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Dia a Dia

Brasil terá que adotar políticas contra coronavírus para cada realidade, diz pesquisador

26 de março de 2020 Dia a Dia
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Impedir um número excessivo de mortes depende de fazer o máximo possível de testes, diz especialista (Foto: Prefeitura de Urucará/Divulgação)
Por Ana Estela de Sousa Pinto, da Folhapress

BRUXELAS – Além de seguir as estratégias já usadas na China e na Europa, o Brasil precisará adaptar suas políticas de combate à pandemia de coronavírus às carências locais, diz o epidemiologista britânico Jimmy Whitworth, 65, especialista em saúde pública e doenças infecciosas.

“Será preciso garantir água abundante e sabão nos locais mais carentes, e criar estrutura para poder isolar quem for contagiado em comunidades muito densas”, diz o pesquisador da London School of Hygiene and Tropical Medicine, onde ensina políticas de saúde internacionais.

Impedir um número excessivo de mortes depende de fazer o máximo possível de testes, identificar os contaminados mesmo que não tenham sintomas, isolá-los e tratá-los, e monitorar os que tiveram contato com eles, diz Whitworth.

Para o pesquisador, também consultor da OMS para combate a epidemias, não é possível dizer que a evolução do coronavírus na Itália (país com o maior número de mortes no mundo) segue um padrão destoante: faltam dados, e a demografia e a fase de contágio variam de um lugar a outro, invalidando comparações.

Whitworth é médico especialista em epidemiologia, doenças infecciosas e saúde pública, consultor da OMS para combate a epidemias, pesquisador da Liverpool School of Tropical Medicine e da London School of Hygiene and Tropical Medicine e criou a Equipe de Resposta Rápida de Saúde do Reino Unido, da qual foi diretor-adjunto.

Pergunta – O que explica que a situação pareça tão mais séria na Itália e na Espanha?

Jimmy Whitworth – Três fatores. A taxa casos que terminam em morte depende de quantas pessoas foram testadas, porque um número muito grande de infectados não mostra sintomas.
Se apenas os que vão aos hospitais forem testados, identifica-se os muito doentes. Com testes amplos, como na Coreia do Sul, o universo de infectados cresce e a proporção de mortes por casos cai.

A segunda razão é o estágio da epidemia. Na maioria do Ocidente a situação não evoluiu o suficiente para que os doentes cheguem à morte, estamos ainda num período de expansão -crescem os novos casos, mas são pessoas infectadas recentemente; o registro de mortes é menor, porque o quadro desses doentes ainda vai evoluir.

A Itália está duas ou três semanas à frente de qualquer outro país europeu, houve mais tempo para que pessoas morressem. Os outros países ainda têm que percorrer esse caminho.

O terceiro ponto é a idade da população. Os mais velhos morrem mais frequentemente da Covid-19 e por ter outras doenças que agravam o quadro, as chamadas comorbidades.

Mas há diferença também na taxa de mortos por 100 mil habitantes. A proporção maior de idosos explica isso?

JW – Explica uma diferença entre Europa e China ou o Sudeste Asiático, mas o Japão também tem uma população muito idosa. Como os três fatores que eu mencionei variam de país para país, é muito difícil avaliar e fazer comparações.

As estratégias que os governos adotam podem explicar também evoluções diferentes?

JW – Sempre que o sistema de saúde se sobrecarrega o número de mortes aumenta, porque não se consegue tratar todos os infectados com o coronavírus nem muitos que têm outras doenças, ataques cardíacos, por exemplo, e os próprios médicos e enfermeiras acabam adoecendo, os que resistem ficam ainda mais estressados e tudo vai escalando rapidamente.

O Reino Unido adotou o confinamento na segunda (23) e alguns cientistas cogitaram que talvez já seja tarde demais. O país conseguirá evitar sobrecarga nos hospitais?

JW – O efeito do confinamento só será perceptível daqui a de dez dias a até três semanas. Há muitas pessoas já infectadas, que estão incubando o vírus e ainda vão ficar doentes, o número de casos e mortes continuará subindo. O Reino Unido está seguindo muito de perto a curva de epidemia italiana, com duas ou três semanas de atraso. Se olharmos para uma, podemos ter ideia de como estará a outra daqui a algumas semanas.

Mas parte do colapso do sistema de saúde depende também de onde as pessoas estão adoecendo. Se houver concentração em uma região do país, o sistema de lá não dará conta.

O sr. trabalhou na Gâmbia, em Sierra Leoa e em Uganda, o que é possível antever sobre o impacto do coronavírus na África?

JW – Uma boa notícia é que os países africanos têm uma população muito mais jovem que a europeia ou a chinesa, o que significa que a parcela de pacientes de risco é menor. Mas há um número grande de casos de tuberculose, malária e HIV, e não sabemos qual o efeito disso em quem contrai o coronavírus.

A África também está muito menos preparada, os sistemas de saúde não são tão bons, mas eles parecem ter reagido muito mais rapidamente que os europeus, fecharam fronteiras e estão testando e tratando rapidamente as pessoas. Essa é a estratégia correta.
Ainda é cedo, porém, para fazer qualquer previsão.

O Brasil é um país continental e urbano, com muita densidade nas cidades e uma parcela grande de pobres morando em condições precárias. Como isso afeta o combate à pandemia?

JW – Em todo país a prioridade é testar, identificar quem tem o vírus, isolar essas pessoas e tratá-las. Descobrir quem foi contaminado mesmo que não tenha sintomas e Impedir que essa pessoa circule e transmita para os outras. E monitorar quem entrou em contato com os casos confirmados.

Mas os governantes têm que identificar rapidamente seus pontos críticos e adaptar as políticas. No Brasil, a estratégia necessária para a Amazônia é diferente da adotada em São Paulo. Nos locais mais carentes, será preciso garantir acesso a água abundante e sabão. Em comunidades muito densas, precisa haver uma estratégia para permitir o isolamento. Criar estruturas para isso.

Com o que a ciência já sabe dos casos estudados na China e na Itália, onde a epidemia já acontece há mais tempo, quais os maiores fatores de risco para quem é infectado?

JW – Tudo indica que idade e doenças preexistentes são fatores independentes de risco. Dados das primeiras centenas de casos britânicos mostram que as comorbidades [interação entre a Covid-19 e doenças pré-existentes] traz risco maior, mas a idade ainda é relevante. E condições como câncer ou leucemia, por exemplo, que independem da idade.

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Assuntos coronavírus
Redação 26 de março de 2020
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