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Expressão

As tragédias e os discursos: nada muda no Brasil

24 de fevereiro de 2023 Expressão
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São Sebastião
A tragédia da vez ocorreu no município de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
EDITORIAL

MANAUS – No Brasil, as tragédias, principalmente as causadas por desastres naturais, são cada vez mais frequentes, e o povo brasileiro já começa a se acostumar com elas. Quando isso acontece, há uma acomodação geral e até os discursos políticos passam a perder força.

O problema do Brasil é que não se ataca a origem do problema, ou seja, a moradia nas encostas de morros ou nas proximidades delas. Por que o poder público permite que pessoas construam casas nesses locais?

No discurso atual, inclusive incorporado por boa parte dos jornalistas e comunicadores, a culpa desses desastres são as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global, fruto da poluição do planeta pela humanidade.

É muito mais fácil transformar as mudanças climáticas no vilão das tragédias. Assim, diminui-se a culpa daqueles que realmente carregam a culpa.

O Brasil tem um problema de fundo que, se resolvido ou atacado com seriedade, reduziria em muito as tragédias e as mortes de pessoas nesses desastres naturais: a falta de moradia.

Nem prefeituras nem governos estaduais nem governo federal estabelecem no país em suas jurisdições uma política séria de moradia que seja capaz de mudar o cenário das cidades. As moradias caóticas nas periferias das cidades são a regra.

Os projetos de moradia, quando há, não conseguem atender 1% da demanda da população que precisa de casa.

Sem condição de comprar um imóvel em locais seguros, porque os preços são inacessíveis à maioria da população, grande parte dos citadinos resolvem construir barracos em áreas de risco, que muitas vezes não custam nada, são ocupados aleatoriamente. Aos poucos, os barracos viram casas, formam bairros, e ninguém tem coragem de coibir essa prática.

As prefeituras ou a defesa civil dos municípios e estados muitas vezes se orgulham de ter um mapeamento com o número das áreas de risco e de famílias em situação vulnerável, mas quase nenhuma ação é feita para mudar a realidade dessas pessoas.

O município tem o dever de não deixar que ninguém ocupe áreas de risco. E se as área já estão ocupadas, não basta fazer o mapeamento. Há que se ter projeto de retirada dessas pessoas, com a construção de moradias em locais seguros, com financiamento que os beneficiados possam pagar.

A política de doação de casas, medida populista muito usada pelos governantes brasileiros, não ajuda população a valorizar seus imóveis. Por isso, é necessário que se cobre um valor, com parcelas que se encaixem no orçamento dos beneficiários.

Os desastres naturais não serão cessados, mas é possível evitar que eles ceifem dezenas ou centenas de vidas, como tem ocorrido no Brasil nos últimos anos.

Também não basta criar sistemas de alertas para evacuação dos locais de risco. Evita-se mortes, mas a perda de um imóvel e de tudo o que nele há, para muitos, significa a perda de parte de sua vida, construída com muito sacrifício.

A resposta aos desastres naturais precisa se distanciar cada vez mais das políticas populistas e se aproximar de políticas de estado, com efeitos duradouros e soluções definitivas.

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Assuntos chuvas, desastres naturais, discursos, políticos, São Sebastião, tragédia
Valmir Lima 24 de fevereiro de 2023
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