Tribunal na Austrália reverte condenação de ex-arcebispo por acobertar abuso

 

No julgamento, Philip Wilson disse não ser capaz de se lembrar das acusações que chegaram ao seu conhecimento em 1976 -ele foi diagnosticado com Mal de Alzheimer (Foto: Reprodução/YouTube)

Da Folhapress

SÃO PAULO – Um tribunal da Austrália reverteu, nesta quinta-feira, 6, a condenação em primeira instância de um ex-arcebispo acusado de acobertar abusos sexuais, afirmando que os procuradores não conseguiram provar seu caso.  Philip Wilson, ex-arcebispo de Adelaide, era a mais alta autoridade da Igreja já condenada por envolvimento no acobertamento de abusos.

A condenação de maio, porém, foi revertida pelo juiz Roy Ellis, do Tribunal do Distrito de Newcastle, que aceitou um recurso da defesa. “A condenação e as ordens do tribunal local foram rejeitadas”, disse um comunicado do tribunal enviado à agência de notícias Reuters.

O crime cometido por Philip Wilson, 68, tem pena de até dois anos de prisão, mas no primeiro julgamento ele foi condenado a um ano de prisão domiciliar na casa de sua irmã, da qual cumpriu quatro meses. Mas com a nova decisão de Ellis não precisará cumprir o restante da pena.

O juiz argumentou que os procuradores não foram capazes de provar sem deixar dúvidas que Wilson foi informado das acusações e que, se soube, ficou suficientemente convencido da culpa e se omitiu.  Wilson era acusado de omitir os crimes do padre James Fletcher, que abusou de coroinhas nos anos 1970 em uma paróquia no Hunter Valley, a norte de Sydney.

Fletcher foi condenado em 2004 a oito anos de prisão por nove casos de abuso sexual, mas sofreu um infarto e morreu em 2006. Duas vítimas afirmam que contaram o crime a Wilson, que era padre assistente na paróquia, mas ele as repreendeu e não denunciou o caso para a polícia.

No julgamento, Wilson disse não ser capaz de se lembrar das acusações que chegaram ao seu conhecimento em 1976 -ele foi diagnosticado com Mal de Alzheimer.

Um dos coroinhas que denunciou os abusos para Wilson, Peter Creighton, compareceu ao tribunal e chorou quando a decisão foi anunciada. Ele não quis falar com a imprensa.

Já a arquidiocese de Adelaide elogiou a conclusão do processo, que classificou como longo e doloroso para os envolvidos. “Agora precisamos considerar as ramificações desse resultado”, disse seu delegado administrativo, padre Philip Marshall, em um comunicado.

“Os sobreviventes de abuso sexual infantil e suas famílias estão em nossos pensamentos e orações, e a arquidiocese continua comprometida em fornecer os ambientes mais seguros possíveis para crianças e pessoas vulneráveis sob nossos cuidados”, acrescentou.

Ele não deu detalhes, porém, do que acontecerá com Wilson. Durante o julgamento em maio, ele pediu afastamento do comando da arquidiocese de Adelaide e da presidência da Confederação dos Bispos Católicos Australianos (equivalente a CNBB).

Após a condenação, renunciou aos dois cargos. O gesto foi aceito pelo papa Francisco, que fez do combate ao abuso sexual por padres uma de suas prioridades. Além do caso de Wilson, também está sendo julgado atualmente na Austrália o cardeal George Pell, acusado de abusos de menores.

O religioso, que pediu licença de seu cargo como número três do Vaticano, era inicialmente suspeito de ter acobertado os casos, mas durante a investigação surgiram diversas denúncias de que ele teria abusado das crianças. Ainda não há uma data para a conclusão de seu julgamento.

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