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© 2022 Amazonas Atual
Sandoval Alves Rocha

O grito das águas e o grito dos pobres

25 de março de 2022 Sandoval Alves Rocha
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No dia 22 de março comemoramos o Dia Mundial da Água, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1993. Em alusão a esta data, o Serviço Amazônico da Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), numa parceria com o coletivo Aliança pelo Gigante, realizou uma manifestação chamando atenção para o cuidado com os corpos hídricos do planeta situados na Amazônia. Tal iniciativa busca mostrar que não tratamos adequadamente a água, colocando em perigo a existência de milhares de espécies animais e vegetais.

Como continuação de uma celebração litúrgica realizada na Igreja Mãe de Deus e da Amazônia, no Bairro Versalhes, o evento reuniu moradores residentes nas adjacências do igarapé do Gigante, além de movimentos socioambientais preocupados com a degradação da natureza. Afetando negativamente as águas, esta degradação atinge as populações humanas e não humanas, prejudicando a qualidade de vida em geral. Neste cenário, as iniciativas em prol do cuidado com as águas significam também ações em defesa da vida.

Durante a caminhada, os manifestantes gritavam palavras de ordem como “proteger a casa comum!”, “água é direito, não é mercadoria!” e “saneamento básico já!”. Os gritos proferidos ao longo do trajeto até chegar ao Igarapé do Gigante buscavam alertar a sociedade manauense a respeito da omissão dos poderes públicos no trato dos recursos hídricos, assim como incentivar a população a romper o analfabetismo ecológico, que vem impactando o meio ambiente e tornando mais incerta a vida das gerações presentes e futuras.

Ao chegar ao Igarapé do Gigante, os manifestantes plantaram mudas de diversas plantas nativas, indicando não somente a estreita relação entre as águas e as florestas, mas também mostrando a necessidade de se preservar a maior floresta tropical do planeta.  Este gesto quer introduzir a população numa dinâmica construtiva e colaborativa desconstruindo o paradigma produtivo predominante que insere a humanidade em um círculo vicioso de agressão, competitividade e colonialismo cujas vítimas são os mais vulneráveis da sociedade: os pobres, os indígenas, as mulheres, o povo negro e outras populações minoritárias.

Ao modo da totalidade dos igarapés de Manaus, o Gigante também é atingido mortalmente por esta lógica perversa, expondo as suas feridas para toda a cidade. Esgotos sem tratamento são lançados em vários pontos do seu leito pela concessionária privada Águas de Manaus, mostrando a iniquidade da política de saneamento e ao mesmo tempo a conivência dos poderes públicos com esta prática mordaz. A gestão privada do abastecimento de água e do esgotamento sanitário faz vítimas nas periferias e em inúmeras comunidades da cidade, oferecendo serviços precários e reforçando as privações das populações mais pobres.

Este dia mundial da água construiu um cenário onde se encontraram imagens marcantes de um povo caminhante, que diante de tanta violência brada aos céus por justiça socioambiental. Como as águas dos rios e igarapés, este povo caminha enfrentando contextos e situações adversas ao longo do seu percurso.


Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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