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Augusto Barreto Rocha

A falácia da falta de dinheiro para infraestrutura na Amazônia

7 de outubro de 2019 Augusto Barreto Rocha
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Os pais costumam falar para os filhos “deixe para depois”, “na volta para casa compramos” ou “não temos dinheiro para isso”, conforme a idade das crianças. De seu lado, os filhos compreendem, de sua forma, cada uma destas frases. Depois de uma certa idade podem surgir respostas do tipo: “entendi que não queres gastar com isso”. As mais questionadoras podem arguir: “se gastas R$ 70 com cerveja, por que não gastas R$ 35 com este livro para mim?”

Chegou a hora de crescermos como sociedade e entendermos que a quantidade de dinheiro não é o problema. A questão é: quais são as prioridades para o recurso disponível? Em uma arrecadação pública bilionária ou trilionária não existe falta de recurso. O problema é outro. Uma solução melhor seria uma distribuição percentual da arrecadação e uma discussão sobre esta distribuição. Há 100% de recursos. Por que não se faz assim?

Nem tudo é prioridade

Em uma família abastada sempre haverá recursos para saúde e alimentos. Famílias menos providas terão sempre recursos para alimentos e família ainda menos providas por vezes não terão recursos sequer para alimentos. De outro lado, é necessário compreender que recursos precisam ser ganhos por meio da produção. Ou seja, um dos caminhos adotados para empurrar adolescentes para o trabalho é completar a renda familiar para necessidades básicas ou endereçar os desejos de consumo que ele possua.

Em ambientes familiares desenvolvidos intelectualmente e financeiramente sempre haverá recursos abundantes para manutenção do trabalho (fonte de mais recursos), alimento, saúde, educação, segurança e infraestrutura. Diversão pode não ter. Todavia, a geração de renda será sempre uma prioridade, tanto que qualquer perda de emprego leva a uma crise doméstica, onde todos costumam conversar sobre como ajudar, como recompor aquela renda e como apertar os cintos até que a receita seja refeita.

Doença social

Nossa sociedade está doente, porque não se preocupa primeiro com a geração de riqueza. Como facilitar a geração de riqueza? Não se discute isso. Governos não falam disso e isso não significa dar dinheiro, mas sim criar condições. Por quais razões não criamos as condições para as produções que não existem e há potencial. Se elas não surgirem, é porque ainda não foram criadas as condições. A culpa é de quem governa e da sociedade. Se não há turismo na Amazônia é porque não existem condições. É como se fossem adolescentes assaltando a bolsa da mãe. Uma sociedade imatura que na falta de recursos prefere saquear os cofres públicos e acha isso normal.

Não há como aceitar que não há recursos para desenvolver a Amazônia. Se existe um adolescente brilhante, com grande potencial de gerar riqueza em uma família, será natural que toda aquela família se junte para financiar o jovem potencial. Todos dizem que a Amazônia possui potencial, mas, como um bando de familiares bêbados e irresponsáveis, ninguém ajuda a região a se desenvolver, mas prefere deixar aquele jovem preso, sem acesso ao mundo. Quando nossa região se rebelará ou se posicionará melhor frente aos familiares?

A subserviência me parece sempre danosa e este tem sido o caminho adotado por nossa região. Nossas lideranças fazem o mesmo com a nossa sociedade, espelhando o comando recebido. Há uma área de enorme potencial no país, que ainda não está pronta para gerar riqueza, mas se for tudo proibido e não tiver infraestrutura, se ela seguir sufocada por normas e falta de conexões com o mundo será impossível e ilegalidades povoarão estas áreas.

Como desenvolver?

Alocar os percentuais no orçamento adequadamente é uma prioridade. O orçamento público precisa ter meia dúzia de grandes contas, como orçamentos de empresas e as discussões devem ser em torno destes percentuais e não em torno de valores que ninguém compreende. Se continuar assim, bilhões seguirão sendo alocados para propaganda e zero será alocado para infraestrutura, como uma família doente, que aloca recurso para festa e não aloca recursos para comida. Que aloca recursos para presentes, mas não aloca recursos para estudo ou trabalho. Traduzindo: destinar 2,5% do PIB da Amazônia ou 3,5% dos orçamentos da região para obras de infraestrutura.

Precisamos deixar a sociedade trabalhar e alocar o recurso do imposto para o que constrói o futuro, pois de outra forma, voltaremos a ser uma sociedade escravocrata. Ou será que deixamos de ser? Olhar os sistemas de transportes públicos de uma cidade brasileira média ou grande sempre me dá a impressão que continuamos a ser. Até quando?

Agradecimento

Uma nota final: agradeço ao Senador Lucas Barreto (AP), que me deu a honra de ler e registrar na mais alta tribuna da República, no dia 03/10/2019, texto publicado neste espaço. Assim, agradeço a doce surpresa do primo distante e admirado, que não falava a mais de uma década. Distante no tempo dos contatos e na imensidão amazônica, que se percebeu próximo nos ideais de desenvolvimento, talvez por inspiração do pai (meu tio), que empreendeu em toda a sua vida, da venda de pirulitos na infância, passando pelo conserto de eletroeletrônicos e chegando à produção de gado e leite na Amazônia profunda, tão desconhecida por tantos brasileiros que clamam inocentemente pela “proteção” (sic) da região. Na sequência, há uma brilhante análise do Senador da situação da Amazônia e do Amapá. Recomendo fortemente a leitura das notas taquigráficas em https://www25.senado.leg.br/web/atividade/notas-taquigraficas/-/notas/s/23819#quarto28.


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Augusto Barreto Rocha, infraestrutura na Amazônia
Cleber Oliveira 7 de outubro de 2019
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