
Por Soraia Joffely, do ATUAL
MANAUS – O historiador Otoni Moreira de Mesquita explicou ao ATUAL que usou caulim [argila natural de coloração branca] para realçar as gravuras pré-históricas encontradas no sítio arqueológico Ponta das Lajes, na orla de Manaus.
A ação ocorreu na última terça-feira (24) e a publicação de fotos da intervenção nas redes sociais gerou reação contrária. A maioria das manifestações alertava que os vestígios arqueológicos estavam sendo ‘vandalizados’. As imagens foram compartilhadas pelo historiador e pela fotógrafa Gisella Braga. É possível ver uma das gravuras coberta com substância branca e um pincel nas arestas.
Otoni disse que é formado em Gravura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o objetivo da visita ao local era para evidenciar os petróglifos, uma vez que as gravuras foram sobrepostas em pedras escuras.
“O que eu apliquei foi uma metodologia de registro que se fazem em sítios rupestres. Quando você tem o desenho mais escuro, se coloca caulim para ressaltar o contraste e o desenho aparecer. Então utilizei caulim que é um pigmento, argila da beira do rio que se dissolve com água, e eu inseri esse material nas incisões do desenho que contorna o rosto. Fotografei, as pessoas fotografaram, e apaguei imediatamente, não durou 10 minutos”, afirmou o historiador.
Com base nas imagens nas redes sociais, houve denúncia ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
“A fotográfa filmou o momento em que eu retirei a argila, mas não sei se ela postou. O que ficou acordado entre nós é que não haveria uma publicação disso, porque isso podia gerar não só críticas, que não foi esse o nosso principal problema inicialmente, mas que talvez outras pessoas quisessem ir lá e fazer a técnica com tintas que poderiam colocar em risco aquela referência histórica da nossa ancestralidade”, disse Otoni.
Perguntado se teria ciência da preservação e proteção dos elementos históricos, Otoni Mesquita afirmou que a técnica usada é comum nos sítios arqueológicos.
“O procedimento que eu fiz é uma técnica que nos sítios arqueológicos as pessoas fazem para registrar os desenhos. Lógico, eu fui ousado porque não sou arqueológo, mas usei um material que não é abrasivo, que não agride, não tem nenhuma química. É o mesmo material que está ali na beira do rio”, completou.
Iberê Fernando Oliveira Martins, arqueológo e coordenador do Núcleo de Arqueologia do Museu da Amazônia, explicou ao ATUAL que visitou o local no último sábado (21) que os objetos, mesmo não sendo móveis porque estão na rocha, são extremamente frágeis.
“Caso você venha visitar a região não pegue nenhuma cerâmica, nenhum material que você possa encontrar, porque os materiais arqueológicos perdem a informação a partir do momento em que a gente recolhe ou modifica esse material. E daqui, você pode levar lembranças e foto. Há muita gravura, coisa bonita para ver, mas tem que preservar e tomar cuidado”, ressaltou.
A Lei 3924/1961 de proteção ao patrimônio arqueológico estabelece em sua norma que é terminantemente proibido alterar à composição dos sítios arqueológicos por quaisquer meios.
Em nota divulgada na quarta-feira (25), o Iphan informou que monitorará o sítio arqueológico Ponta das Lajes para impedir qualquer dano as gravuras e acervos arqueológicos. A Polícia Federal, o Batalhão Ambiental da PM e a Secretaria Municipal de Segurança Pública farão patrulhas no local.
O instituto afirmou que o lugar pertence à União e é considerado patrimônio cultural brasileiro, por isso é necessário preservá-lo.
O Insituto Soka Amazônia, organização não-governamental responsável pela gestão do parque, também ressaltou que trabalhará junto ao Iphan para garantir a proteção do lugar.
“Apoiamos as medidas cabíveis que as autoridades venham a fazer para a proteção a este sítio que é vizinho a nossa reserva. Por isso, estamos apoiando o Iphan e realizando atividades conjuntas com enfoque na educacão patrimonial e ambiental”, disse.
O sítio arqueológico Ponta das Lajes é visível em épocas de seca do Rio Negro no Amazonas. Localizado na Colônia Antônio Aleixo, zona leste de Manaus, as gravuras milenares surgem nos paredões de pedra que formam o sítio arqueológico.
Otoni publicou nota de esclarecimento. Confira na íntegra.




