
O transporte público de Manaus está longe, muito longe de uma solução. Não há no curto prazo, pelo menos nos discursos políticos, perspectiva de solução. Não é difícil se chegar a essa conclusão. Basta fazer uma pergunta: existe um projeto para uma solução eficaz? A resposta é não.
Não se trata de projeto como o que vem sendo implantado pela Prefeitura de Manaus na atual gestão. Tal projeto (se é que assim pode ser chamado) já foi testado lá atrás, na gestão de Alfredo Nascimento, nos idos de 2003-2004 e mostrou-se um fracasso. Agora, o mesmo mentor do falido Expresso, Pedro Carvalho, teima em implantar um sistema de transporte sem nenhuma perspectiva de dar certo, apenas mudando o nome para BRS (Bus Rapid Sistem).
Quem conhece o sistema de transporte de Curitiba sabe que o BRS ou BRT que os gestores de Manaus têm discutido nos últimos anos não tem nenhuma chance de resolver ou amenizar os problemas do transporte público. Quem conhece, mesmo que pela propaganda oficial, o sistema de transporte de Bogotá (Colômbia), percebe que é preciso mais do que um simples arremedo ou remendo, como querem fazer na capital amazonense.
A primeira providência deveria ser uma decisão política de discutir com seriedade o problema e começar a trabalhar a solução, o que não é coisa para um gestor. Desde o princípio, desde que o poder público começou a conceder o serviço de transporte à iniciativa privada, buscam-se soluções a partir das empresas concessionárias. E a experiência de Bogotá está aí para mostrar que uma solução eficaz para o transporte exige a quebra da hegemonia das empresas na gestão do sistema.
A história do sistema de transporte de Bogotá, contada no site da Transmilenio, a empresa criada para gerir o transporte público na capital colombiana, inclui a ira dos empresários, que se opuseram ao projeto. “Depois de alguns inconvenientes, incluindo a oposição de alguns vereadores e empresas de transporte, o Conselho Bogotá aprovou o projeto para a criação do sistema por um acordo em abril de 1999, que autorizou o prefeito, em nome da cidade de Bogotá, participar, em conjunto com outras entidades do distrito da constituição da Empresa de Transporte Terceiro Milênio SA (Transmilenio)”, diz o histórico da empresa.
A criação da empresa foi um passo importante, mas ela é apenas a executora de um projeto de Estado, pensado para a cidade de Bogotá para os próximos 20 anos. E desde então, todos os governos passaram a tratar o projeto como prioridade. Iniciado em 1999, o projeto foi concluído em 2011, mas a Transmilenio não para de trabalhar pela melhoria do sistema.
Outra decisão fundamental para o êxito do transporte público de Bogotá foi o controle pelo Estado da gestão do sistema. A Transmilenio é uma empresa pública, com capital privado também, mas o controle é do Estado. As empresas privadas que participam do sistema, principalmente com as linhas alimentadores, estão submetidas às regras e ao controle da Transmilenio.
Esse controle possibilita a manutenção de uma tarifa relativamente baixa em relação aos preços praticados no Brasil. A Transmilenio mantém dois preços de tarifa: uma para os horários de pico e outra para os horários de menor movimento, uma estratégia criada em 2012 para incentivar o uso do sistema nas horas de menor demanda de passageiros. A expectativa era de que aumentasse também o número de passageiros no sistema com a tarifa mais baixa fora do horário de pico, o que não ocorreu.
Diante do fracasso da medida, no ano passado a Transmilenio decidiu que a partir deste ano a tarifa seria elevada em 100 pesos (moeda da Colômbia). A tarifa mais baixa passaria de 1.400 pesos para 1.500 pesos e a mais alta, de 1.700 pesos para 1.800 pesos. Convertendo para o Real, o valor fica em R$ 1,72 a tarifa mais baixa e em R$ 2,07 a mais alta.
Essa tarifa possibilita os investimentos necessários para a melhoria do sistema e o lucro das empresas privadas.
Bogotá conseguiu provar que a iniciativa privada não é mais eficiente do que o setor público quando os gestores tratam a coisa pública com seriedade. O problema do Brasil é que a corrupção na administração pública fala sempre mais alto que o interesse dos cidadãos.
Falta honestidade aos gestores e coragem para iniciar um projeto de longo prazo que, de fato, garanta um sistema eficiente no futuro. O futuro para os políticos brasileiros tem apenas dois anos, ou seja, o intervalo entre uma eleição e outra.
Valmir Lima é jornalista, graduado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), com pesquisa sobre rádios comunitárias no Amazonas. Atuou como professor em cursos de Jornalismo na Ufam e em instituições de ensino superior em Manaus. Trabalhou como repórter nos jornais A Crítica e Diário do Amazonas e como editor de opinião e política no Diário do Amazonas. Fundador do site AMAZONAS ATUAL.
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