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Política

Governo repudia revogação de visto de embaixadora e diz que EUA querem interferir na eleição

4 de agosto de 2026 Política
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Donald Trump terá que usar outros meios para impor tarifas comerciais (Imagem: YouTube/Reprodução)
Governo de Donald Trump age politicamente para beneficiar o candidato da extrema direita nas eleições do Brasil (Imagem: YouTube/Reprodução)
Por Gabriel de Souza, do Estadão Conteúdo

BRASÍLIA – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repudiou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, e disse que a decisão faz parte de uma “escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil”. O Planalto subiu o tom e agora disse, institucionalmente, que Washington quer interferir na eleição presidencial de outubro.

“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”, afirmou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), em nota divulgada na noite desta terça-feira, 4.

Segundo a nota da Secom, os dois argumentos apresentados pelo Departamento de Estado são falsos. O governo disse que os Estados Unidos anunciaram publicamente o nome do candidato à embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, antes de um pedido formal feito ao Brasil.

O governo diz ainda que segue estritamente o direito internacional e que não há uma regra que estipula o prazo para se conceder o agrément – a aceitação oficial de um país para receber um embaixador estrangeiro – e que o nome de Perez ainda está em análise.

Os Estados Unidos alegam que o governo Lula está deliberadamente criando obstáculos para impedir que Daniel Perez exerça a função diplomática no Brasil. Isso teria sido uma das razões para que Washington revogasse o visto de Viotti.

O Planalto disse ainda que o governo brasileiro revogou os vistos de Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado, porque eles teriam como função “colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro”.

“Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o País para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”, diz a nota da Secom.

A nota da Secom também destaca que autoridades brasileiras ainda estão com vistos negados pelos EUA, com base na alegação de perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)

“O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais”, diz a nota.

O governo disse também que vai se opor à lógica de confrontação exercida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e defendeu o diálogo e a negociação como base da sua diplomacia.

Entenda o caso

Irritado com a demora do governo Lula em conceder aval a Daniel Perez, escolhido como futuro embaixador americano no Brasil, o governo dos Estados Unidos avisou nesta terça-feira que cancelou o visto diplomático da embaixadora Viotti.

A medida equivale a uma expulsão dela dos Estados Unidos e somente será revogada quando o governo brasileiro concordar com a indicação de Perez e solucionar a pendência diplomática, avisou a jornalistas um funcionário do Departamento de Estado.

Integrantes do órgão, no entanto, informaram que Viotti não está obrigada a deixar os EUA imediatamente e poderá permanecer em solo americano até que o imbróglio se resolva. Eles falaram em agir com reciprocidade e reclamaram que o Ministério das Relações Exteriores estaria “segurando” propositalmente o processo de consulta de Perez.

No final de julho, o Estadão mostrou que o governo Lula pretendia dar um chá de cadeira em Daniel Perez e empurrar a decisão para depois das eleições, na esteira da crise provocada pelo tarifaço.

A ação do governo Trump nesta terça foi recebida no País como uma “chantagem” e uma maneira de colocar pressão no Planalto às vésperas das eleições presidenciais. A medida se insere nos embates recentes sobre vistos e tarifas na disputa política entre os governos Lula e Trump.

Diplomatas brasileiros ouvidos pelo Estadão falaram que o assunto não seria discutido em público. Em privado, citaram que é claro o condicionamento feito pelo Departamento de Estado e que existe um “comitê de campanha” em ação no governo Trump. Citaram ainda o risco do que consideram aprovar o nome de Perez, considerado de perfil ideológico, no meio das eleições.

Antes, outros integrantes do governo chegaram a dizer que não havia motivo para pressa ao avaliar o nome de Perez, uma vez que Trump demorara um ano e meio para indicar seu futuro representante. A embaixada americana vem sendo chefiada por um encarregado de negócios, de forma interina, desde janeiro de 2025, quando Elizabeth Bagley, colaboradora de Joe Biden, encerrou sua missão.

Embaixadores também afirmaram que Trump ignora a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. No artigo 4º, ela diz que um país deve se certificar de que a pessoa que pretende nomear como embaixador em outro recebeu o agrément – o consentimento oficial do governo perante o qual o diplomata atuará. Eventual negativa não precisa ser justificada.

