Acordou cedinho e viu em câmara lenta o filme na memória com muita nitidez, enquanto fazia a barba. As cenas deslizavam da Candelária, no Rio de Janeiro, à Praça do Congresso, em Manaus. Como pano de fundo, a maior manifestação popular da história do Brasil. A população, nas ruas e praças do país, exigia o direito de eleger seu governante máximo pelo voto direto. Vivia-se a campanha das “diretas já”, após a longa noite que sepultou a democracia e as liberdades públicas, sob os coturnos do golpe militar de abril de 1964.
Empunhava a bandeira nacional, ao caminhar da Rio Branco no sentido da Presidente Vargas, com o peito estufado de patriotismo. Subindo a Eduardo Ribeiro, em momento épico para a nacionalidade, voltou a acreditar no retorno do Brasil à normalidade democrática.
À frente do bom combate, Ulysses, Brizola, Tancredo, Montoro, Covas, Fernando Henrique, Lula, Theotônio, o Menestrel das Alagoas, já vitimado pela doença insidiosa, mas intimorato na luta em defesa do mais nobre dos direitos civis. Em cada esquina, cantava-se o Hino Nacional. E, de repente, como num passe de mágica, o Brasil levantava-se coberto pelas cores da Pátria, em lágrimas que alimentavam a certeza do reencontro do Estado com a Nação. Mas sobreveio a derrota, com a rejeição da Emenda Dante de Oliveira, em votação acompanhada com radinho de pilha na Cinelândia.
Sem alternativa, a oposição ao regime militar vai ao Colégio Eleitoral e elege Tancredo Neves, morto antes da posse. Tem-se então a tragédia José Sarney, mais do que um oposicionista circunstancial, um arrivista notório, oriundo do ventre da ditadura. Na primeira eleição direta, a população dá com os burros n’água, com o impeachment de Collor. Vem Itamar Franco, o nosso Forrest Gump. Comporta-se com honra e avaliza a edição do Plano Real, no qual Fernando Henrique Cardoso ancoraria sua eleição.
Experimenta-se com Cardoso um período de modernização da economia, que desaguaria na primeira gestão do metalúrgico Lula da Silva, feito presidente sob o bordão da esperança sobre o medo. Puro engano, numa sucessão de equívocos, com programas assistencialistas e fisiológicos, tendentes a frustrar as conquistas do Plano Real, reelege-se e elege Dilma Rousseff, com o governo tomado por denúncias de corrupção que estouram na administração petista. Aparelha-se o Estado à exaustão e agride-se a instituição do parlamento com o Mensalão, num processo de perpetuação no poder, fundado em métodos stalinistas.
E a película em preto e branco segue passando no espelho à sua frente. No centro de todas as ações, a classe política, subdesenvolvida, incapaz de compreender a excelência do regime democrático. Ao invés de sublimá-lo, subverte-o, num jogo sem fim de interesses inconfessáveis e criminosos, na pior versão do é dando que se recebe, até transformá-lo num verdadeiro balcão de negócios, que terminará levando o próprio sistema à falência.
No curso e no embate das eleições mais importantes do país, o faroeste da política sórdida, com o governo descendo às últimas consequência, onde vale-tudo, menos a derrota. Muda-se o ministério e retornam os faxinados de ontem. Às favas os escrúpulos, como se dizia no auge da ditadura. Para tanto, que sejam defenestrados ministros com alguma seriedade e competência, ‘avis rara’ hoje na Esplanada em Brasília.
Alianças espúrias são celebradas sem nenhum pudor, fora e no seio do Congresso, onde Lula em passado recente identificava a presença de 300 picaretas. Maluf, símbolo máximo da corrupção, divide o brilho da estrela petista, enquanto outros da mesma linhagem emprestam apoio ao projeto de poder. A mixórdia é geral, com todas as letras e tintas, como se mostra diante do eleitor consciente e inquieto, a três passos de exercer o direito de sufrágio.
Ao escanhoar a face em seus movimentos finais, ainda admite acompanhar o programa eleitoral na Tv. Mas logo afasta a hipótese, certo de que não valerá à pena. Não há razões mínimas que possam levá-lo a uma opção eleitoral segura e da qual não venha a se arrepender.
Com a toalha recolhe os últimos vestígios de espuma e seca o rosto. Lembra do pai, que vestia o terno de linho HJ e calçava o sapato bicolor, marrom e preto, no dia mais importante na vida do eleitor. E será assim que caminhará para as urnas. Lá, em homenagem aos meninos de junho de 2013, com suas passeatas inesquecíveis, ao seu passado e ao seu presente, anulará o voto, em sintonia com a indignação já registrada pelas pesquisas de forma assustadora. Ouvirá o tilintar da maquinazinha eletrônica e sairá da cabine de peito lavado.
