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Augusto Barreto Rocha

Utopias e distopias em tempos de pandemias

27 de abril de 2020 Augusto Barreto Rocha
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Alguns dizem que todas as empresas poderão ficar incólumes e paradas, esperando o sistema de saúde ficar estável. Outros dizem que estas empresas devem se endividar para suportar esta fase a um módico custo de 1,51% ao mês. Há aqueles que dizem que se colocar desinfetante no sangue você ficará curado da contaminação do vírus. Há outros que afirmam que desligaram a energia (solar, implantada em 2002) de uma piscina específica e economizaram.

Utopia está associada a uma fantasia, um sonho de lugar inexistente e perfeito. Distopia é o seu oposto. O parágrafo acima está com utopias ou com distopias? Depende. No nosso Contrato Social contemporâneo estamos um pouco perdidos entre o que são utopias ou distopias. Liberdade versus autoritarismo, igualdades versus desigualdades, fraternidades versus maldades. Problema em escala e problema pequeno. Para uns, é sensato o servidor público ter seu salário reduzido, para estes mesmos não é adequado ter seu próprio salário reduzido. Rompem-se as leis e os contratos a todo instante. Criam-se leis, cancelam-se leis, cancelam-se convenções.

Enquanto isso, no mundo real dos Contratos Sociais rompidos, o sistema de saúde não assegura a saúde, o emissor de moeda não assegura as pessoas em casa e as empresas são jogadas ao vento das lojas fechadas. São poucos os dados em tempo real do Brasil Arrecadador, mesmo com um enorme sistema emissor de notas fiscais eletrônicas, que somente serve para garfar o contribuinte e que de pouco ou nada serve para devolver parâmetros de decisão da boa gestão pública.

Estudo da Abrasel-SP estima que 40% dos restaurantes de SP fecharão após a pandemia. Onde está o Contrato Social? Mas a distopia diz: por que estes empresários não tinham reservas financeiras? Nos EUA, grandes varejistas, como J.C. Penny, Gap ou Macy’s estão enfrentando claramente o risco de falência. A Neiman Marcus já planeja fazê-lo nos próximos dias, com seus US$ 4.7 bilhões de débitos.

É legítima a preocupação com os que estão à margem dos sistemas de controle de CPF e afins, mas também seria legítimo socorrer aqueles que geraram impostos em grande quantidade ao longo de anos, mas que de uma hora para outra tiveram que fechar pelo bem comum. Estes aí têm apenas o Governo-Agiota para apoiá-los. Aliás, será que o apoio ao outro grupo foi apoio real ou imaginário? Três meses de apoio parcial não sanará o problema do quarto mês, quando não haverá empregos nos 40% dos restaurantes ou 50% dos hotéis. São jogos midiáticos ou ajudas reais?

A CEF – banco público – está oferecendo capital de giro a 1,51% ao mês. Ao final de um ano será 19,7%. O governo capta pela Selic a 3,75% e usa seu banco para “ajudar” o empresário a 19,7%. Cobra 425,33% a mais do que paga. Eu não consigo perceber um nome diferente de Governo-Agiota (melhor que Estado-Agiota), por mais esforço que eu faça, falta-me capacidade para perceber isso como uma ajuda real, salvo para negócios com altíssima margem de lucro.

É inacreditável a capacidade que temos de piorar situações em si difíceis. Ao final desta pandemia seremos pessoas melhores ou piores? Estaremos vivos ou mortos? Não tenho a menor ideia, mas acredito que mais uma vez temos uma oportunidade para emergirmos uma sociedade melhor, mas a cada dia fica mais difícil de acreditar. A quem interessa tudo isso?


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Augusto Barreto Rocha, distopias, Utopias
Cleber Oliveira 27 de abril de 2020
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