
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – O médico Oziel Souza afirmou ao ATUAL neste sábado, 27, que deixou o município de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus) porque recebeu ligações com ameaças de morte. Oziel e o médico Daniel Tanaka, foram afastados das funções após denunciarem irregularidades na distribuição de oxigênio a pacientes da Covid-19 no Hospital Jofre Cohen, administrado pela Prefeitura de Parintins. Ambos pediram demissão e deixaram o município.
Oziel afirma que um contato não identificado ligava e fazia ameaças de morte. Desde então, parou de atender números desconhecidos.
“Nem atendia número diferente da minha agenda ou não identificado. O que você acha quando você descobre um esquema e fica à mercê deles? Não saí de casa até vir para Manaus”, conta.
O médico afirma que mais detalhes das ameaças que sofreu enviou para a Polícia Federal, que segundo ele, o ouvirá presencialmente.
“Isso fica para a Polícia Federal, já com investigações em andamento. [Enviei] Tudo por e-mail, mas vou ser ouvido presencial. Ainda não marcaram data”, disse.
Na noite desta sexta-feira, 26, quando falou com o ATUAL, Oziel estava embarcando para Manaus. Na ocasião, disse que abandonou a cidade por conta das irregularidades, mas não detalhou o que estava ocorrendo.
Na manhã deste sábado, afirmou que as denúncias citadas no manifesto anexado à matéria eram só uma parte do rol de irregularidades que ele e outras pessoas no município tentam combater.
“Tem tantas irregularidades que não cabe nos dedos. Isso é só a ponta do iceberg”, afirmou.
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Oziel afirma que além dele e de Tanaka, outros três médicos pediram demissão.
“Inventaram outros motivos para sair fora, porque vai pegar pra quem ficou”, disse. O médico não cita os nomes temendo represália aos colegas.
Irregularidades

Oziel afirma que a Prefeitura de Parintins tentou encobrir a real situação da pandemia no Hospital Jofre Cohen quando a SES-AM (Secretaria de Saúde do Amazonas) anunciou que iria ao município para averiguar a situação da unidade.
“Quando a força-tarefa veio só passear e disse que estava tudo normal começaram dar alta ‘adoidados’. Ou seja, lá (Jofre Cohen) está uma bagunça generalizada”, afirmou.
No site da SES-AM consta que a força-tarefa realizou visita nas unidades de saúde da cidade na terça-feira, 23, liderada pelo secretário de Atenção Especializada ao Interior, Cássio Espírito Santo, que foi acompanhado por profissionais da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) e da Opas (Organização Pan Americana de Saúde). Na ocasião, o governo estadual afirmou que constatou redução de internações em Parintins.
“Aquilo foi um jogo de cintura pra dizer que estava tudo bem”, disse Oziel.
Em relatório do médico com denúncias, Oziel afirma que após a morte de 50 pacientes noticiado pela imprensa local ele começou uma inspeção no hospital, verificando todos os prontuários para entender o que estava acontecendo.
“Eles (pacientes) não estavam recebendo o tratamento adequado devido ao excesso de carga de trabalho com 2 a 3 técnicos por ala de enfermaria, que girava em torno em média 15 pacientes, ou seja, um funcionário para cada cinco pacientes”, diz no relatório.
Oziel afirma ainda que a quantidade de oxigênio ministrada era inadequada.
“Os pacientes estão recebendo uma quantidade excessiva de oxigenioterapia, ventilação não invasiva e com isso causando hiperóxia e anóxia cerebral, levando ao rebaixamento do nível de consciência e o delirium, deixando pacientes atônitos, auto dependentes de oxigênio por longos dias, sem condições nenhuma de fazer desmame do produto, causando uma enorme demanda de cilindros de oxigênio”, informa no documento.
Oziel diz que tentou fazer o desmame, segundo ele, prática que consiste em diminuir progressivamente a fração de oxigênio para que o paciente tenha alta. Após realizar o procedimento, foi afastado.
Secretário contesta
Ao ATUAL, o secretário municipal de Saúde de Parintins, Clerton Rodrigues, afirmou que o profissional foi afastado por não seguir o protocolo do hospital.
“Nesse protocolo próprio dele não seguiu a rotina da instituição. Com isso, ele fez o desligamento do oxigênio dos pacientes que estavam lá naquela enfermaria”, afirmou. “Também foi encaminhado para atuar no Hospital Padre Colombo, posteriormente ele pediu para sair do município”, disse.
O diretor-geral interino do Hospital Jofre Cohen, Josimar Marinho, disse que a atitude do médico gerou conflito com familiares e pacientes.
“Esses pacientes entraram em surto, muitos pacientes tiveram problemas de distúrbio, inclusive de se assustarem realmente naquele momento”, disse o diretor. “Eu fui até as clínicas e lá realmente eu vi os próprios acompanhantes dos pacientes o relato que lá ele não entrava mais, que por favor nós afastássemos aquele médico”, afirmou.
Oziel nega que tenha desligado o fornecimento de oxigênio e diz que tentou ajudar. “Comecei o desmame para tentar sanar o ocorrido, infelizmente alguns pacientes e acompanhantes não entenderam o motivo”, diz.
O médico afirma que a implantação de duas usinas de oxigênio, mais uma usina alugada e cilindros comprados e doados deixaram o hospital em condições razoáveis para o atendimento dos pacientes.
No entanto, diz no relatório que foram feitos vários implantes na rede de pressão, sobrecarregando o sistema de distribuição de oxigênio em toda a rede hospitalar e, com isso, a rede final não tinha pressão suficiente para o funcionamento dos respiradores mecânicos, levando a morte de vários pacientes.
“Nos dias 20/01 a 12/02 foram a óbito 50 pacientes a serem investigados por órgãos do poder público nos prontuários com rigor o motivo da causa”, escreve no documento.
Diretor discorda
Josimar Marinho afirmou que a denúncia não tem fundamento e que nunca faltou o insumo aos pacientes.
“Nós temos os técnicos que dão manutenção na rede altamente qualificados e com muita responsabilidade. Todas as reuniões que eles participavam informando para a gente ‘ó, tem um déficit de oxigênio na clínica tal então vamos instalar os cilindros’. Então em nenhum momento faltou oxigênio”, disse.
“Nós chamamos os técnicos, engenheiros de Manaus que dão suporte à rede de oxigênio no estado do Amazonas. Eles vieram aqui e passaram três dias em Parintins verificando se tinha alguma vazão, algum desvio de oxigênio que pudesse impedir que a pressão de oxigênio pudesse chegar às clínicas”, afirmou o diretor.
Segundo Josimar, órgãos de controle já tinham procurado o hospital e esclarecimentos foram dados. “Inclusive o Ministério Público fez alguns questionamentos, também a Defensoria Pública fez alguns questionamentos em relação a distribuição desse oxigênio. Nós respondemos na íntegra para eles. Eles aceitaram nossas respostas”, disse.
De acordo com o relatório de Oziel, duas vistorias técnicas foram feitas pelo Corpo de Bombeiros de Parintins, Defensoria Pública e Ministério Público Estadual após suspeitas de falta de medicamentos e oxigênio no Jofre Cohen.
“O Corpo de Bombeiros, a pedido do Ministério Público Estadual e Defensoria Pública para avaliação do sistema, deu seu relatório que até o momento continua com morosidade por parte do Ministério Público Estadual, sem emitir um parecer para que sejam tomadas as devidas providências, tanto do Poder Público Municipal, quanto da Justiça Estadual”, diz no documento.

