
MANAUS – Há um enorme desconhecimento sobre a Amazônia, o que gera uma grande oportunidade para o país, ao mesmo tempo em que provoca uma série de pensamentos e afirmações equivocadas sobre a região. Uma das mais difíceis de combater é que temos um problema de distância entre a Amazônia o Brasil. Este problema inexiste em um mundo globalizado e conectado. Não estamos distantes dos centros produtores e consumidores do Brasil, afinal a distância é um problema insolúvel. Em uma Aldeia Global, longe é o Japão ou a China, mas é normal compramos produtos da China e os Sudestinos acham o Amazonas ou o Amapá distantes.
De fato, o problema que temos é uma gritante falta de infraestrutura de transportes para conectar a Amazônia com o Brasil. Há ainda uma questão que é a ausência de condições competitivas para conectar o interior profundo da Amazônia com as várias capitais. É aqui que reside o problema.
Enquanto não for feito um esforço do Estado brasileiro para romper esta deficiência histórica, seguiremos isolados e com a nossa soberania em cheque, somado com uma enorme perda de oportunidades. A redução das assimetrias de desenvolvimento só será possível com a construção de infraestruturas de transportes e de energia.
Entretanto, em todo o movimento que leva a uma redução da assimetria social ou regional, vemos no Brasil uma oposição sistemática. Há um claro medo da potência da Amazônia. Cada obra, cada política pública sempre encontra uma fortíssima oposição.
Há um medo generalizado da Amazônia, ao mesmo tempo em que há um desejo de subjugação econômica, ambiental e social. É como se quiséssemos uma eterna visão de região pacta, ribeirinha, isolada e sem impactos econômicos substantivos, enquanto o desejo capitalista poderia (e deveria) ser exatamente o oposto. Mas as raízes culturais imperiais não aceitam e não toleram uma Amazônia forte.
Por exemplo, a Fesp ingressou na justiça federal contra a reforma tributária, justamente por existir um risco da Zona Franca de Manaus e a sua indústria crescerem. Ou seja, há um temor da poderosa indústria de São Paulo que a política pública da Zona Franca de Manaus faça o que se espera: reduzir a desigualdade regional. Em paralelo, finalmente, a rodovia BR-319 terá seu trecho do meio asfaltado, junto com um conjunto amplo de condicionantes ambientais que precisam e devem ser feitos.
Neste momento único de repensar este pedaço da Amazônia Ocidental, quando deveria haver uma celebração da indústria nacional, um representante empresarial do Estado mais rico do país se opõe a um potencial funcionamento da política de redução da desigualdade.
A história se repete em muitas dimensões no país. Quando se discute a política de quotas para universidades públicas, onde, por exemplo, os quotistas possuem taxa de conclusão 10 pontos percentuais superior do que os demais estudantes, conforme o Censo da Educação Superior.
A oposição entre classes sociais no Brasil é um fenômeno interessante. Ela se espalha em várias dimensões, seja entre regiões, entre remunerações, entre indústrias ou infraestruturas. Precisamos trazer a reflexão social e antropológica para a redução das desigualdades, pois fora disso nunca teremos um país moderno, desenvolvido e menos desigual.
Seguiremos a transferir recursos para as regiões e extratos sociais mais ricos. Como dado final, do IBGE, o Amazonas, industrial, tem 18,2% de seu PIB como impostos, enquanto a média nacional é de 15,5%. Faz sentido?
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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