livros já está em pré-produção e deverá ser dirigida por um sul-americano. “Só não posso dizer quem é ainda”.

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Assuntos Antonio Scurati, fascismo
Cleber Oliveira 7 de janeiro de 2020
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