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Pontes Filho

Lama e terror: legados de um tempo obscuro

16 de novembro de 2015 Pontes Filho
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Em que pese a disponibilidade de tanta informação e alcance das conexões das redes sociais virtuais, algo sem precedentes na história, o século XXI tem sido regido pelo obscurantismo que leva a extremos como a corrupção e o terrorismo sistêmicos.

Lama e terror

A torrencial enxurrada de lama que cobriu distritos em Mariana, Minas Gerais, por conta do rompimento da barragem de rejeitos da empresa mineradora Samarco, causando gravíssima tragédia socioambiental, e a ocorrência de atos terroristas em Paris, na última sexta-feira, 13 de novembro, são fatos que ilustram de forma bastante contundente o tempo obscuro e extremo em que vivemos. “Lama” e terror estão por toda parte. Não é fácil combatê-los, é sofrível lidar com eles. A radicalidade do fundamentalismo religioso, do fundamentalismo de mercado e do cinismo político está esvaziando as perspectivas da condição humana, reduzindo-a quase sempre à civilização do consumismo, do individualismo e da histeria informacional. Globalizou-se a corrupção e o terrorismo, incorporados ao modus operandi da sociedade da economia de mercado e do joguete de disputa pelo poder político, seja entre os fundamentalistas do mercado seja entre os fundamentalistas religiosos. Algo a mais ou diferente disso, no sentido de uma melhor perspectiva para a humanidade, está ainda longe do horizonte histórico do atual contexto.

Obscurantismo global

O obscurantismo desse tempo, claramente ancorado na massificação informatizada de “egos” imaturos, do consumismo insustentável e do subdesenvolvimento ético, cria uma situação de entorpecimento ideológico, fundamentalismo econômico, anestesia política frente às injustiças sociais, insensibilidade ambiental, dogmatismo religioso e extremismos, que impedem o desenvolvimento do gênero humano. Pior, as correntes obscurantistas estão nos conduzindo a um iminente conflito entre civilizações, contrapondo irracionalmente o Ocidente ao Oriente. Além dos profundos impactos nocivos que a nova guerra poderá causar às diversas sociedades, sobretudo no campo econômico, socioambiental e político, dela tende a resultar maior agravamento de questões humanitárias essenciais.

Apesar do acesso nunca antes visto à gama de informação que se pode dispor, a quantidade de informação disponível não é garantia de educação, de maturidade, esclarecimento ético-planetário nem de discernimento sociopolítico, econômico e ideológico. Pelo contrário, não são poucas as ocorrências de intolerância, radicalismo fundamentalista, racismo, preconceito de gênero, pedofilia e outros crimes que freqüentam e circulam nos meios cibernéticos e nas redes sociais virtuais. Ainda não aprendemos a usar da melhor formar o potencial que temos disponível no que se refere à tecnologia de informação.

É preciso aprimorar o emprego de ferramentas tão eficientes de comunicação, orientando-os sobretudo para processos de formação e desenvolvimento humano. Fontes de uma gama monumental de informação e via para procedimentos digitais, a realidade virtual interage e opera na realidade física, sendo ferramenta de negócios e relacionamentos de toda ordem entre empresas e instituições, pessoas e grupos, em escala mundial. Por isso, é essencial fazer da qualidade da informação algo que atue e trabalhe a favor do desenvolvimento, da cooperação e do discernimento lúcido, e não em prol do obscurantismo e do viciamento que redundam em extremismos, corrupção e terror.

As conseqüências do obscurantismo impactam sobremaneira e perigosamente a vida, a liberdade e dignidade humana de muitas formas, inclusive prejudicando o meio ambiente, a segurança e a qualidade de vida no planeta.

O obscurantismo informacional globalizou um padrão simbólico e civilizatório decadente, viciado em modelos fomentadores do individualismo político-pragmático, do raquitismo ético, da violência e da criminalidade, os quais têm sido coniventes com a corrupção sistêmica, a indústria da guerra e cúmplice do próprio terrorismo. Em suma, a qualidade do padrão simbólico e materialista difundido pelo obscurantismo global cria condições básicas que nos fizeram cair na mundialização da “lama” e do terror sistêmicos.

EI

O grupo que se autodenomina Estado Islâmico (EI), mal-afamado por seus métodos barbaramente truculentos de execução de adversários políticos, de divergentes ideológico-religiosos e pela imposição de um califado em áreas da Síria e do Iraque, é antes de ser uma associação terrorista, uma organização obscurantista.

O EI não admite que as pessoas se desenvolvam, sobretudo as mulheres, pregando publicamente que elas não estudem. Não tolera a diversidade religiosa, intelectual, sexual e cultural. Já devastou valiosos patrimônios culturais da humanidade e executou seus administradores. Prega uma versão distorcida, totalitária e ultrarradical de islamismo, usando a prática de crimes bárbaros e do terror para impor seus dogmas, sua forma de pensar e sua dominação a todos. E não hesita em exterminar os que não pensam de modo igual.

Os adeptos do EI não estão dispostos a dialogar com o Ocidente, mas a destruí-lo. São portadores da mensagem de extermínio da cultura ocidental. Praticam a barbárie, tem o terror como método de fazer política, e pregam uma existência alienada a dogmas obscurantistas, fundados numa ideia primitiva de divindade e uma relação infantil e inconseqüente com essa ideia esquizofrenicamente fixa e neurótica. Julgam que a ideia e conhecimento de Deus é monopólio deles. Um traço megalomaníaco comum a todo fanatismo religioso.

