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Dia a Dia

Opinião: Democracia e meio ambiente – a questão da Amazônia

30 de agosto de 2019 Dia a Dia
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Por Paulo Paim, especial para o Amazonas ATUAL

PORTO ALEGRE (RS) – O Brasil vive um momento sui generis, de entropia. Há uma desordem de pensamento e uma imprevisibilidade de palavras. Muros e descaminhos são construídos de dentro para fora. A energia que congrega o equilíbrio e a vida do país se desmancha na liquidez, como diria Zygmunt Bauman.

Tomemos a questão do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Somos o epicentro dos debates e das críticas. Por não levarmos o problema a sério e não termos ação consistente, conseguimos, assim, pautar as redes sociais, os veículos de comunicação tradicionais, os parlamentos, os encontros de líderes. A opinião pública mundial nos aponta o dedo.   

O desmatamento na bacia do Rio Xingu cresceu 44% em maio e junho deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados são do Sirad, boletim publicado a cada dois meses pela Rede Xingu +, que é composta por 24 organizações ambientalistas e indígenas.

Entre janeiro e junho deste ano, a região perdeu 68.973 hectares de florestas. Vivem aí 26 povos indígenas e centenas de comunidades ribeirinhas. O bom funcionamento do ecossistema é primordial para a sobrevivência desse cenário de multicores e de diversidades. Atacá-lo é um crime brutal.

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) aponta que, entre janeiro e o dia 19 de agosto último, houve um aumento de 83% das queimadas em relação ao mesmo período de 2018, com 72.843 focos de incêndios. Em efeito dominó, as chamas se alastram pela Amazônia. Estudos mais avançados explicitam a grandiosidade do problema. Satélites detectam a destruição.

Quando uma árvore é derrubada e o fogo destrói a floresta, quando as águas são contaminadas e os rios secam, quando sonhos viram desertos e os pássaros deixam de voar, quando não há mais sombras e nem horizontes… milhões de vidas se perdem pelos olhos desumanos da estupidez e da ignorância. A quem interessa sangue verde derramado?

Há pouco tempo, tivemos dois desastres ambientais de proporções gigantescas com o rompimento de barragens em Mariana e Brumadinho. Vidas foram ceifadas, famílias destruídas, flora e fauna agredidas, animais mortos, vertentes poluídas. Há outros que estão no amargor das nossas memórias: vazamento de óleo nas bacias Guanabara e Araucária, em 2000; rompimento da barragem Miraí, em 2007; incêndio na Ultracargo, em 2015, e tantos outros. 

Os Três Poderes devem estar à altura do assunto. Não bastam mais reticências.  Devemos priorizar a construção de leis e de políticas públicas eficazes de preservação, proteção e fiscalização ambiental que possibilitem o desenvolvimento sustentável com soberania. É preciso atenção urgente, não só para com a Amazônia, mas também para com os biomas Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. Meio ambiente é questão de Estado.

Temos que redobrar a vigilância e ficar de olhos bem abertos na instalação de mineradoras junto às bacias hidrográficas. A do rio Camaquã, no Rio Grande do Sul, por exemplo, tem uma extensão de 400 quilômetros e atinge 28 municípios. Nas suas proximidades e arredores, seriam extraídos zinco, cobre e chumbo. Moradores, produtores rurais, agricultores familiares e ambientalistas estão mobilizados, pois temem desastres e prejuízos socioambientais e econômicos.

Durante a reunião do G7, ventilaram-se sanções comerciais ao nosso país, pressões internacionais por meio de barreiras, da instauração de cotas ou do aumento de alíquotas. Deixar chegar a esse ponto é uma prova cabal da nossa incompetência. Aceitar a ajuda financeira internacional não significa perda da soberania. Leia-se aqui o Fundo Amazônia. Temos que ter humildade e sabedoria para compreender a nossa dimensão e a nossa responsabilidade para com o planeta Terra.

Tudo está conectado: pessoas, meio ambiente, cidades, diversidades, liberdade, justiça, garantias sociais, previdenciárias e trabalhistas, bases angulares de uma sociedade humanista e humanitária que perseguimos.  O elo é a velha e boa democracia, mesmo com seus problemas, desafios e agressões que lhe fazem todos os dias.  Tal qual o seu nascimento, na antiga Grécia, está a certeza de que cada vez mais temos que acariciá-la e deixá-la seguir o seu rumo.

A democracia é a única certeza que temos para combater a miséria e as desigualdades do nosso Brasil. Esse é o segredo.

*Paulo Paim é senador pelo PT-RS, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado.

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Assuntos Amazônia, democracia, Fundo Amazônia, Meio Ambiente, Paulo Paim
Valmir Lima 30 de agosto de 2019
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