Quanto ao outro médico que deixou o município, Daniel Tanaka, o secretário Clerton Rodrigues afirma que a transferência do Jofre Cohen para o Hospital Padre Colombo ocorreu por questões de contrato e a pedido da direção do Jofre Cohen. Segundo Clerton, Tanaka saiu da cidade por questões pessoais.
“Na verdade, nós fizemos a transferência dele, até porque o contrato dele era como médico anestesista, nós fizemos a transferência dele para o Hospital Padre Colombo. No entanto, ele mesmo [Daniel Tanaka] alegou que não tinha mais condições de ficar no município de Parintins por problemas pessoais, familiares e amorosos e assim ele pediu afastamento de suas atividades, que voltaria para São Paulo para ficar junto da sua família”, disse.
Josimar Marinho disse que o afastamento do médico ocorreu porque ele não compareceu a um plantão. “Quando o médico foi solicitado, ele não se encontrava no hospital. Nós temos justificativas, tudo filmado pelas câmeras o horário que esse médico retornou ao hospital para atender ao paciente”, disse.
Manifesto

Sobre as denúncias feitas em manifesto e protesto contra a sobre a crise sanitária no município realizado na última quarta-feira, 24, na cidade, o prefeito de Parintins, Bi Garcia (DEM), afirmou que se trata de uma ação política. Sobre as irregularidades citadas, pediu para procurar os gestores de saúde.
“Essa escrita que esses movimentos fizeram aí são dois ativistas políticos de esquerda radical daqui. Não conheço várias entidades daí”, disse. “E essa questão mais técnica você pode falar com a diretora do hospital e com o secretário”, afirmou.
O secretário de Saúde Clerton Rodrigues disse estranhar a ação do movimento e afirmou que o município fez um planejamento para enfrentar a pandemia, mas que não esperavam a nova cepa, que para ele é responsável pelo alto número de internações em Parintins.
“É de muito estranhar para a gente, agora nesse momento, um ano depois esses movimentos estarem fazendo essas manifestações. Haja vista que nós temos uma pandemia que tem um vírus altamente letal”, disse o secretário.
“Tudo o que se planejou realmente foi um planejamento que foi feito não para enfrentar a pandemia nesse grau de letalidade que ela apresenta. Porque há os pacientes com agravamento maior, tempo de internação maior, uso de antibióticos maior”, afirmou.
