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Política

Política do espetáculo atrai para adesão coletiva, mas sem projetos práticos

8 de fevereiro de 2026 Política
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Deputado Nikolas Ferreira na caminhada com apoio de fãs: espetáculo midiático da política (Imagem: Instagram/@nikolasferreira/Reprodução)
Deputado Nikolas Ferreira na caminhada com apoio de fãs: espetáculo midiático da política (Imagem: Instagram/@nikolasferreira/Reprodução)
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL

MANAUS – A caminhada de Nikolas Ferreira foi um espetáculo cuidadosamente calculado para desviar a atenção de escândalos reais que envolvem a direita brasileira e, ao mesmo tempo, mobilizar emoções coletivas de forma estratégica, afirmam analistas políticos ouvidos pelo ATUAL.

Segundo eles, a política brasileira deixou de ser o exercício tradicional de organização e administração da sociedade para se tornar um grande apelo ao psicológico do cidadão, com atos performáticos que geram adesão coletiva sem efeitos práticos concretos.

“Essa caminhada do Nikolas Ferreira tem, entre outros objetivos, desviar o foco dos reais problemas que, hoje, parte da direita enfrenta, que envolve o Banco Master, problemas também com as verbas parlamentares, que estão sob suspeitas de lavagem de dinheiro e superfaturamento”, afirma o cientista político Paulo Ramirez.

Mais imagens, menos conteúdos

Segundo Ramirez, vivemos atualmente na chamada “sociedade do espetáculo”, conceito desenvolvido pelo filósofo francês Guy Debord na década de 1970 em “as imagens são mais importantes que os conteúdos, em que cada ato se transforma num espetáculo como se fosse também uma mercadoria que seduz os indivíduos a agirem a partir das paixões e não da razão”. Conforme o especialista, essa lógica de consumo foi transportada diretamente para o campo político.

Para Ramirez, Nikolas Ferreira é resultado direto dessa lógica mercadológica aplicada à política contemporânea. “O Nikolas Ferreira é resultado de uma estratégia política de viralização através de monetização da sua imagem”, diz Paulo Ramirez. Ele avalia que o deputado funciona essencialmente como “distrator, uma forma de desviar a atenção dos reais problemas da sociedade, como econômicos e de segurança” que afetam concretamente a população brasileira.

Apoio ao ‘inimigo’

O cientista político Afrânio Soares confirma essa análise e acrescenta elementos sobre as motivações pessoais do deputado. “Ele usou um contexto que é a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, que é o ícone da direita, onde ele ideologicamente se posiciona e é óbvio que o deputado Nikolas tem interesses futuros. Ele, inclusive, deve disputar quando tiver idade para isso a Presidência da República”. De acordo com Soares, a popularidade conquistada agora será fundamental para ambições eleitorais maiores no futuro.

Na avaliação de Afrânio, a tática de apelar para as emoções funciona precisamente porque a política não é feita apenas de razão e argumentos lógicos. “A política é formada por muitas coisas, dentre elas a emoção, mexer com a emoção do eleitor, seduzir, digamos assim, o eleitor através da emoção”, explica o especialista, reconhecendo que o componente emocional sempre esteve presente na atividade política, mas ganhou proporções inéditas na era digital.

Manifestação em Manaus contra anistia e Pec da Blindagem (Foto: Divulgação/Mídia Ninja)
Manifestação em Manaus contra anistia e PEC da Blindagem: reação racional do eleitor à política de privilégios a grupos (Foto: Divulgação/Mídia Ninja)

Para os especialistas, um dos paradoxos mais intrigantes e preocupantes da política brasileira contemporânea é compreender por que tantas pessoas apoiam entusiasticamente movimentos que atuam diretamente contra seus próprios interesses materiais e sociais.

Segundo eles, a extrema direita não apresenta projetos consistentes de bem-estar social, políticas públicas de saúde, educação ou geração de emprego, mas apenas discursos genéricos de poder que, na prática, beneficiam exclusivamente grupos empresariais e elites econômicas.

Imaginário comunista

Para Welton Oda, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), há uma construção ideológica sofisticada que opera nesse processo de convencimento. “Eles criaram no imaginário que defender assistência social, defender saúde pública, defender educação pública é coisa de comunista. As pessoas acreditam que essa coisa de depender de benefícios sociais, de direitos sociais, isso é coisa de pessoas preguiçosas, de pessoas vagabundas. Essa foi a grande armadilha em que parte da sociedade caiu por ingenuidade”. Conforme Oda, essa narrativa conseguiu associar direitos sociais básicos a uma suposta falta de caráter individual.

Paulo Ramirez complementa a análise apontando para as raízes econômicas da frustração que alimenta esses movimentos. “O problema é que o neoliberalismo e a globalização acabaram gerando mais problemas do que as promessas de solução deles no passado”.

Para o cientista político, a frustração econômica generalizada, diante da impossibilidade de realizar sonhos de consumo e ascensão social, encontra uma falsa resposta em “discursos mais abstratos, com lemas que, de fato, não vão mudar absolutamente nada, como Deus, Pátria e Família”. Segundo Ramirez, são palavras de ordem que mobilizam emocionalmente sem apresentar soluções concretas.

Cartão do Bolsa Família: política de distribuição de renda deturpada por políticos de direita (Foto: Lyon Santos/ MDS)

De acordo com Ramirez, do ponto de vista da psicologia das massas, teoria desenvolvida por Sigmund Freud no início do século XX, o indivíduo inserido em grupo transfere para a figura do líder carismático funções psíquicas que não consegue mais sustentar sozinho em meio à complexidade do mundo moderno.

