
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – Qual o limite da liberdade? Qual o limite da liberdade de expressão, de informação e de opinião? Nas sociedades democráticas, essa liberdade esbarra no direito dos cidadãos. A lei e o direito são os únicos dispositivos capazes de impor limites à liberdade na atividade jornalística.
A prática, no entanto, tem atropelado a teoria, e a cada dia essa tese vem se consolidando com o registro de casos de violência contra profissionais que ousam fazer perguntas, principalmente a autoridades e políticos.
O último caso foi do prefeito de Macapá, Dr. Furlan (MDB), que agrediu um cinegrafista de uma equipe de jornalismo de um site de notícias do Amapá. O repórter Heverson Castro questionou o prefeito durante visita a obra de um hospital municipal nesses termos: “É coisa séria. Prefeito, o senhor lançou essa obra em 2023. O que está acontecendo? Já estamos em 2025 e por que essa obra está demorando tanto? Está demorando ou está dentro do prazo?”.
O prefeito riu e não respondeu a pergunta. Em seguida, partiu para cima do cinegrafista que o filmava e o agarrou pelo pescoço. O episódio foi filmado por pessoas que acompanhavam a visita e rapidamente ganhou as redes sociais.
A Prefeitura de Macapá emitiu nota de repúdio em que afirma que o “blogueiro Heverson Castro, acompanhado de dois indivíduos identificados como Marshal e Iran Froes, interrompeu a atividade oficial, agrediu verbalmente o prefeito e ainda tentou agredi-lo fisicamente”.
As imagens são claras e desmente a nota oficial da Prefeitura de Macapá. A única agressão registrada pelas câmeras foi praticada por Dr. Furlan, e pela Polícia, que levou os jornalistas à delegacia algemados.
Fazer pergunta é uma tarefa elementar do jornalista, mas no Brasil ela é uma atividade de risco, principalmente se feita a uma autoridade. Um político deveria saber que, quando eleito, deve satisfação à população. A pergunta do repórter não teve qualquer agressão, e deveria ser respondida, porque a população também quer saber por que a obra de um hospital demora tanto para ser concluída.
Os políticos gostam da bajulação, e detestam ser contrariados em público. Muitos criam cercas em torno deles, com seguranças e assessores que tentam impedir o trabalho de repórteres.
Recentemente, em Manaus, o vice-prefeito e secretário de Infraestrutura, Renato Júnior, fez uma demonstração de como esses “esquemas de proteção” funcionam. Uma repórter tentou fazer uma pergunta, mas foi abordada por uma assessora que tentou impedi-la de se aproximar do assessorado. Recomendava que a repórter enviasse a pergunta para a assessoria. Chegou segurar e empurrar o braço da repórter para que ela não chegasse perto do vice-prefeito.
A ação é absurda, e é agravada pelo fato de a assessora também ser uma jornalista. Se um jornalista encontra uma autoridade em qualquer lugar, é dever dele questioná-lo. Deve-se ter cautela se essa pessoa estiver em uma atividade particular com a família. Mas em uma atividade pública, como era o caso, nada pode impedir que o jornalista se aproxime da autoridade.
Mas esse não é um caso isolado. Autoridades municipais, estaduais e federal têm se comportado dessa forma. Muito se deve à popularização da internet e das redes sociais. Nesses espaços de comunicação, a autoridade se apresenta como o melhor gestor, o melhor político, o melhor cidadão…
Na vida real, essa mesma autoridade tenta impedir que um jornalista borre sua maquiagem ou quebre a redoma das redes sociais em que ele se meteu.
Antes da popularização da internet, o político queria aparecer nos meios de comunicação, mesmo que fosse de forma negativa. Acreditava na máxima de que “quem não é visto, não é lembrado”. Agora, com a hiperexposição nas redes sociais, ele acha que não deve mais satisfação aos eleitores e à população em geral. Fala somente para sua bolha.
Neste cenário, o jornalismo se faz extremamente necessário. Os questionamentos indesejados aos políticos são primordiais para quebrar a redoma. E as autoridades precisam entender que um mandato eletivo é um serviço à sociedade, não um prêmio. Na democracia, o povo é quem deve ter a última palavra, diferente das monarquias, em que o rei ou a rainha mandavam e desmandavam.
Aos assessores, recomenda-se que voltem a estudar os manuais de boas práticas e releiam os códigos de ética da profissão. O mínimo que se exige desses profissionais é respeito com os colegas. A pergunta de um repórter não pode ser silenciada ou abafada sem que isso represente uma agressão à profissão.

