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Dia a Dia

‘Sociedade da Neve’ reconstituiu tragédia dos Andes há 50 anos

25 de março de 2023 Dia a Dia
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Sobreviventes dos Andes: 16 atletas foram resgatados vivos de montanha (Foto: reprodução)
Sobreviventes dos Andes: 16 atletas foram resgatados vivos de montanha (Foto: reprodução)
Por Reinaldo José Lopes, da Folhapress

SÃO CARLOS – Há 50 anos, um grupo de 16 jovens uruguaios protagonizou uma história de sobrevivência que ainda parece beirar o inacreditável. Depois que o avião militar fretado pelo time de rúgbi deles se chocou contra as encostas dos Andes, na fronteira entre a Argentina e o Chile, os rapazes e seus colegas e familiares foram dados como mortos, passando 72 dias presos em meio à neve das montanhas, até ser resgatados por militares chilenos. Uma nova edição do único livro que reúne depoimentos de todos os sobreviventes do desastre acaba de chegar ao Brasil, retratando de dentro os meses passados por eles na montanha.

O aspecto “interno” da narrativa é ressaltado pelo autor de “A Sociedade da Neve”, o escritor e jornalista uruguaio Pablo Vierci. Em certo sentido, ele passou a maior parte da vida se preparando para escrever a obra. Ele é da mesma geração de alunos do colégio Stella Maris-Christian Brothers, em Montevidéu, que participavam do time de rúgbi e sobreviveram à tragédia.

Entre os membros do grupo estava Nando Parrado, amigo com quem ele convivera durante dez anos de ensino fundamental e médio. “Nossas carteiras foram vizinhas uma da outra na sala de aula esse tempo todo”, contou Vierci à Folha. Como era um dos poucos ex-alunos da escola com desejo de se tornar escritor, Nando o procurou para que tentassem contar aquela história juntos.

“Mas eu percebi que aquilo era grande demais para alguém de 20 e poucos anos que ainda não tinha publicado livro nenhum”, explica ele. Além disso, muitos dos sobreviventes ainda não queriam tocar nas feridas deixadas pelo acidente, mesmo porque os 16 que desceram das montanhas com vida eram menos da metade dos 45 passageiros e tripulantes que estavam na aeronave no momento do impacto. Muitos dos mortos também eram amigos próximos e mesmo vizinhos de Parrado e Vierci, o que dificultava enfrentar o tema.

Décadas depois, e com a experiência adquirida ao escrever diversas reportagens sobre o tema, essas barreiras diminuíram, e Vierci pôde sentar para conversar com cada um dos sobreviventes. Os capítulos de “A Sociedade da Neve” entremeiam uma narrativa geral do acidente, do tempo passado a quase 4.000 m de altitude nos Andes e do resgate com depoimentos em primeira pessoa de Nando Parrado em seus companheiros.

“Foram anos conversando e gravando. Cada um dos depoimentos dariam um livro de 200 páginas”, explica Vierci. “Meu trabalho foi transformar isso em pequenos capítulos. E o mais interessante é que, quando mostro o texto para eles, imediatamente se reconhecem ali, embora o texto seja uma condensação minha. É quase como se fôssemos um só”.

Das 45 pessoas a bordo no momento do impacto (causado por um erro de rota na travessia dos Andes), 33 sobreviveram ao primeiro impacto e mais cinco morreram na primeira noite. Mais oito foram vitimados por uma avalanche que recobriu toda a fuselagem do avião, onde tinham improvisado um abrigo, dias depois.

Sem praticamente nenhuma comida, presos num ambiente de temperaturas perpetuamente negativas onde só havia neve e rocha, o grupo se viu forçado, não sem muita relutância inicial, a se alimentar com a carne dos mortos, preservada pelo frio. O “canibalismo de sobrevivência” foi o aspecto mais explorado por reportagens sensacionalistas, mas Vierci ressalta que o “pacto de solidariedade” entre os membros do grupo foi muito mais profundo.

“Dá para pensar naquilo como um experimento”, compara o escritor. “O que acontece se você joga dezenas de pessoas, muitas delas feridas gravemente, num dos ambientes mais inóspitos do mundo? Será que, como dizem muitas histórias pós-apocalípticas, como ‘Mad Max’, uma fera vai emergir? Ao menos nesse caso, a resposta foi ‘não’ – foi justamente o contrário”, resume ele.

Ao descobrir que o contato físico era uma das poucas coisas capazes de manter algum calor naquele ambiente extremo, os sobreviventes do voo chegavam a passar horas massageando mãos e pés de amigos feridos para que eles não gangrenassem. Ou, durante caminhadas para tentar encontrar uma saída, quando não tinham o abrigo do avião para passar a noite, passavam a madrugada dando tapas nas costas uns dos outros para fazer o sangue circular.

Rapazes no primeiro ou segundo ano da faculdade de medicina faziam de tudo para tentar curar fraturas ou mesmo operações simples nos feridos. Outros conseguiram improvisar óculos e sapatos de neve, costuravam sacos de dormir impermeáveis com os dutos de ventilação do avião, aprendiam como usar a luz refletida do Sol para derreter a neve e produzir água. Antes daquilo, muitos deles sequer tinham visto neve alguma vez na vida.

Em vez de um salve-se quem puder, foi a cooperação e a compaixão que permitiu que eles sobrevivessem tanto tempo, diz Vierci. Aprendendo com os desastres de duas expedições anteriores, Nando Parrado e Roberto Canessa conseguiram atravessar uma montanha de 4.600 m (batizada como monte Seler pelo próprio Parrado, em homenagem ao pai do rapaz) e, após cerca de dez dias de caminhada, conseguiram pedir ajuda a um tropeiro chileno.

Apesar dos horrores do desastre, vários dos sobreviventes se recordam do aspecto transformador da experiência. Muitos mencionam a transformação espiritual pela qual passaram nos Andes, ligada, em grande parte, à capacidade de se doar aos outros de forma absoluta. “Alguns falam do ‘Deus da montanha’, que é completamente diferente de qualquer experiência religiosa que podiam ter na planície”, diz o escritor.

Para Vierci, a história do desastre não deve ser esquecida tão cedo. “O que aconteceu é tão exorbitante, tão fora de série, e ao mesmo tempo tem um potencial tão grande para ser aplicado na vida das pessoas que ficam sabendo desses fatos, que a história vai continuar sendo contada”.

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