

Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – Nos próximos quatro anos, governantes dos estados amazônicos terão, entre tantos desafios, a missão de ampliar o acesso à saúde básica, distribuir, de forma justa, a disponibilidade de leitos no serviço hospitalar e criar medidas preventivas para evitar a superlotação de unidades de saúde. No caderno de propostas, os candidatos prometem ações como programas de regulação, reformas e ampliações de unidades de saúde e construção de hospitais.
Os problemas de atendimento à saúde na Amazônia são amplos e vão desde à falta de prevenção adequada até a escassez de médicos. Um diagnóstico sobre a saúde na Amazônia Legal aponta uma média de 1,70 médico por mil habitantes na região. No Sudeste, segundo a Demografia Médica 2024 do CFM (Conselho Federal de Medicina), a média era de 3,76 médicos por mil habitantes e a região concentrava 51% dos médicos do país.
O sistema de saúde é sobrecarregado com doenças evitáveis. O DataSUS mostra que o Amazonas registrou, em 2024, 19,53% de internações por condições sensíveis à atenção primária, ou seja, aquelas que poderiam ser reduzidas com prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento adequado na rede básica de saúde. O índice ficou acima da média nacional, de 15,4%, e aparece entre os maiores do país.

Falta de saneamento
Outro desafio está fora dos hospitais, mas tem impacto direto sobre a saúde da população: a falta de saneamento básico. Divulgado em 2025, um estudo do Instituto Trata Brasil, com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, aponta que 82,4% da população da Amazônia Legal não tinha acesso à coleta de esgoto. No Amazonas, o déficit chegava a 85,8%.
O levantamento estima que a universalização dos serviços de água e esgotamento sanitário poderia gerar R$ 2 bilhões em ganhos para a saúde na região.
Para especialistas em saúde, o investimento na área precisa ir além da estrutura hospitalar e contemplar também medidas de prevenção, como ações que fortaleçam a atenção básica e a criação de políticas capazes de reduzir os fatores que levam a população a adoecer e, consequentemente, a procurar os serviços de maior complexidade.
“Quando os governantes investem em prevenção de doenças, sinistros e na atenção básica, que poderiam evitar que muitas pessoas chegassem ao hospital, esses resultados apresentam menor visibilidade, pois produzem resultados menos imediatos e menos perceptíveis. Prevenção exige políticas contínuas, tais como vacinação da população, controle de doenças crônicas, saúde ambiental, segurança no trânsito e fortalecimento da atenção básica”, disse o professor e pesquisador João Simão, da Universidade Federal do Pará.
“Quando um paciente chega ao hospital com uma doença que poderia ter sido identificada, acompanhada ou controlada na atenção básica, isso revela uma dificuldade da rede em atuar preventivamente e garantir a continuidade do cuidado. Isso gera um impacto muito prejudicial em todo o sistema de saúde. Aumenta a procura pelos serviços de urgência e emergência, pressiona os leitos hospitalares, exige tratamentos mais complexos e eleva os custos assistenciais”, disse a professora da Ufam Tatiane Lima Aguiar, que é gerente de Atenção à Saúde do HUGV-Ufam/Ebserh.

Realidade das UBS’s
Segundo o Ministério da Saúde, 51% das unidades da rede de atenção primária na Amazônia não estão conectadas à internet e 81% não têm geladeira exclusiva para armazenar medicamentos e imunobiológicos. As limitações comprometem a estrutura necessária para ações básicas de prevenção, vacinação, acompanhamento de pacientes e comunicação entre as equipes de saúde.
É na atenção primária que começa o acompanhamento contínuo da população e a identificação dos riscos antes que eles se agravem. No caso das mulheres, esse cuidado precisa estar presente desde o planejamento de uma gravidez até o pré-natal e o pós-parto, como explica a enfermeira obstetra Suzana Ribeiro, que atua na rede pública de saúde de Rondônia.
“Não adianta apenas ter a estrutura física se não temos profissionais qualificados e fixos para fazer esse serviço funcionar. Às vezes a gente precisa de uma expansão hospitalar, às vezes precisa de profissionais, de exames, de medicamentos, de transporte, de regulação. Então, a prioridade é fortalecer e dar condições para que essa rede funcione”, disse Suzana, que também cita a dificuldade logística na Amazônia para transportar pacientes.

Obras paralisadas
Em 2024, o Ministério da Saúde identificou milhares de obras de saúde paralisadas ou inacabadas em todo o país e criou um programa específico para tentar reativar ou repactuar esses projetos. Em 2025, o governo federal já contabilizava 1.478 obras reativadas ou repactuadas.
Em junho de 2026, o Hospital Regional de Manacapuru (a 100 quilômetros de Manaus) permanecia com as obras paralisadas. A unidade foi projetada para ter 112 leitos de enfermaria, 32 de UTI, cinco salas cirúrgicas, maternidade e atendimento de urgência para adultos e crianças. O contrato para a construção é de R$ 75,5 milhões.
No Tocantins, a obra do centro cirúrgico do Hospital Regional de Guaraí era apontada, em setembro de 2025, como paralisada havia quase cinco anos. Em Roraima, a reforma do Hospital Délio Tupinambá, em Pacaraima, também permanecia como um caso de longa duração: a intervenção havia começado em 2021 e estava parada três anos depois.
Desigualdade
A distribuição de leitos hospitalares revela as desigualdades dentro da própria Amazônia Legal. De acordo com o Ministério da Saúde, em julho de 2026, o Amazonas tinha 7.750 leitos de internação para atender uma população estimada em 4,36 milhões de habitantes.
Mato Grosso, com cerca de 3,89 milhões de habitantes, tinha 9.622 leitos, quase dois mil a mais, mesmo com uma população menor. A diferença também aparece na proporção: eram 1,8 leito por mil habitantes no Amazonas e 2,4 por mil em Mato Grosso.
Em carta aberta publicada em agosto deste ano, a Fundação Oswaldo Cruz recomendou aos candidatos às eleições em 2026 que priorizem o fortalecimento do SUS, a valorização dos profissionais, a redução das desigualdades e a preparação do país para os impactos das mudanças climáticas e novas emergências sanitárias.
O documento também reforça que as políticas de saúde precisam ir além de hospitais e medicamentos, considerando fatores sociais, ambientais e as condições de vida da população.
“Priorizar a saúde exige um olhar que transcende hospitais e medicamentos. Implica reconhecer que as condições de saúde são produzidas nas relações entre políticas públicas, formas de organização da vida social, produção do conhecimento, trabalho, ambiente e democracia”, disse a nota.
