
EDITORIAL
MANAUS – Das diversas manifestações de autoridades do Amazonas contra o decreto do presidente Jair Bolsonaro (PL) que “fere de morte” a Zona Franca de Manaus, poucos foram os que sustentaram críticas ao chefe do Executivo federal. A maioria preferiu centrar fogo no auxiliar dele, o ministro da Economia, Paulo Guedes.
O senador Omar Aziz (PSD), os deputados federais Marcelo Ramos (PSD) e José Ricardo (PT) e o deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) foram vozes isoladas. O senador Eduardo Braga foi mais comedido e criticou “o governo do presidente Bolsonaro”.
Aziz fez a crítica mais contundente: disse que o presidente e seu ministro da Economia sempre falaram que iam proteger a Zona Franca. “Conversa, da boca pra fora”, disse. E completou: “Já não tem compromisso com a Amazônia, não tem compromisso com as florestas. A Zona Franca de Manaus era uma garantia da proteção das florestas. Hoje, o presidente Bolsonaro, junto com a equipe econômica do seu governo, inicia a derrocada, a morte da Zona Franca de Manaus”.
Omar Aziz afirmou que o povo amazonense e os que têm amor pelo Estado não podem permitir “que o presidente de plantão acabe com a Zona Franca, acabe com o seu emprego”.
Por fim, Aziz afirma que “já tentaram várias vezes acabar com a Zona Franca de Manaus e não conseguiram. Não vai ser você, presidente Bolsonaro, com sua equipe econômica incompetente, que não consegue resolver o problema do povo brasileiro, que vai acabar com os empregos e trazer fome, desespero e desesperança ao povo amazonense”.
Marcelo Ramos disse que o decreto é “um duro golpe” contra a Zona Franca de Manaus e prometeu ajuizar ação na Justiça Eleitoral para proibir a medida, que chamou de “populismo eleitoral” do presidente. O parlamentar também desafiou os colegas: “Vamos ver quem vai reagir e quem vai se abraçar com os agressores”.
José Ricardo chamou Bolsonaro de “inimigo número 1 do Amazonas” que quer acabar com os empregos e com a economia do Estado. E prometeu apresentar um projeto de decreto legislativo na Câmara dos Deputados para barrar o decreto que reduziu o IPI.
Serafim Corrêa foi mais incisivo e considerou o decreto “uma canalhice” do presidente e do ministro Paulo Guedes. “Uma facada nas costas” da indústria do Amazonas e “fere de morte” o modelo também foram frases ditas pelo deputado do PSB.
O senador Eduardo Braga gravou um vídeo do meio do Rio Negro sobre o tema. Afirma que a partir do decreto “o governo do presidente Bolsonaro assume uma posição contra a Zona Franca e contra os trabalhadores do Amazonas”.
Braga também disse que “já enfrentamos adversários como esse e sobrevivemos. E, se Deus quiser, vamos sobreviver novamente. Todos temos que ficar unidos e alertas a esse ataque praticamente mortal aos trabalhadores e às empresas da Zona Franca de Manaus”.
Outros não tiveram a mesma coragem. Entusiasta da onda que elegeu Bolsonaro em 2018, o presidente do Cieam (Centro da Indústria do Amazonas), Wilson Périco, preferiu não bater de frente com presidente da República, que assinou o decreto. Preferiu apontar a artilharia contra Paulo Guedes.
Périco disse que Guedes passou por cima da Constituição federal e “mais uma vez desrespeitou o modelo Zona Franca de Manaus, mais uma vez não honrou o compromisso assumido na reunião da coalizão empresarial”.
O senador Plínio Valério (PSDB) também simpático ao governo Bolsonaro, usou uma frase hilária: “O governo federal está sendo ruim com a gente”. Assim mesmo. O senador não cita o presidente, mas um termo genérico: o governo federal.
O deputado estadual Wilker Barreto (Podemos) disse que o decreto é “a maior irresponsabilidade que já se praticou contra a Zona Franca de Manaus”, mas culpou apenas Paulo Guedes. “Presidente, não escute esse lunático do Paulo Guedes e revogue essa atrocidade”, disse Barreto.
O governador Wilson Lima usou a diplomacia, disse que o decreto “causa grande preocupação” por alcançar os produtos da Zona Franca de Manaus, e anunciou que já marcou uma reunião com o ministro Paulo Guedes para discutir o assunto, junto com parlamentares do Amazonas e representantes da indústria local.
O prefeito David Almeida mostrou indignação com o decreto, mas não chegou a fazer crítica direta ao presidente da República. Em nota de repúdio, Almeida diz que “o decreto do ministro Paulo Guedes é um punhal nas costas dos amazonenses.”
O AMAZONAS ATUAL tem se manifestado neste espaço desde 2019, quando os primeiros ataques do governo Bolsonaro atingiram a Zona Franca de Manaus. Desde então, chama a atenção para o fato de que nem Bolsonaro nem Paulo Guedes são confiáveis. E que o Amazonas precisava adotar posição mais firme para proteger o modelo incentivado da indústria instalada em Manaus.
A cada ataque, tanto Bolsonaro quanto Paulo Guedes fizeram mea-culpa, prometeram que a Zona Franca não seria prejudicada, mas sempre estiveram com o punhal escorado nas costas do modelo. Como bem lembra Aziz, sempre foi apenas “conversa, da boca pra fora”. Conversa pra boi dormir.
O desafio lançado por Marcelo Ramos deve ser o desafio de todos os que defendem a Zona Franca de Manaus: “Quem vai reagir e quem vai se abraçar com os agressores”. Eles nunca esconderam a vontade de dizimar a Zona Franca de Manaus.
Bolsonaro não assinou o decreto de redução do IPI sem conhecê-lo. Inúmeras vezes o presidente desautorizou Paulo Guedes e deixou de seguir sua orientação. Neste caso, há uma ação deliberada de populismo que prejudica não apenas a Zona Franca de Manaus, mas toda a economia de Estados e Municípios brasileiros.
Mas o presidente precisa mostrar serviço para tentar a reeleição, nem que para isso um Estado e seu povo precise pagar um alto preço.

