
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS – “Dê seu voto apenas a candidatos com ‘ficha limpa’, dignos de confiança, capazes de governar com prudência e equidade e de fazer leis boas e justas para o convívio social”, orienta a Arquidiocese de Manaus em cartilha sobre as eleições gerais destinada aos católicos. “Voto consciente não é troca de favores, mas uma escolha livre” e “voto não é mercadoria”, afirma a Igreja ao alertar sobre corrupção eleitoral.
A cartilha foi lançada nesta quarta-feira (10) como uma orientação aos católicos sobre o voto consciente e sobre como aprender a discernir informações verdadeiras e discursos honestos da desinformação e falsas promessas.
“Hoje nós temos um novo risco, que são processos de narrativas que criam ideologias tão superficiais que, de certo modo, compram o nosso voto, compram a consciência dos eleitores. Então, a necessidade do discernimento é o principal elemento que perpassa esse pequeno subsídio de orientações, especificamente quanto ao gesto de votar”, afirmou o bispo-auxiliar de Manaus Zenildo Lima da Silva.
Segundo ele, o principal objetivo da cartilha é estimular a reflexão crítica dos eleitores em um contexto marcado pela ampla circulação de informações e pela influência de diferentes correntes ideológicas no debate público. O material foi elaborado em formato de celebração religiosa.
“Procure conhecer os candidatos, sua história pessoal, suas ideias e as propostas defendidas por eles e os partidos aos quais estão filiados. Vote em candidatos que representem e defendem, depois de eleitos, as convicções que você também defende”, orienta a Igreja.
Para Dom Zenildo, a sociedade vive um momento de transformações políticas e sociais que exigem participação responsável dos cidadãos. Para ele, o voto continua sendo uma das principais formas de participação popular na vida pública e deve ser exercido de forma consciente.
Segundo o religioso, a proposta da Arquidiocese é contribuir para que os eleitores analisem propostas, discursos e candidatos de maneira mais crítica, evitando decisões motivadas apenas por impulsos momentâneos ou por informações superficiais.
Dom Zenildo enfatiza que o voto é uma das mais importantes formas de participação democrática e que a escolha dos representantes deve resultar de reflexão e responsabilidade. “Então, de novo, nós somos convidados a esse processo de participação como um processo consciente, como um processo fruto de um discernimento, mas para nós, cristãos, como um processo também da nossa experiência de fé”, afirmou.
Voto, cidadania e fiscalização
Segundo Josiel Coelho, presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil, a cartilha foi elaborada para aproximar a reflexão religiosa da realidade social e política e incentivar a participação cidadã durante e após as eleições. O material será distribuído nas paróquias, comunidades e pastorais da Arquidiocese de Manaus.
“A finalidade desta cartilha é mudar o modo de ver a política, transformando-a em discernimento ético, compromisso civil e engajamento social ativo”, afirmou Josiel.
O conteúdo inclui debates entre padres e bispos e aborda a relação entre fé e participação política, a diferença entre política e práticas clientelistas, a importância do voto consciente e o papel dos cidadãos na fiscalização dos representantes eleitos. Um dos capítulos tem como tema “Voto não tem preço, tem consequência” e discute a venda de votos, a disseminação de desinformação e a responsabilidade dos eleitores durante o processo eleitoral.

A cartilha também propõe reflexões sobre ética na vida pública e no cotidiano dos cidadãos, além de incentivar o acompanhamento das ações dos agentes públicos após as eleições.
Valorização da política
Conforme o bispo-auxiliar Zenildo Lima da Silva, com a cartilha, a Igreja busca recuperar a confiança da população na política. Segundo ele, sucessivas frustrações e a associação da atividade política apenas à disputa por cargos e mandatos contribuíram para um cenário de descrença que tem afastado parte da sociedade dos debates públicos.