No caso de Perez, Trump despachou o nome do deputado da Flórida ao Senado americano em 1º de junho. O pedido de agrément ao Brasil – ou seja, a consulta formal a respeito da concordância do governo Lula sobre o nome do escolhido -seria feito quase um mês depois, segundo pessoas a par do processo ouvidas pela reportagem.

Após dois meses, o Itamaraty ainda não respondeu, mas a indicação de Perez já começou a tramitar no Congresso dos EUA. Ele foi sabatinado e aprovado na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Falta ainda uma votação no plenário e sua aprovação na Casa. O rito, neste caso, teria sido atropelado pelo republicano.

Não existe um prazo formal para que um governo responda ao pedido de agrément feito por outro país. Mas, na diplomacia, uma demora excessiva, de muitos meses, costuma ser entendida como uma objeção clara. Isso pode causar mal estar diplomático e levar à troca do nome escolhido ou à decisão de deixar a embaixada sem um chefe de missão.

Trump seguiu rito e pediu a Bolsonaro aval para embaixador

A decisão de publicar sua escolha antes de consultar o governo brasileiro não foi caso isolado. Desde que retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump já havia feito indicações de embaixadores, até por meio das redes sociais e à revelia da concordância de outros governantes – diversos deles na América Latina. Logo após a posse, ele chegou a usar a rede Truth Social para listar seus indicados na região.

Ao contrário do que fez agora com o governo Lula, Donald Trump consultou previamente, como determinam as práticas e regras diplomáticas, o então governo Jair Bolsonaro, em 2019, antes de indicar oficialmente seu escolhido como embaixador para o Brasil. O “atropelo” na indicação de seu novo representante em Brasília incomodou o governo Lula.

Na ocasião, o diplomata de carreira Todd Chapman, escolhido por Trump, recebeu o aval prévio do Itamaraty em outubro de 2019. O nome dele vazou dias antes na imprensa, enquanto o processo de consulta ao governo brasileiro corria em segredo.

Todd Chapman somente foi confirmado publicamente pela Casa Branca após a concordância ter sido confirmada pela chancelaria brasileira, de maneira discreta, como é de praxe. Ele seria sabatinado em dezembro daquele ano e aprovado pelo Senado americano em fevereiro de 2020, antes de assumir em março e entregar as cartas credenciais a Bolsonaro, em abril.

Embate de vistos

Quando esteve na Casa Branca, em maio, o presidente Lula disse ter entregue ao republicano uma lista de autoridades públicas, entre elas ministros de Estado e do Supremo Tribunal Federal (STF), que tiveram vistos revogados nos meses anteriores e nunca foram restabelecidos. Segundo Lula, não era a primeira vez que o apelo de restituição dos vistos era levado a Trump.

Nos meses recentes, também houve a expulsão do delegado Marcelo Ivo, então adido da Polícia Federal junto à polícia migratória americana – o ICE, respondido pelo governo Lula com a expulsão de um policial americano que atuava em Brasília.

Outro caso recente que incomodou o Departamento de Estado foi a negativa para visitar o Brasil – e o ex-presidente Jair Bolsonaro – pedida por Darren Beattie, um expoente ideológico que atua como consultor sobre Brasil na diplomacia americana e foi assessor de Trump anteriormente.

Nas últimas semanas, o governo brasileiro recusou visto a dois funcionários do Departamento de Estado – os diplomatas Riley M. Barnes, secretário assistente, e Samuel Samson, subsecretário assistente, que viriam ao País tratar de eleições.

Segundo um diplomata brasileiro, haviam pedido uma visita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o recesso e foram avisados de que somente em outra ocasião a interação seria atendida. Mesmo assim, mantiveram a viagem.

A missão frustrada também coincidiu com nova onda de suspeição sobre as urnas eletrônicas levantada pelo bolsonarismo. Isso levantou suspeitas sobre as reais intenções e o governo brasileiro entendeu que estava em curso uma estratégia para questionar a integridade e a confibilidade do sistema eletrônico de votação.

O Departamento de Estado negou e disse que a agenda deles incluiria reuniões com governo, sociedade civil e líderes religiosos com objetivo de ouvir sobre “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”.

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Assuntos brasil, Donald Trump, Embaixada, embaixadora, Estados Unidos, Lula
Valmir Lima 4 de agosto de 2026
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