O estado islâmico não é reconhecido, todavia, como seguidor do islã por grande parte da comunidade mulçumana. Há muitos grupos islâmicos que não concordam com a identidade do islã continuar sendo associada a esta organização terrorista, que apenas se diz mulçumana. Diversas comunidades islâmicas no oriente e pelo mundo não concordam que eles façam uso da designação para impor sua dominação política e ideológica, empregando a via do medo, da violência, do terror e outras práticas bárbaras ou extremistas.

Por conta disso, não são poucos os que têm dúvida quanto à condição principal do EI: seria essa organização uma associação de mulçumanos que fazem da barbárie uma via para impor suas crenças dogmáticas e sua dominação ou seriam apenas criminosos truculentos que fazem uso do ideológico do islã para justificar as barbáries e os crimes que praticam em favor de planos megalomaníacos de sujeição da humanidade? Tais questionamentos ganham dimensão cada vez maior, sobretudo a partir das próprias comunidades mulçumanas, as quais não reconhecem a ele – estado islâmico, nem a seus membros, como seguidores do corão ou do islã.

Ocidentais 

Os franceses e os judeus, que exigem com justa razão respeito à liberdade de se expressarem, têm sido muitas vezes incapazes de exercer esse direito sem ofender ou desrespeitar as crenças dos demais povos e culturas, inclusive religiosas.

Direitos e liberdades deveriam ser usadas para combater o preconceito, o obscurantismo, a injustiça socioeconômica, a opressão política, os fundamentalismos que dão causa ao terror e à corrupção sistêmica, e não para alimentar ainda mais a tensão entre partes já ressentidas. Tais extremos não são caminhos adequados para aqueles que dizem buscar a liberdade, a justiça e a paz.

Muitas pessoas inocentes já foram vitimadas por conta de tais extremismos. Na última sexta-feira, 13 de novembro de 2015, essa relação ampliou consideravelmente, em Paris. É o que acontece quando predominam apenas os extremos e a incapacidade de diálogo. Não resta senão a violência num círculo causa/conseqüência de eventos de terror, como se já não bastasse o Ocidente, em especial os Estados Unidos, ter sua cota de responsabilidade pelas ameaças e atos de terrorismo que o mundo está sofrendo quando, em décadas passadas, empregou a política de armar e treinar grupos fundamentalistas para usá-los em prol de seus próprios interesses, em diversas regiões do Oriente.

É necessário que os direitos e liberdades coexistam coordenadamente, levando em conta que não podem ser tomados de forma absoluta e antagônica, mas de modo proporcional, equilibrado e razoável a fim de preservar os valores essenciais da própria democracia. Até porque frequentemente ocorrem conflitos. A abordagem destes de modo adequado e respeitoso possibilita a construção de respostas favoráveis ao bem maior, que é a preservação dos direitos fundamentais e o desenvolvimento da própria sociedade.

Não bastou ao Ocidente fazer triunfar o capitalismo sobre o socialismo ainda no século passado. Os atos de terrorismo e de corrupção sistêmica evidenciam a necessidade de demonstrar, convencer e comprometer os Orientais, sobretudo os intolerantes mulçumanos, com o liberalismo político (democracia, sobretudo a ideia de direitos humanos ou direitos fundamentais universais assomados à livre participação política) e com o liberalismo econômico (mercado livre e Estado mínimo). É imprescindível ao Ocidente garantir por parte de todas as nações o compromisso com o capitalismo e a democracia. E para isso, em suma, é preciso que os ocidentais sejam o exemplo e aprendam a conviver de modo mais respeitoso e digno com a diversidade e a pluralidade cultural.

Legado

Mesmo que houvesse um grande esforço em prol de uma coexistência respeitosa, livre e pacífica, não é possível ignorar que vivemos num tempo vazio de utopias e de esperança humanizadas, embora repleto de trecos tecnológicos globalmente conectados “a todo vapor”.

Poucos imaginaram que o pós guerra-fria nos levaria à reedição das velhas cruzadas medievais por uma “nova Jerusalém”, cujo altar agora é alvo de disputa entre o fundamentalismo de mercado e o fundamentalismo religioso, mas em ambos os casos obscurantistas e decadentes.

A lógica pragmática e cínica que prevalece nos arranjos políticos e na cultura política desse tempo não coopera para formar pactos sociais e ambientais progressistas nem ao menos mais justos. Pelo contrário, a instituições de mediação política e os representantes políticos atuais não têm conseguido lidar com as principais mazelas históricas herdadas sem as agravar, conduzindo a civilização do consumismo ao buraco negro do “nada”, ao precipício do “fim do futuro”.

De fato, poucos imaginaram que depois do século XX a vida seria tão pobre de conteúdo e sem muito significado para a grande maioria da humanidade, embora com tanto apetrechos técnicos, acesso à informação, conexões cibernéticas quase ilimitadas e redes sociais virtuais planetárias. Um obscuro tempo de extremos, cujo legado hegemônico teima em continuar sendo a “lama” e o terror sistêmicos.


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazonas Atual, filho, Mariana, terrorismo
Valmir Lima 16 de novembro de 2015
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