
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Os médicos Daniel Tanaka e Oziel Souza foram afastados das funções após denunciarem irregularidades na distribuição de oxigênio a pacientes da Covid-19 do Hospital Jofre Cohen, em Parintins (a 369 quilômetros de Manaus). Eles decidiram pedir demissão. Ambos confirmaram ao ATUAL que solicitaram o desligamento e deixaram a cidade.
O Hospital Jofre Cohen é municipal, administrado pela Prefeitura de Parintins.
Daniel Tanaka, que agora está em São Paulo, afirma que depois de fazer as denúncias foi afastado e transferido para outra unidade de saúde no município, mas não aceitou.
“Fui afastado do Hospital Jofre Cohen, referência no atendimento à Covid, por esse motivo. Diante disso pedi desligamento, pois ficaria com a atuação restrita no Hospital Padre Colombo, na anestesia”, disse.
Tanaka afirma que foi o responsável por preparar o Jofre Cohen para atender pacientes da Covid-19. “Desde o início eu atuei na pandemia. Eu que estruturei o hospital”, disse.
Quando conversou com o ATUAL, o médico Oziel Souza estava embarcando para Manaus. O profissional afirma que já entrou em contato com órgãos de controle.
“Realmente tem muita coisa (irregular). Já entreguei aos órgãos reguladores. Eu estou indo hoje para Manaus de vez, abandonei aqui por causa das irregularidades e aí eu chego hoje em Manaus, se Deus quiser”, disse, nesta sexta-feira, 26.
Manifesto
Os médicos são citados em manifesto assinado por 44 movimentos sociais, cidadãos e cidadãs de Parintins e de outros municípios do Amazonas. O documento traz uma série de denúncias contra a gestão do prefeito Bi Garcia (DEM), e cobra das autoridades uma investigação em relação à crise sanitária da pandemia de Covid-19 no município.
O manifesto é direcionado aos Ministérios Públicos Federal e Estadual, Defensorias Públicas da União e do Estado do Amazonas e às Comissões de Direitos Humanos Nacional, do Congresso Nacional, da Assembleia Legislativa do Amazonas, da OAB-AM (Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas) e da OAB Nacional.
No documento, há denúncias de contaminação de pacientes, demissão de médicos que relataram irregularidades, falta de medicamentos, negligências nas transferências de pacientes, ausência de um planejamento municipal para enfrentamento da pandemia, vestígios de superfaturamento da usina de oxigênio, entre outras.
A professora Fátima Guedes, 69, integrante de movimentos sociais de Parintins, afirma que o objetivo é fazer com que investiguem a situação da cidade.
“O que nós queremos é uma investigação séria, sem fazer estardalhaço que vão investigar, mas que venham na surdina. Porque só assim se chega à verdade que a gente quer. Porque as sombras do que está acontecendo não são investigadas”, diz. “Todo dia são denúncias, as pessoas reclamando, lamentando e não se faz nada”, relata.
De acordo com o documento assinado pelas entidades, técnicos e políticos fazem inspeções no Hospital Jofre Cohen, mas o resultado da avaliação não condiz com a realidade.
“Vão fazer a inspeção, vão fazer a fiscalização, e dinheiro público paga passagem, paga hospedagem, diária e o resultado dos relatórios é que está tudo bem, está tudo se encaminhando dentro da dinâmica dos protocolos exigidos e todo dia está morrendo gente de forma cruel”, diz Fátima.
Entre os pontos citados no manifesto, Fátima cita a morte de pacientes que aguardavam transferência. “Morrem pessoas aqui porque não deu tempo de fazer o traslado para Manaus e para outros estados e fica por isso mesmo”, diz.
Segundo Fátima, já tiveram retorno do Conselho Estadual de Saúde, da SES-AM (Secretaria de Saúde do Amazonas). “Foi o Conselho Estadual de Saúde que deu o retorno que disse que ia encaminhar para fazerem as devidas investigações”, afirma.
Em resposta ao ATUAL, a SES-AM informa que abriu um inquérito epidemiológico no município e está auxiliando nas ações de combate à pandemia realizadas pela prefeitura de Parintins.
Segundo a pasta, esta semana uma equipe da SES, liderada pelo secretário de Atenção Especializada ao Interior, Cássio Espírito Santo, visitou unidades de saúde do município, com profissionais da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) e da Opas (Organização Pan Americana de Saúde).
O jornalista Phelipe Reis, 32, idealizador de protesto realizado nesta semana no município contra a crise na saúde, afirma que a maioria dos representantes apoia politicamente o atual prefeito Bi Garcia (DEM). “Dos 13 vereadores, 12 são apoiadores do prefeito”, afirma.
O jornalista e ativista social Floriano Lins, 67, que também está à frente da ação, afirma que as denúncias são baseadas em notas fiscais, relatos de médicos e familiares de pacientes, postagens nas redes sociais e matérias veiculadas na imprensa.
“Em termos de subsídios, de embasamento, dessas denúncias que foram feitas pelos movimentos tem muita coisa”, diz. Floriano afirma que o material coletado foi enviado aos órgãos de controle.
O professor de Manoel do Carmo, responsável pela entrega do documento aos órgãos, afirma que a situação já foi registrada como Manifestação no MP-AM (Ministério Público do Amazonas) e encaminhada para a Promotoria de Justiça de Parintins. “O MPE já está pedindo a investigação aos promotores de Parintins. Já tenho até o número do processo”, disse.
Manoel informa que estão providenciando os demais. “O MPF só dá retorno com o protocolo no portal, ainda estamos encaminhado, assim também a Defensoria Pública da União”, afirmou.
O ATUAL tentou contato com o prefeito Bi Garcia (DEM), que não atendeu às ligações. A assessoria de comunicação da prefeitura, em nota, se limitou a desmentir o manifesto.
“As informações contidas nesse documento não procedem, são inverdades. É uma denúncia sem provas, que está sendo feita por ativistas políticos. Trata-se de um movimento politiqueiro”, diz.
Protesto

O manifesto foi lido em protesto realizado em frente à catedral da cidade na última quarta-feira, 24. Phelipe organizou o ato público. Ao tomar conhecimento do documento elaborado pelos movimentos sociais, se uniram e lançaram o ‘Manifesto pelo Direito à Saúde e à Vida Digna’.
Phelipe conta que perdeu dois tios e um amigo para a doença e que a mãe e os irmãos chegaram a ser internados em Parintins. A insatisfação o levou a propor a manifestação. “Li inúmeros relatos nas redes sociais de pessoas que tinham parentes internados no hospital, reclamando de falta de medicamentos e demora na transferência de pacientes para Manaus. Tudo isso fazia crescer em mim um sentimento de indignação, pois sabia que poderia ser diferente”, diz.
Como forma de evitar a disseminação do vírus, apenas 12 pessoas participaram da ação, conta Fátima. “Fizemos aquele ato no sentido de sensibilizar, chamar a atenção da população e dos responsáveis pela Administração Pública”, diz.
Leia o manifesto completo:
