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Dia a Dia

Thiago de Mello usou poesia como ideal romântico e instrumento de luta

14 de janeiro de 2022 Dia a Dia
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thiago de mello
Thiago de Mello faleceu na madrugada desta sexta-feira (14), em casa, em Manaus (Foto: Divulgação/Manauscult)
Por Claudio Leal, da Folhapress

SÃO PAULO – O poeta amazonense Thiago de Mello morreu dormindo, aos 95 anos, em Manaus. Nas últimas sete décadas, ele cumpriu o ideal romântico de viver como poeta, no equilíbrio de amores exacerbados, fidelidade à vocação de escritor, amizades intensas e espírito de viajante.

Desde seu exílio político, nos anos 1960, era um dos nomes mais conhecidos da literatura brasileira na América Latina, estreitando amizade com grandes escritores de seu tempo, de Pablo Neruda a Julio Cortázar, de Jorge Luis Borges a Nicanor Parra, de Alejo Carpentier a Gabriel García Márquez, que o chamou de “guru grande”.

“Silêncio e Palavra”, de 1951, e “Narciso Cego”, de 1952, marcaram sua entrada no mundo literário e firmaram sua voz poética afinada com a vertente lírica e discursiva. “Poetas principais de nossa literatura moderna, estou tentado a pedir um lugar, ao vosso lado, para o poeta de ‘Silêncio e Palavra’. Com 26 anos e um só livro publicado, o senhor Thiago de Mello bem demonstra, todavia, que já se acha em condições de se situar na primeira linha da nossa poesia contemporânea”, saudou, à época, o crítico Álvaro Lins.

Em sua poesia de juventude, sem se aferrar ao receituário da Geração de 45, esteve próximo de especulações metafísicas. “Cego assim, não me decifro./ E o imaginar-me sonhado/ não me completa: a ganância/ de ser-me inteiro prossegue”. “A Lenda da Rosa”, de 1956, lançado pela prestigiosa coleção Rubaiyat, da editora José Olympio, talvez seja o seu mais virtuoso e esquecido livro.

Poeta e diplomata, Thiago de Mello esteve à frente das edições Hipocampo, criada com seu amigo Geir Campos, nos anos 1950. Em dois anos, lançou obras de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos e Guimarães Rosa.

Na década de 1960, ao servir como adido cultural em Santiago, virou uma personalidade do mundo literário chileno, muito presente no círculo de Pablo Neruda, seu amigo íntimo. Neruda não só virou seu tradutor, mas entregou a ele as chaves de sua residência na capital, a mítica La Chascona.

Nela, Mello acolheu exilados brasileiros e ofereceu memoráveis saraus poéticos. Seus contemporâneos nunca se esqueceriam do festival de pipas que promoveu com centenas de crianças de Santiago. “Thiago, a Santiago, como un vago mago,/ has encantado en canto y poesía./ Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,/ un volantin de tu pajarería”, celebrou Neruda.

Em 31 de março de 1964, na presença de Neruda e Salvador Allende, ele acompanhou pelo rádio as notícias do golpe militar no Brasil. “É o primeiro de uma sucessão de outros golpes na América Latina”, vaticinou Allende no desfecho da deposição de João Goulart.

Depois de ver as fotos da perseguição aos militantes comunistas Astrojildo Pereira e Gregório Bezerra, Thiago de Mello escreveu seu poema mais conhecido, “Os Estatutos do Homem”, traduzido para mais de 30 línguas – no espanhol, seu tradutor é Neruda – e incluído no livro “Faz Escuro Mas Eu Canto”, de 1965.

“Fica permitido a qualquer pessoa,/ a qualquer hora da vida,/ o uso do traje branco”, diz um dos versos. Ele incorporaria essas palavras à sua indumentária cotidiana, revezando guayaberas brancas presenteadas por Fidel Castro e Pablo Milanés.

A poesia engajada ampliou o alcance internacional de sua obra, mas também obscureceu livros que não se encaixam nesse rótulo, a exemplo de sua última reunião de poemas, “Acerto de Contas”, lançado pela editora Global em 2016, um retorno a preocupações filosóficas de sua juventude, sob influência das leituras de Martin Heidegger, Friedrich Hölderlin e Jorge Luis Borges. Ele atribuía ainda grande importância ao seu trabalho de tradutor de poesia latino-americana, que resultou na vasta antologia “Poetas da América de Canto Castelhano”, de 2014.

Em 1965, de volta ao Rio de Janeiro, o poeta foi um dos organizadores do protesto de nove artistas e intelectuais contra a ditadura, em frente ao hotel Glória, durante a conferência da Organização dos Estados Americanos.

Como não foi detido no ato, decidiu se entregar voluntariamente ao Exército, em solidariedade aos amigos Antonio Callado, Marcio Moreira Alves, Carlos Heitor Cony, Glauber Rocha, Márcio Carneiro, Joaquim Pedro de Andrade, Jayme de Azevedo Rodrigues e Flávio Rangel. No quartel, com ímpeto de caboclo, gritou para os soldados “sou índio, preciso tomar banho de rio”.

Para não servir à ditadura, Thiago de Mello renunciou à vida diplomática e chegou a fazer treinamento de guerrilha rural em Cuba, num tempo em que, em contato com Leonel Brizola, pretendia se incorporar ao grupo guerrilheiro de Caparaó. Com a vitória de Allende no Chile, foi convidado a dirigir a comunicação do programa de reforma agrária. Mas o sonho socialista ruiu em 1973, no golpe militar de Augusto Pinochet, e ele precisou fugir às pressas do país. No novo ciclo do exílio, percorreu países como França, Alemanha, Espanha e Portugal.

No retorno do exílio, em 1977, Mello anunciou, em entrevista, que decidira morar na Amazônia, para servir à causa ecológica. Em prosa e verso, passou a iluminar questões ambientais e indígenas, lançando “Mormaço na Floresta”, em 1986, e “Amazonas, Pátria da Água”, em 1991.

Ele habitava a sua linguagem. Seu fascínio pessoal envolvia os dotes de memória, o cotidiano encharcado de poesia, a queda por canções populares, a delicadeza de suas indignações morais, o charme de conquistador, os ares de xamã amazônico e a conversa que conferia vida a seus amigos mortos.

Sua definição do tempo passava pela lembrança de um encontro com o líder cubano Fidel Castro, outro de seus influentes amigos. Numa noite, o comandante explicou a ele a definição de eternidade de um professor jesuíta. De cem em cem anos, um pássaro pousava numa pedra imensa e bicava três vezes. “Quando a rocha estiver totalmente desgastada, terá passado um dia da eternidade”, concluiu Fidel.

Thiago de Mello deixa uma viúva, a poeta Pollyanna Furtado, e três filhos. Nas últimas duas décadas, ele se dividia entre seu apartamento em Manaus e uma casa na Freguesia do Andirá, em Barreirinha, no Amazonas, sua cidade natal. Seus movimentos estavam prejudicados pelo avanço da neuropatia. Lentamente, ele perdia o prodígio da memória.

Entre seus conselhos, estava o de deixar sempre uma barra de chocolate embaixo do travesseiro. “É bom comer quando a gente acorda, de repente, na madrugada”.

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Cleber Oliveira 14 de janeiro de 2022
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