
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – As duas secas prolongadas em rios do Amazonas, em 2023 e 2024, causaram sumiço de peixes na cheia. A Fepesca (Federação de Pescadores do Estado do Amazonas) confirma a escassez e informa que os barcos de pesca estão retornando a Manaus com volume de peixes abaixo do padrão.
O biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira, especialista em ecologia aquática, diz que os eventos climáticos extremos atingiram diretamente o ciclo de vida de diversas espécies de peixes.
“As duas últimas secas do sistema rio Solimões/Amazonas, em 2023 e 2024, causadas pelo agravamento das mudanças climáticas, foram muito acentuadas. Isso pode ter ocasionado efeitos graves nos movimentos de saída dos cardumes dos afluentes para o canal principal do rio, ou seja, na migração reprodutiva de várias espécies que se deslocam durante a enchente”, explicou.
Além das espécies migratórias, há outro grupo igualmente prejudicado: os peixes que se deslocam lateralmente entre lagos e rios, tanto na enchente quanto na vazante, e que se reproduzem nos lagos.
“Esses também foram muito impactados. O nível da água dos lagos baixou demais, dificultando o crescimento das larvas e dos juvenis. O resultado desses eventos foi a diminuição dos estoques de várias espécies”, disse.
Edinbergh cita dois fatores principais para a escassez de algumas espécies: o impacto acumulado das secas e o próprio comportamento dos peixes durante a cheia. “Na cheia, os peixes têm mais espaço nas planícies alagadas e igapós. Isso dá mais refúgios para os cardumes, dificultando a pesca. Mas o que está chamando atenção agora é que mesmo no início da vazante, com o rio ainda cheio, os peixes continuam em baixa quantidade”.
Superexploração

O sumiço nos rios gera efeitos no mercado consumidor. “Já temos alguns dados de diminuição dos estoques pesqueiros das espécies comerciais nos mercados de Manaus e em alguns municípios da calha do Amazonas. Podemos afirmar, como alerta, que já iniciamos um processo de superexploração que pode se agravar se continuarmos tendo secas severas como nos últimos dois anos”, adverte o biólogo.
Sobre o risco de desaparecimento de espécies, Edinbergh Caldas pondera que ainda é cedo para afirmar, mas o cenário exige atenção. “Temos a maior bacia hidrográfica do mundo, então seria precipitado dizer que uma espécie vai desaparecer. Mas precisamos de mais estudos populacionais, de médio e longo prazo, para termos essa resposta com segurança”.
Segundo ele, as espécies mais vulneráveis são justamente as mais consumidas pela população. “As que apresentam desova total — ou seja, se reproduzem uma vez por ano — e dependem do ciclo hidrológico para migrarem na época da reprodução. São, infelizmente, a maioria das espécies comerciais: jaraquis, pacus, sardinhas, aracus, caparari, tambaqui. Muitas dessas ainda não estão protegidas pelo Defeso”.
A reprodução dessas espécies está associada ao bom funcionamento dos canais e das planícies inundáveis. “Os canais, chamados paranás, são importantes para transportar e dispersar ovos e larvas. Esses ovos precisam chegar até as várzeas que funcionam como verdadeiros berçários. Se isso não ocorre, o ciclo reprodutivo quebra”, explica o biólogo.
O pesquisador alerta que é preciso ampliar o conhecimento científico sobre a dinâmica da pesca na região. “Precisamos de mais estudos populacionais de peixes e pesquisas sobre a atividade de pesca. Só assim podemos fazer um manejo adequado e efetivo das nossas espécies. Além disso, é urgente aumentar a fiscalização na época do Defeso”.
Fepesca-AM confirma crise na atividade

O presidente da Fepesca, Walzenir Falcão, diz que os efeitos das secas recentes atingiram a pesca em todas as regiões do estado. “Estamos vivenciando o resultado de grandes secas e cheias irregulares com mortandade de populações de várias espécies. Se não cuidarmos, poderá ser ainda pior. O ser humano precisa ajudar a preservar nossos mananciais ambientais”.
Segundo Falcão, a atual safra deveria ser de alta produtividade, mas a realidade é outra. As embarcações estão retornando com volumes bem abaixo do padrão histórico.
“Hoje, as embarcações chegam a carregar 30, 40, no máximo 50 toneladas. Antes, era comum atingirmos 150 a 200 toneladas por dia. Agora não chega nem à metade. Está devagar demais da conta”, relatou.
Infraestrutura
A queda na produção provocou um efeito direto no preço do pescado. Com menos cardumes nos rios, o valor do peixe nos mercados aumentou.
“O impacto está na lei da oferta e da procura. Com pouca produção, o preço dispara. E como não temos um terminal pesqueiro com estoque regulador, não conseguimos equilibrar o mercado entre períodos de safra e entressafra”, explicou Falcão.
Ele defende a criação urgente de um terminal pesqueiro em Manaus com infraestrutura adequada para armazenamento e distribuição, além de políticas públicas de apoio ao pescador artesanal.

Para Edinbergh Caldas, o desafio exige ações coordenadas. “Não podemos esquecer do apoio por meio das instituições públicas aos pescadores, que dependem da pesca para sobreviver. E é urgente uma nova postura da sociedade quanto à fiscalização e ao consumo consciente dos nossos recursos naturais”
Alerta
Tanto especialistas quanto representantes da categoria pesqueira concordam: a situação atual exige ação imediata. Sem medidas coordenadas de fiscalização, pesquisa, manejo e apoio logístico, a escassez pode se tornar recorrente, afetando a segurança alimentar de milhares de famílias e a economia regional.
“O que está em jogo não é apenas a pesca, mas o equilíbrio de todo um sistema ambiental, cultural e econômico”, resume o biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira.

Com o entendimento de que rios são fonte de alimentos, portanto vitais para a espécie humana, ignorar esse recurso natural cada vez mais impactado por eventos climáticos extremos é arriscar a sorte. Ou se estabelece políticas públicas que assegurem esse recurso natural como fornecedor de comida, ou vamos testemunhar o colapso dos rios na Amazônia. Os efeitos do clima são reais.