
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Manaus alaga porque foi construída contra a água, não com ela. A afirmação é dos arquitetos e urbanistas Emanuel Moraes e Melissa Toledo, que é vice-presidente do CAU-AM (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas), ao analisarem as alagações da última quarta-feira (25) causadas por chuva intensa. Para os profissionais, o problema não é conjuntural. É estrutural. E tende a piorar.
Manaus tem uma rede extensa de igarapés, todos inseridos em uma mesma bacia hidrográfica. Segundo Emanuel Moraes, em vez de integrar essa estrutura hídrica ao planejamento urbano, a gestão pública fez o oposto.
“Historicamente, desde a influência do urbanismo higienista, a cidade passou a tratar seus rios como um problema técnico, canalizando, retificando e ocupando seus leitos, como se fosse possível dissociar o ambiente urbano dos sistemas naturais”, afirma o arquiteto.
De acordo com Emanuel, ao impermeabilizar o solo e suprimir áreas de drenagem natural, a cidade não eliminou o problema apenas o deslocou. “O que acontece em uma área mais alta impacta diretamente as áreas mais baixas”, diz ele.
Melissa Toledo afirma que os igarapés de Manaus “vêm sendo progressivamente estreitados, seja pela ocupação irregular das margens por moradias ou pelo assoreamento”. Com menos espaço para a água passar, qualquer volume maior de chuva ultrapassa rapidamente a capacidade dos canais, provocando transbordamentos.
Para Emanuel Moraes, ao confinar a água em estruturas rígidas, a cidade reduziu sua capacidade de absorver picos de vazão. “Quando o limite é atingido, a água retoma seu caminho natural e as ruas voltam a funcionar como leito de escoamento”, afirma.
A prefeitura retira frequentemente toneladas lixo dos igarapés. Segundo os arquitetos, a medida é necessária, mas insuficiente. “A limpeza de lixo, embora necessária, atua apenas no sintoma”, diz Emanuel. De acordo com ele, a origem está nas áreas ocupadas sem infraestrutura, especialmente nas margens dos igarapés. “Trata-se menos de falha individual e mais de uma falha estrutural de urbanização”, afirma.

Conforme Melissa Toledo, “o lixo é apenas um dos fatores que reduz a capacidade dos igarapés de escoar a água da chuva. Um dos principais gargalos é estrutural, é o leito que estão reduzidos e, em muitos casos, alterados. Ou seja, mesmo limpo, eles já não têm capacidade suficiente de escoar grande volume de água”.
Para Melissa Toledo, alargar os igarapés é possível em teoria, mas complexo na prática. “Exige remoção de moradias construídas às margens, obras de requalificação urbana, investimentos altos, além de frequentemente estarmos permeando nas questões sociais mais delicadas, como o reassentamento de famílias”, pondera.
De acordo com os dois especialistas, a saída envolve mudança de paradigma. Segundo eles, cidades mais resilientes têm adotado estratégias que trabalham com a água: áreas de retenção, parques alagáveis, renaturalização de cursos d’água e recuperação de matas ciliares.
“Como é que eu posso criar mais parques, mais áreas verdes?”, indaga Melissa, que defende políticas públicas continuadas de drenagem urbana, gestão de resíduos e desocupação gradual e planejada das áreas de risco.
Para Emanuel Moraes, qualquer remoção precisa vir acompanhada de “políticas de reassentamento dignas, bem localizadas e integradas à cidade para evitar a reprodução do ciclo de ocupação precária.”
Conforme os dois especialistas, a cidade chegou a um ponto crítico. “A gente entrou no momento do colapso. Simples assim”, resume Melissa Toledo.
Segundo Emanuel Moraes, as enchentes não são um acidente. “São o resultado previsível de uma cidade que foi construída ignorando a lógica da água. Enquanto Manaus continuar sendo planejada de forma desconectada de sua bacia hidrográfica, seguirá convivendo com enchentes que, na prática, já eram previsíveis”.

