

Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – A cada eleição, novos nomes chegam ao poder com a promessa de romper com a chamada “velha política”. O discurso fala em renovação, combate à corrupção e às facções criminosas e uma gestão mais eficiente com políticas voltadas ao bem comum.
Mas cientistas políticos e sociais avaliam que, apesar de novos discursos, os representantes do povo permanecem privilegiando interesses individuais, alimentando a cultura da “politicagem”, independentemente da geração ou da ideologia de quem governa.
Afinal, a política brasileira mudou ou apenas aprendeu a falar uma nova linguagem?
O conceito de “velha política” costuma estar associado a práticas como clientelismo, fisiologismo, troca de favores, distribuição de cargos e uso da estrutura pública para fortalecer alianças e grupos políticos. O problema, segundo estudiosos do tema, é que essas práticas não desapareceram com a chegada de políticos mais jovens ou de novos movimentos ao poder. Em diferentes governos e partidos, a lógica de construção e manutenção do poder continua impondo desafios à eficiência do Estado e à relação entre representantes e sociedade.
“A ideia de ‘nova política’ está ligada àqueles que nunca foram candidatos, nunca exerceram cargos públicos, mas eu penso que isso faz parte de um discurso eleitoral. Existem vícios que são muito enraizados. Eu vejo que ‘velha política’ é uma política eleitoreira, visando apenas o pleito e não o bem de todos”, afirma o cientista político Helso Ribeiro.

Clientelismo
Entre as características da política que norteia as ações dos governantes está o clientelismo, que é uma estrutura de relação com trocas de favores para beneficiar apenas interesses de grupos. Isso se fortaleceu com a expansão do embate entre as ideologias de direita e esquerda. Como forma de segurar a máquina pública, governantes continuam mantendo estruturas familiares no poder e no arcabouço dos poderes executivo e legislativo.
Na contramão da diversidade política e ideológica, os representantes que sustentam a “velha política” distribuem secretarias, diretorias ou cargos estratégicos a partidos e grupos aliados em troca de benefícios e de permanência no poder. Também exigem apoio político em troca de vantagens e usam emendas parlamentares para fortalecer bases eleitorais. As práticas são comuns e, durante discursos, as ações da “velha política” são repreendidas em palanques por quem promete renovação.
O cientista político Carlos Santiago explica que a prevalência de interesses de grupos atinge diferentes classes sociais e regiões do país, especialmente com promessas durante as eleições.
“No Amazonas, por exemplo, há famílias com mandatos no Congresso Nacional, nas casas legislativas estaduais e municipais e no poder executivo, o que torna a política uma extensão, não do bem comum, mas de interesses privados. Uma vez que há uma fórmula de capturar o voto das pessoas humildes, com troca de objeto material e de promessas, enquanto as camadas mais abonadas socialmente envolvem tráfico de influência, emprego e nomeações em cargos públicos”, diz Santiago.
O maior desafio, afirma o analista, é interromper o ciclo vicioso, pois as ações estruturalmente organizadas oferecem vantagens a curto prazo e dependem da participação popular para se perpetuarem. Santiago explica que, para combater “a velha política”, não basta apenas eleger políticos com discursos disfarçados, mas perceber o conjunto de intenções que se manifestam nos candidatos que prometem renovação.
“E é muito difícil combater o clientelismo, muito difícil o povo saber dos malefícios que é o patrimonialismo na vida pública do país. Uma vez que o eleitorado nacional não tem votado de forma consciente, analisando as consequências do seu voto, causando ainda mais uma negativa na qualidade dos políticos e da política”, disse.
“Mas é possível romper com o clientelismo. É só o eleitor não vender seu voto, não trocar o seu voto por favores, votar com muita responsabilidade, objetivando o bem comum, a coletividade. Só assim é possível melhorar a política, a qualidade dos administradores e dos representantes públicos”, acrescentou o cientista político.

Jogo político
É dessa forma que as negociações políticas funcionam. Parlamentares apoiam projetos do governo em troca de cargos, liberação de recursos ou outras vantagens políticas. Partidos abandonam posições programáticas para ocupar espaços no governo. E ainda: um partido muda sua posição ou passa a apoiar determinado governo principalmente para conquistar cargos, recursos ou influência.
Essas práticas fazem parte do chamado “toma lá, dá cá”, algo que se naturalizou no Congresso Nacional e é o exemplo de uma estrutura funcional a qual a política brasileira está submetida. Para quem é novo no jogo, o jeito mais fácil é se adequar às regras.
“O jogo político é um jogo de concessões, de avanços e retrocessos. E isso faz parte da negociação do sistema de democracia representativa. Muitas vezes, essa negociação vira “toma lá, dá cá, principalmente quando você vê negociação do executivo com legislativo. Pessoas do executivo acabam usando desse fisiologismo, desse clientelismo para manter a estrutura de poder que eles alcançaram”, disse o cientista político Helso Ribeiro.
Problema institucional
Pensar nas velhas práticas é pensar na política como ela é. O eleitor faz parte e sustenta esse sistema. Nos países, como o Brasil, onde há a democracia representativa, os governantes vão em busca de atender um público específico, nem sempre se trata daqueles que os elegem. Essas são observações feitas pelo cientista político Breno Leite. O analista aponta a relação de troca entre eleitores e governantes e a naturalização dos discursos.
“Os políticos prometem para os pobres, mas depois de eleitos, eles não vão governar para os mais pobres, eles vão governar justamente para os mais ricos. Então, o jogo institucional depende dessa trama. Em alguns casos, a população até reclama: ‘pô, você sumiu daqui, só aparece aqui de quatro em quatro anos, de dois em dois anos’. Então, assim, talvez seja a janela de oportunidade do segmento mais pobre da sociedade ganhar algum tipo de benefício”, explica.
“Não é uma questão moral. É uma questão institucional. Ou seja, as instituições propiciam esse tipo de situação, elas condicionam esse tipo de situação. E, nesse sentido, aqueles que precisam vão usufruir do que é possível. É porque depois que a eleição se encerra e os políticos somem, eles [eleitores] vão ter que virar e dar o jeito, né?”, acrescenta Breno.
Sobre a manutenção desse sistema, o cientista político afirma que ele se torna um mecanismo de sobrevivência das novas vozes da política. “Aquele que é o jovem na política muitas vezes adota uma estratégia crítica, uma estratégia de confrontação, no sentido de tentar angariar espaço na política. Mas essa realidade acaba por se ajustar. Ou seja, os novos políticos precisam sobreviver agora na política. E a sua sobrevivência depende, muitas vezes, das trocas de favores, do clientelismo”, disse o especialista.
