
Por Aguirre Talento, do Estadão Conteúdo
BRASÍLIA – O ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem foi detido nos Estados Unidos nesta segunda-feira, 13, pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE), de acordo com informações recebidas pela Polícia Federal (PF) brasileira. Ainda não há detalhes dos motivos da prisão.
Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Ramagem fugiu para os Estados Unidos durante o julgamento da ação penal da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele perdeu o mandato de deputado no fim do ano passado e foi condenado a 16 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado.
Após a condenação, o ministro do STF Alexandre de Moraes havia solicitado a extradição de Ramagem para o cumprimento da pena no Brasil. Ainda não há informações se a detenção realizada pelo serviço de imigração tem relação com esse pedido de extradição.
Ramagem deixou o Brasil por Roraima e entrou na Guiana de carro, de onde embarcou num avião para os Estados Unidos.
O governo dos EUA vinha resistindo a cumprir outras ordens de Moraes para extraditar aliados do ex-presidente que fugiram aos EUA, como o blogueiro Allan dos Santos, foragido desde 2021.
Quem é Alexandre Ramagem
Delegado da Polícia Federal e político brasileiro, Alexandre Ramagem deixou o Brasil apesar de estar condenado a 16 anos e 1 mês de reclusão por participação na trama golpista e proibido de sair do País.
No final de janeiro, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública informou ao STF que o pedido de extradição do ex-deputado federal tinha sido entregue ao governo dos Estados Unidos em 30 de dezembro de 2025.
O político teve o mandato cassado em 18 de dezembro do ano passado, no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados também declarou a perda do mandato de Eduardo Bolsonaro(PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
À época, pelas redes sociais, Ramagem afirmou que a decisão foi resultado de uma “canetada” e acusou o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), de atuar como “subordinado de um ministro ditador”, em referência a Alexandre de Moraes.
Ex-diretor da Abin e aliado de Bolsonaro
Alexandre Ramagem Rodrigues é ex-delegado da Polícia Federal e aliado histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A relação se consolidou na campanha de 2018, quando Ramagem foi designado para chefiar a segurança pessoal de Bolsonaro após o ex-presidente ser esfaqueado em Juiz de Fora (MG).
No início de 2019, já no governo Bolsonaro, Ramagem foi nomeado superintendente da PF no Ceará, mas deixou o cargo para ingressar na política. Passou um período como assessor no Palácio do Planalto e, em junho daquele ano, foi escolhido para chefiar a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Na posse, Bolsonaro destacou a proximidade dos dois, dizendo que “grande parte do destino da nação” passaria pelas mãos de Ramagem. Ele foi eleito deputado federal em 2022 com 59.170 votos.
Em outubro de 2023, Ramagem foi alvo de operação da PF no gabinete e no apartamento funcional. A corporação investigou o uso ilegal da Abin para monitorar ministros do STF, políticos, jornalistas e advogados, por meio da ferramenta FirstMile. Segundo a PF, a Abin teria realizado 33 mil rastreamentos ilegais, incluindo o monitoramento de Alexandre de Moraes.
A operação “Vigilância Aproximada”, desdobramento da “Primeira Milha”, cumpriu 21 mandados de busca e levou à prisão de dois servidores da Abin. Nas redes, Ramagem atribuiu a investigação a uma suposta “austeridade” implementada na gestão Bolsonaro.
Condenação por trama golpista e recursos ao STF
Ramagem foi condenado pelo STF por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, recebendo pena de 16 anos, 1 mês e 15 dias em regime fechado, além de perder o mandato.
O Supremo suspendeu a análise de crimes relacionados ao 8 de janeiro, como dano qualificado ao patrimônio da União, porque teriam ocorrido após sua diplomação como deputado.
A defesa tentou reduzir a pena, alegando participação de “menor importância” na trama golpista, e pediu a suspensão da condenação por organização criminosa, argumentando que o crime teria natureza permanente e também teria continuado a ocorrer após ele receber o diploma de deputado. Os advogados afirmam ainda que o STF foi omisso ao aplicar automaticamente a perda do cargo de delegado da PF.
