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Política

Na Expo 2020, ditaduras e países em conflito constroem realidade paralela

21 de novembro de 2021 Política
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Expo 2020 em Dubai: realidade econômica e política conflituosas entre expositores (Foto: Expo 2020/YouTube/Reprodução)
Expo 2020 em Dubai: realidade econômica e política conflituosas entre expositores (Foto: Expo 2020/YouTube/Reprodução)
Da Folhapress

DUBAI – Na Belarus, o consumo e a produção de chocolates não para de crescer. No Líbano, há oportunidades de trabalho para os jovens. A Somália é um campo aberto para investimentos na pesca, aproveitando sua imensa costa. Mianmar é uma sociedade diversa, em que minorias convivem de forma harmoniosa.

É desta forma que diversos países que costumam frequentar o noticiário de forma negativa se apresentam na Expo 2020, exposição internacional aberta em outubro em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com término previsto para março do ano que vem. Na semana passada, o evento recebeu a visita de Jair Bolsonaro (sem partido).

Realizadas a cada cinco anos, as Expos são grandes feiras em que os países competem pela atenção do público em pavilhões, frequentemente com uso de tecnologia e efeitos visuais. A de 2020 foi adiada devido à pandemia, mas manteve o nome original.

Embora o tom autolaudatório seja esperado, visitar alguns desses estandes é como entrar em um mundo paralelo, especialmente quando o país em questão vive uma realidade conflagrada.

Governada com mão de ferro pelo ditador Aleksandr Lukachenko há 27 anos, Belarus é apresentada como uma terra em que a estabilidade propicia grande desenvolvimento científico. No centro de seu pavilhão, uma impressora 4D desenvolvida pela Academia de Ciências da Belarus ocupa lugar de destaque, podendo produzir materiais que vão de chips a próteses.

Telões convidam o turista a visitar o país do leste europeu, apresentando paisagens bucólicas de florestas. “Olá, sou um bisão, um dos símbolos da Belarus”, diz uma mensagem ao lado da imagem do animal, logo na entrada do espaço.

Não há qualquer traço de referência ao ambiente tumultuado que vive o país desde a reeleição do ditador em agosto do ano passado, considerada fraudulenta pela União Europeia. Pelo contrário, o estande apregoa que é possível importar equipamento do bloco europeu sem pagar imposto, o que possibilitaria o crescimento de indústrias como a alimentícia, com especial destaque para laticínios e chocolate.

No Líbano, que vive um derretimento da economia considerado sem precedentes nas últimas décadas, telões mostram belezas naturais, ruínas romanas e a famosa culinária do local. Letreiros anunciam atrativos para investidores: um deles diz “empregos e carreiras”, outro fala em “oportunidades de crescimento”.

O país árabe vive uma situação econômica calamitosa, agravada pela Covid e pela explosão no porto de Beirute no ano passado, que levaram a protestos de rua e instabilidade política. Em junho deste ano, o Banco Mundial afirmou que a perda de poder da moeda local pode levar o país a viver uma das três piores crises desde a metade do século 19.

A maquiagem da realidade alcança contornos extremos no pavilhão de Mianmar, onde uma junta militar deu um golpe em fevereiro deste ano, derrubando o governo civil. “Mianmar é uma sociedade religiosa diversa, em que as crenças são de livre escolha”, diz um painel logo na entrada. Modesto, o estande parece uma loja de suvenires, com fotos nas paredes e objetos espalhados pelo chão.

Numa área dedicada às oportunidades de investimentos, propagandeia-se que reformas vêm sendo feitas desde que o governo civil e democrático assumiu o poder, em 2011. Mas não há palavra sobre o fato de que esse mesmo governo foi derrubado neste ano.

Outro país em situação de conflito, a Etiópia, menciona seu “promissor potencial econômico”, o que era uma realidade antes de se iniciar uma guerra civil, há um ano, que já ameaça derrubar o governo da nação africana.

Entidades internacionais temem uma catástrofe humanitária em razão do conflito, que opõe o governo central e os rebeldes da região do Tigré, no norte do país. Segundo o Programa Alimentar da ONU, mais de 5 milhões de pessoas estão sob risco iminente de fome.

Na Expo, o país prefere exaltar suas belezas e sua rica tradição cultural. Uma mulher serve café, bebida típica local, para os visitantes. Imagens da igreja ortodoxa etíope e uma réplica do esqueleto Lucy, encontrado no país e um dos mais importantes fósseis humanos já localizados, também são apresentados.

Também na África, a Somália, que há 30 anos não tem um Estado que funcione, convida os visitantes a ganhar dinheiro apostando no país. “Bem-vindo à Somália: destravando oportunidades”, diz um painel.

Uma dessas oportunidades apresentadas está no setor da pesca, com o potencial de produção de 200 mil toneladas de peixe por ano. Seriam investimentos de altíssimo risco, no entanto, dado que a costa do país é coalhada de piratas.

Na América Latina, ditaduras de esquerda aproveitaram o espaço para fazer proselitismo de seus regimes. A Nicarágua colocou uma bandeira da Frente Sandinista de Libertação Nacional, partido do ditador Daniel Ortega, no meio de uma exibição que conta com produtos de artesanato típico, como imagens de papagaios de madeira.

Cartazes exaltam Augusto Sandino, herói nacional, apresentado como “lutador da soberania nacional contra o intervencionismo americano”. Já no espaço destinado à Venezuela, exalta-se a figura de Simón Bolívar, símbolo do regime chavista que comanda o país.

Praticamente todos os 193 países da ONU montaram pavilhões. Alguns, como a Palestina, ganharam espaço mesmo sem serem membros reconhecidos pela organização. O território ocupado por Israel exibe orgulhosamente os dizeres “Estado da Palestina” em grandes letras na fachada do estande.

Um dos poucos países que abriram mão de vender seu peixe foi a Coreia do Norte, um dos regimes mais isolados do mundo. A lista de excluídos da Expo por pouco não teve também o Afeganistão.

Mas o país asiático, cujo governo foi recentemente derrubado pelo Talibã, se faz presente graças à ação de um empresário exilado na Áustria. “Regimes vão e vêm, mas o país e o povo continuam”, diz Rahime Mohammed Omer, 63.

O pavilhão vinha sendo montado pelo antigo governo afegão, até que a exibição foi suspensa a partir de agosto, em razão da tomada do poder pelo grupo fundamentalista.

Dono de lojas e de um museu em Viena, onde vive desde 1978, Omer soube do ocorrido e entrou em contato com a organização da Expo para bancar o pavilhão. Teve o pleito aprovado, e assim o estande do país é privado.

“Tivemos um mês para montar tudo”, diz o comerciante, que ocupou o espaço com cerca de 300 peças de sua coleção pessoal. Há fotos de paisagens, antigas armas e pratarias, além de vestimentas típicas das tribos pashto, majoritária no país.

Como esperado, em nenhum lugar há referência ao Talibã. “É importante o Afeganistão participar da Expo. Eu não podia aceitar que não estivéssemos aqui”, diz Omer.

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Assuntos Ditadura, Dubai, Exposição, guerra
Redação 21 de novembro de 2021
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