
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Sete anos depois do colapso sanitário que deixou 9,6 mil mortos em Manaus, desde março de 2020, com ápice na segunda onda, em janeiro de 2021, quando faltou oxigênio hospitalar, e hospitais entraram em colapso, profissionais de saúde e pesquisadores avaliam que o Brasil avançou em infraestrutura e vigilância epidemiológica, mas não superou um problema central: a tensão entre política e ciência na tomada de decisões durante crises.
Para o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, o SUS (Sistema Único de Saúde) ainda funciona de forma frágil entre os três níveis de governo. “Quando falamos em saúde pública no Brasil, é inevitável lembrarmos que a efetiva gestão do SUS depende dos três níveis, municipal, estadual e federal. Portanto, se um nível falha, o efeito se reflete nos níveis inferiores e, consequentemente, na população”, afirma.
Segundo Orellana, houve avanços. “Nos últimos três anos, avançamos em termos de vigilância integrada de doenças e melhoria de alguns indicadores de saúde, mesmo com desafios novos como a crise climática”, avalia. “Ainda estamos precisando aperfeiçoar ações mais integradas e coesas, mesmo depois da dramática e letal experiência com a epidemia de Covid-19 no Brasil”.
O professor aposentado da Faculdade de Medicina da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), infectologista e ex-diretor presidente da FVS (Fundação de Vigilância em Saúde), Bernardino Albuquerque, é enfático: a pandemia poderia ter tido outro desfecho. “Poderia ter sido diferente? Respondo que sim”.
Bernardino afirma que desde os primeiros relatos em Wuhan, na China, a ciência sinalizava alta transmissibilidade, capacidade de produzir doença grave e com alta letalidade. “Na prática, nossos governantes deixaram acontecer para a tomada de decisões importantes e, quando as fizeram, foram baseadas em problemas políticos, econômicos ou em interesses pessoais em detrimento da ciência e do conhecimento”.

Imunidade de rebanho
A aposta na imunidade de rebanho por contágio natural foi uma decisão equivocada e de alto risco, como ficou comprovada. Para Jesem Orellana, a escolha não foi ingenuidade, foi cálculo político.
“O governo Bolsonaro, com claro apoio do então governador Wilson Lima, teve papel mortal na dupla tragédia do Amazonas. À época, ambos optaram pela teoria fantasiosa da imunidade do rebanho, basicamente por buscarem, equivocadamente, popularidade e resultados econômicos que poderiam compensar os prejuízos sanitários”, afirma o pesquisador.
“O cálculo mostrou-se monstruosamente equivocado, dizimando mais de 700 mil brasileiros e causando bilhões de reais em prejuízos à economia. Também poderíamos falar dos efeitos pós-pandemia, incluindo a famosa ‘Covid longa’, que afeta milhares de pessoas até hoje”, diz o epidemiologista.
A epidemiologista Josiani Nunes, que atuou como coordenadora do Comitê de Enfrentamento de Crise da Covid-19 em Manaus e hoje coordena cursos da área de saúde no Centro Universitário Martha Falcão Wyden, explica a lógica por trás da escolha.
Segundo ela, a teoria funcionou como escudo para a inação. “Providências concretas, como lockdown, auxílio financeiro robusto, compra antecipada de vacinas e logística de oxigênio são caras, politicamente impopulares e logisticamente exaustivas”, diz.
A teoria do curso natural da doença, conforme Josiani Nunes, transferia a responsabilidade do controle para o próprio vírus, tratando a tragédia como fenômeno inevitável, e não como falha de planejamento da gestão pública.
O doutor em Epidemiologia e Saúde Pública Daniel Barros de Castro pondera. Para ele, houve uso inadequado do conceito num contexto de muitas incertezas.
“Infelizmente, acredito que houve uso inadequado ou distorcido desse conceito, num contexto em que ainda se sabia pouco sobre a doença, sua dinâmica de transmissão e a proteção conferida após a infecção, sobretudo diante do surgimento de variantes”.
Segundo Daniel Castro, entre os técnicos com quem teve contato o foco era identificar medidas efetivas de controle, não sustentar aquela teoria como estratégia. O isolamento social, segundo ele, chegou tarde. O argumento era o impacto na economia.

Medidas simples, mas ignoradas
Jesem Orellana avalia que “estratégias como a detecção precoce de casos, isolamento e acompanhamento seletivo de pessoas infectadas, uso de máscaras efetivos, previsão oportuna da demanda hospitalar e de trabalhadores de saúde deixaram de ser tomadas e resultaram no desastre brasileiro na pandemia, em particular no Amazonas, um verdadeiro laboratório a céu aberto”.
Para o especialista, o isolamento era “equivocadamente usado, em geral, tardiamente e para atender pressão judicial ou da sociedade”. Ele afirma: “Deixaram o vírus se disseminar sem controle, levando a seguidos colapsos funerários e hospitalares em Manaus”.
Para Josiani Nunes, a dicotomia entre salvar vidas e salvar a economia provou-se falsa. “O caso de Manaus demonstrou que, quando a saúde colapsa, a economia trava por si só, seja pelo medo, pelo luto ou pela incapacidade da força de trabalho”.
Conforme a epidemiologista, isolamentos curtos e precoces são infinitamente menos danosos do que lockdowns tardios. Decisões desse tipo, segundo a especialista, precisam de gatilhos técnicos automáticos, taxa de ocupação de leitos, velocidade de contágio, sem depender do debate político.
De acordo com Bernardino Albuquerque, as falhas operacionais foram graves. “Importantes inconformidades foram detectadas em consequência de um planejamento focado em quantidade de leitos hospitalares como se fosse esse o ponto central, em detrimento ao treinamento de recursos humanos, de aquisição de insumos, aqui citando o problema vivenciado com a falta de oxigênio, e de equipamentos específicos como ventiladores respiratórios”, recorda. Ele acrescenta ainda o “prejudicial embate com a ciência a respeito da eficácia de alguns medicamentos” como fator que agravou o quadro.
Daniel Castro reconhece a complexidade do momento. “Esse foi um dos pontos mais difíceis porque envolvia a necessidade de equilibrar proteção da vida, capacidade de resposta do sistema de saúde e impactos sociais e econômicos”. Segundo ele, havia forte pressão técnica por medidas mais duras, mas também resistência, inclusive porque, para muitas pessoas, a manutenção das atividades era uma questão de subsistência.

