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© 2022 Amazonas Atual
Augusto Barreto Rocha

Quando faltam dados, sobra incerteza na Amazônia

6 de julho de 2026 Augusto Barreto Rocha
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MANAUS – Há muitas incertezas sobre a seca de 2026 na Amazônia. Afinal, é fácil afirmar que haverá seca. O difícil é afirmar quão severa será, até mesmo porque o ciclo de cheia do Rio Negro em Manaus ainda não foi concluído e, pelo menos até aqui, o que é observado é algo rigorosamente na média ou um pouco acima dela. Entretanto, resultados médios não atraem atenção para a previsão do tempo ou das cheias e vazantes.

Existe um elemento de destaque que é a fumaça no ar de Manaus, o que demonstra que há queimadas aqui perto e que a chuva não dissipou nem o fogo, nem a fumaça. É lamentável voltar a perceber queimadas perto da capital do Amazonas.

O El Niño foi escolhido como o grande vilão das secas severas de 2023 e 2024, porque havia um evento classificado como “Forte” (+1,5 a 1,9ºC). Estas secas provocaram rios intransitáveis e restrições para navios de grande porte para Manaus, o que levou a sobrecustos logísticos superiores a R$ 1,4 bilhões.

Muito foi feito para tentar entender estes fenômenos, mas pouco recurso público foi alocado para entender a questão. Até os recursos de monitoramento dos rios foram contingenciados, afinal, para os gestores públicos, em nome da “responsabilidade orçamentária”, é prudente parar a ciência. É um fenômeno estranho: nos momentos em que necessitamos de mais pesquisa, o hábito brasileiro é interromper a pesquisa científica. Afinal, isso não tem visibilidade e crises climáticas dão a impressão de serem aleatórias, mesmo que não sejam.

Sem monitoramento faltam dados e o que foi feito: reduziu-se o monitoramento. Sem dados, não há como fazer planejamento. O desafiador do país não é a falta de capital intelectual, mas a falta de capacidade de gastar recursos onde é necessário. O problema não são as crises climáticas que virão, mas a decisão de não fazer prevenção ou estudos dos impactos do clima.

Depois gasta-se muito, mesmo sem orçamento, com as emergências. A região Amazônica segue sendo percebida como um fazendão ao invés de um bioma relevante, com mais de 25 milhões de habitantes e cerca de metade da área do país.

Com base em boletins e apresentações realizadas por pesquisadores do SGB (Serviço Geológico do Brasil) e do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Rio Negro já apresenta sinais de 1,5m abaixo do período do El Niño de 2015, que foi muito forte (Renato Senna, INPA) e o Rio Solimões em Tabatinga desce a um ritmo diário que se aproxima rapidamente das mínimas históricas (relatório do SGB de 30/06/2026). Estes são os sinais mais extremos, enquanto existem vários outros dentro da média histórica.

A imprevisibilidade por vezes amedronta. Mas o que me inquieta é o quanto não nos movemos como sociedade para pesquisar e entender a mudança climática e seus efeitos em nossas vidas. Estamos distraídos e concentrados no que não interessa.

Estamos atentos com opiniões e rumores, em shows e questões midiáticas que nos afastam seja do mundo real dos ônibus e das viagens infindáveis das cidades, seja do mundo que é possível prever. Estamos concentrados no que não interessa, para não olharmos o que interessa. E assim a Amazônia segue como potencial e a seca trará oportunidades para uma grande crise e alguns poucos se aproveitarão dela, mas milhões pagarão por seu impacto em suas vidas e em seus bolsos.


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, El Niño, incertezas, seca
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