“Quando o indivíduo se insere de forma comunitária, ele transfere para o comandante funções psíquicas que já não consegue sustentar sozinho — como esperança, ordem, direção moral e sentido”, explica o especialista, ao exemplificar como líderes populistas ocupam esse vazio existencial e moral.

Na avaliação de Welton Oda, que cita o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e sua metáfora do rebanho, a descrição é ainda mais contundente. “Quando fala do rebanho, tem muito a cara desse comportamento, de alguém que precisa de outro, que não é capaz de pensar, não é capaz de ter autonomia intelectual. Então, se apoia, se escora em uma multidão, um líder, alguém que precisa de alguém para pensar, porque ele não é capaz, ele não tem segurança emocional para pensar sozinho”. Para o professor, trata-se de uma clara falta de pensamento crítico e independente.

Deus na política

Segundo os especialistas, a presença massiva e crescente de pastores evangélicos na política brasileira, especialmente das igrejas neopentecostais, também faz parte desse fenômeno de lideranças que se apresentam como salvadoras da sociedade. Oda faz uma distinção provocativa entre a figura histórica de Jesus e a representatividade religiosa na política.

“Se você pensar hoje a teologia da prosperidade e, mais adiante, a teologia do domínio, você vai ver uma contradição entre a figura de Jesus, um símbolo muito afastado da realidade dessas pessoas, desses crentes que acreditam em ficar ricos e outras coisas como uma bênção divina. Então, tem-se adulterado o cristianismo. E são esses pastores, essas lideranças de um cristianismo sem Cristo”. Conforme o professor, esse movimento causa o esvaziamento dos valores cristãos originais de solidariedade e justiça social.

Conforme Afrânio Soares, essa penetração religiosa na política tem claros interesses corporativos e de poder. “A maioria dos pastores é vinculado à direita ou extrema direita, e inclusive o racha na direita, parte do racha da direita, se deve à não-contemplação do que alguns pastores pleiteavam”. Segundo o cientista político, há disputas concretas por cargos, verbas e influência política que nada têm de espiritual.

Parlamentares evangélicos no Senado: fake news sobre bancada (Foto: Pedro França/Agência Senado)
Parlamentares evangélicos no Senado: mais poder e menos Deus (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Para Oda, a extrema direita prospera exatamente na divisão radical e simplista do mundo entre bem e mal, sem nuances ou complexidades. “A direita joga com o maniqueísmo, porque o pensamento de bem e mal é muito mais simplório. Então, fazer refletir é muito mais difícil sempre”, analisa o professor, destacando que a reflexão crítica exige esforço intelectual que muitas vezes as pessoas não estão dispostas ou não foram educadas a fazer.

Na avaliação de Paulo Ramirez, esse processo tem uma função ideológica clara de mascaramento da realidade. “O bolsonarismo, em linhas gerais, é uma forma de mascarar as verdadeiras contradições da sociedade, atraindo um público incapaz de entender as mudanças comportamentais e, muito menos, incapaz de entender o que eles defendem, exatamente aquilo que os oprime”.

Segundo o especialista, trata-se da velha estratégia de fazer o oprimido defender o opressor por meio da confusão ideológica.

Com Bolsonaro preso e politicamente desgastado, segundo os especialistas, surgem naturalmente novos candidatos a ocupar o papel simbólico de líder da extrema direita brasileira. “Enquanto homens são atacados, o mecanismo psíquico que os produziu continua ativo. Indivíduos passam, mas os símbolos não se rendem; permanecem. Ideias não sangram e se preciso, elas mudam de hospedeiro”, pontua Ramirez ao citar uma metáfora que, conforme ele, ilustra tem a continuidade dos movimentos políticos para além das pessoas.

Credibilidade

Para Oda, o bolsonarismo enfrenta uma crise de credibilidade que é anterior mesmo à prisão do ex-presidente. “Essa farsa da defesa, do combate à corrupção, sendo corrupto, ela foi se desgastando. A defesa da família tradicional, mas com três ex-esposas. Então, tudo isso vai ficando evidente para a população. Bolsonaro no Brasil está desgastado. E aí, a extrema-direita também tem muita dificuldade de encontrar alguém à altura”. Na avaliação do professor, as contradições entre discurso e prática tornaram-se inegáveis.

Segundo Afrânio Soares, a estratégia da família Bolsonaro é clara em termos de sucessão política. “O interesse do Bolsonaro é manter alguém de sua extrema confiança e o nome da família em evidência, indicando o filho Flávio como o sucessor natural e herdeiro político”.

Mas o cientista político ressalta um problema crucial. “O Flávio a priori não conseguiu unir a direita”. Conforme Afrânio, a direita brasileira está fragmentada em várias correntes que disputam entre si a hegemonia do campo conservador.

Espaço ocupado

Para os especialistas, a questão que fica em aberto é se a extrema direita ocupou de forma oportunista um espaço comunicacional e simbólico que foi deixado vazio pela esquerda brasileira.

Oda reconhece essa deficiência. “De fato, no parlamento, realmente a esquerda está muito mais bem servida dessas figuras que falam simples, que se comunicam diretamente”. Segundo o professor, falta à esquerda a capacidade de falar a linguagem popular de forma eficaz e mobilizadora.

Na visão de Paulo Ramirez, a origem estrutural do problema está na própria transformação da sociedade contemporânea. “A consequência disso é uma alienação política gerada pela espetacularização crescente das relações sociais, onde não se tratam mais de relações entre pessoas, mas entre imagens de coisas, e é uma imagem hedonista, sedutora”.

Para o cientista político, a política virou entretenimento e consumo de personalidades.

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Assuntos bolsonarismo, comunismo, direita, Eleições 2026, evangélicos, Jair Bolsonaro, manchete, Nikolas Ferreira
Thiago Gonçalves 8 de fevereiro de 2026
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