Golpe na vacinação
As decisões políticas em detrimento das providências sanitárias “destruiu” a referência do Brasil como exemplo de imunização em massa. Na pandemia, esse legado foi atacado de dentro.
Segundo Jesem Orellana, o dano foi sem precedentes. “Mesmo o Brasil sendo historicamente responsável por um dos mais bem sucedidos programas de vacinação em massa do mundo, foi transformado em uma espécie de decepção na pandemia de Covid-19, pois políticos como Jair Bolsonaro, falsos cientistas e epidemiologistas, fizeram com que milhões de pessoas rejeitassem o comprovado efeito protetor de uma das grandes façanhas da história recente da humanidade em termos científicos”.
Para o pesquisador, a lição é clara. “Jamais devemos trocar a ciência por achismos e teorias vagas, sobretudo quando são veiculadas por políticos que não se importam com consequências e ainda debocham das vítimas”.
Para Josiani Nunes, o enfraquecimento do PNI (Programa Nacional de Imunizações) não foi acidente. Ela avalia que a vacina deixou de ser insumo de saúde e virou instrumento político.
“Apoiar ou rejeitar o imunizante tornou-se uma forma de demonstrar lealdade a determinados grupos, transformando um ato técnico em uma declaração ideológica”.
Segundo a especialista, teorias da conspiração como chips injetados com a vacina, alteração de DNA ou falta de testes serviram para alimentar o medo e justificar a inação governamental.
De acordo com Daniel Castro, a comunicação pública sobre vacinas nem sempre esteve alinhada com as evidências. “A principal lição, a meu ver, é que, em emergências sanitárias, a comunicação institucional precisa ser consistente e baseada em evidências, porque ruídos têm impactos difíceis de reverter”. Há, segundo ele, sinal de recuperação. “Nos últimos anos, até pela melhoria dos indicadores de vacinação, tem se conseguido reverter, pelo menos em parte da população”.
Melhor estrutura de saúde
Conforme Josiani Nunes, Manaus saiu da crise com conquistas estruturais reais. Usinas de oxigênio foram instaladas em hospitais da capital e do interior. A capacidade de monitoramento de variantes cresceu. A rede de armazenamento de imunobiológicos foi modernizada. “O maior aprendizado técnico talvez resida na percepção de que saúde não é apenas leito, é gente”, diz ela.
Segundo a especialista, profissionais de saúde em Manaus hoje têm expertise em manejo de crises respiratórias muito superior à do período pré-2020.
Mas o déficit de especialistas no interior persiste. A coordenação entre os entes federativos, conforme a epidemiologista, ainda depende da afinidade política dos gestores. Manaus é um grande gargalo.

Para Bernardino Albuquerque, a lição é objetiva. “A grande lição que fica é que devamos cada vez mais acreditar na ciência, aprimorar nosso planejamento, definir estratégias e ações fundamentadas em experiências anteriores, no conhecimento científico e na capacidade operacional de nossos técnicos”.
Bernardino dá um recado aos gestores públicos: “Que conduzam a saúde de nossa população como um problema técnico prioritariamente, o bônus político com certeza fluirá com muito mais intensidade”.
Indicadores da pandemia
Desde março de 2020, Manaus registrou 9.686 mortes por Covid-19, a grande maioria de todas as vítimas do estado do Amazonas, que registrou 14.561 mortes.
O momento mais crítico foi o início de 2021, com a segunda onda do vírus. Hospitais lotaram, faltaram leitos de UTI e o oxigênio hospitalar acabou. Famílias saíam desesperadas em busca de cilindros, há relatos de mortes por falta de oxigenação, e pacientes foram transferidos para outros estados. A tragédia teve repercussão mundial.
Em meio ao caos, o Ministério da Saúde pressionava unidades básicas de saúde a adotarem o “tratamento precoce” com medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, sobretudo cloroquina e hidroxicloroquina.
A sociedade civil se mobilizou com a campanha #SOSManaus, arrecadando cilindros de oxigênio e respiradores. A Fiocruz doou usinas de oxigênio em parceria com o programa Unidos Contra a Covid-19, instalando equipamentos no Hospital Getúlio Vargas e outros, além de mapear variantes e denunciar publicamente a crise.
Imagens da tragédia registraram esse momento histórico da pandemia de Covid-19 em Manaus: centenas de covas no maior cemitério da cidade para enterrar as vítimas. Cena que, se a lição foi realmente aprendida, jamais se repetirá.