“No Brasil se inaugurou um movimento nacional para encantar a política, dada a necessidade de nos reencantarmos com a política. O desgaste nos processos políticos por causa da concentração no exercício de mandatos e as frequentes decepções geraram um cenário nacional de desencanto”, disse.
De acordo com Zenildo, a política deve ser compreendida como uma ferramenta de construção coletiva e promoção do bem comum. Ele afirmou que é necessário fortalecer o papel da atividade política como espaço de diálogo e de busca por soluções para os problemas da sociedade. “É preciso resgatar a força da política dentro dos cenários nacionais e internacionais como construção do bem comum”.
Ainda segundo o religioso, a reflexão sobre a política não deve ficar restrita a disputas ideológicas ou partidárias. Ao citar ensinamentos recentes da Igreja Católica, ele defendeu uma atuação política voltada para a promoção da dignidade humana e para a construção de relações sociais mais solidárias.

Igreja no debate público
Dom Zenildo também explicou que a Igreja Católica considera legítimo abordar temas relacionados à política e à participação cidadã. Segundo ele, a iniciativa está fundamentada na doutrina social da Igreja e na compreensão de que os valores do Evangelho podem contribuir para a reflexão sobre questões presentes na sociedade.
“O Evangelho ilumina as realidades e ilumina as coisas novas de cada tempo. Por isso mesmo, a política, que sempre se apresenta como a possibilidade de novas experiências de convívio social, pode ser iluminada a partir das convicções que brotam do Evangelho”, afirmou.
Ainda de acordo com ele, a manifestação da Igreja sobre temas sociais e políticos não representa uma descaracterização de sua missão religiosa, mas a contribuição da instituição ocorre a partir de princípios éticos e de valores que orientam a convivência em sociedade.
Combate à corrupção
O arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, disse que a Arquidiocese também atua no enfrentamento de práticas ilegais durante o período eleitoral por meio da participação no Comitê de Combate à Corrupção e à Compra de Votos. Segundo ele, a iniciativa busca orientar os eleitores e contribuir para a realização de eleições mais transparentes.
“O cenário brasileiro da política nacional, regional e local, apesar da crise ética e política que nós estamos vivendo há bastante tempo, exige que a Igreja e a sociedade mantenham a esperança e busquem se reencantar pela política, acreditando que ela é um meio de promover o bem comum”, afirmou.
De acordo com o arcebispo, a compra de votos e outros crimes eleitorais continuam sendo desafios para a democracia brasileira. Ele destacou que denúncias relacionadas a essas práticas já foram encaminhadas pelo comitê e defendeu que a população permaneça atenta durante o processo eleitoral.
“Existem, de fato, corrupção muito grande, constatada e divulgada nos meios de comunicação, assim como a compra de votos. Tudo isso é crime. E, se a gente souber desses fatos, eles serão denunciados. O comitê já fez muitas denúncias com relação a isso, porque isso não é honesto”, disse.
Segundo Dom Leonardo, além de rejeitar práticas ilegais, os eleitores devem avaliar a postura e o compromisso dos candidatos com o interesse público. Para ele, a escolha dos representantes exige atenção à trajetória, à ética e à capacidade de trabalhar em benefício da população.
“A posição da Igreja, da Arquidiocese e também do comitê é orientar a população para que vote com verdade, com justiça, mas, sobretudo, com discernimento. […] Alguém que tenha essa inspiração do bem comum, tenha postura ética, preste conta do seu mandato e realmente trabalhe”, afirmou.
O arcebispo também relacionou o voto ao fortalecimento da democracia. Segundo ele, a participação dos cidadãos nas eleições é uma das principais formas de defesa das instituições democráticas e deve ser exercida com responsabilidade.
“O voto é uma expressão da democracia. É uma participação nossa na democracia e defesa da democracia. Por isso, em quem votamos é muito importante. Precisamos estar atentos à pessoa a quem damos o nosso voto, se ela realmente trabalha para o bem comum e se está disposta a defender a democracia”, declarou.
