
Do ATUAL
MANAUS – A repavimentação de trecho da BR-319 (Manaus-Porto Velho/RO) pode gerar enchentes e inundações na região, além de serem complexas e custosas ao poder público, afirma o geólogo e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Lucindo Antunes Fernandes Filho.
Em entrevista ao Observatório BR-319, Lucindo Antunes avalia a pavimentação como uma obra necessária e estratégica para a região, mas explica que uma preocupação são as bacias hidrográficas, de rios e igarapés que atravessam a rodovia.
“É uma região de baixa altimetria topográfica e por isso possui grande influência da variação dos períodos de vazante e enchentes dos rios na profundidade do nível freático. Ou seja, o nível da água subterrânea está muito próximo da superfície”, explica Lucindo, que também é conselheiro titular do CREA-AM (Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas).
A região não possui riscos geológicos naturais, afirma o especialista, mas a pavimentação pode gerar enchentes e inundações. “Se não forem tomados os cuidados em relação às bacias hidrográficas e a manutenção dos cursos d’água, rios e igarapés, pode haver perdas econômicas associadas”, pontua Lucindo.
Outra preocupação é o substrato geológico do “trecho do meio”, entre o km 250 e o km 655 da rodovia, que é composto por rochas sedimentares cenozoicas, incoesas e porosas. Ao mesmo tempo, a região fica distante de uma fonte de agregados graúdos para a composição do pavimento.
Esses fatores impactam na pavimentação e na conservação ao longo dos anos. “As características naturais do substrato rochoso já foram alteradas várias vezes por obras no passado. Isso é um complicador antrópico, [pois] materiais de diferentes locais foram usados, ou seja, hoje se encontram misturados ao longo da estrada”, afirma o geólogo.
“O projeto deve caracterizar muito bem o comportamento do regime das águas superficiais e subterrâneas nas bacias hidrográficas envolvidas, executar e concluir o projeto sem alterá-lo”, finaliza.
Parte da BR-319 está sem manta asfáltica há anos, o que reduziu o tráfego entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO). Desde então, várias tentativas de repavimentação foram iniciadas, mas sem garantias suficientes de sustentabilidade ambiental, econômica e social para as populações do entorno, os projetos avançaram de forma tímida. Na avaliação de especialistas, um ponto central do atual processo é a própria obra de engenharia da estrada, que precisa incorporar a gama de conhecimentos hoje disponíveis, incluindo os socioterritoriais e ambientais, para que se produza uma obra sustentável, diferente da original.
Contraponto
O presidente da Associação dos Amigos e Defensores da BR-319, André Marsílio, contestou a avaliação do professor Lucindo Antunes. Segundo ele, as condições da rodovia mudaram nos últimos anos e os riscos de inundações não têm fundamento prático.
“Temos acompanhado a BR-319 tanto no período de cheia quanto de seca e não vimos esses problemas. Alguns pontos apresentam dificuldades, mas podem ser resolvidos com elevações, como já ocorreu no Careiro da Várzea e na Estrada de Autazes”, afirmou.
Marsílio diz ainda que a estrada é uma necessidade social e econômica para a região e que inclusive geólogos da Ufam defendem a pavimentação.
Trecho do meio
A iniciativa anunciada em julho pelos ministérios do Meio Ambiente e dos Transportes prevê pavimentar os 400 km do “trecho do meio” com planejamento socioambiental e avaliação independente, com apoio do presidente Lula (PT). O trecho sem asfalto torna-se praticamente intransitável em períodos chuvosos, com veículos atolando.
Defensores da BR-319 alegam que a situação atual cria um grande gargalo logístico e socioeconômico para a região, enquanto críticos argumentam que o seu asfaltamento representa um enorme risco ambiental.
A pavimentação do Lote Charlie (Trecho C) da BR-319, que liga o km 198,2 ao km 250, está em andamento. O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) iniciou em setembro de 2025 o asfaltamento de 20 quilômetros da rodovia neste trecho. As obras nesse lote devem continuar para cobrir os 52 quilômetros totais do Trecho C.
