
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — Na mesma semana dois casos de recém-nascidos abandonados foram registrados em Manaus neste mês de julho. Em um deles, a mãe jogou o bebê pela janela da casa. No outro, um recém-nascido foi encontrado morto em uma sacola na rua. Ambos os casos expõem uma questão delicada e complexa: o que leva uma mãe a rejeitar o filho logo após o parto?
Para a psicóloga Tereza Cal esses atos muitas vezes não refletem crueldade, mas são sintomas de sofrimento psíquico intenso que impede o vínculo entre mãe e filho.
Tereza Cal, que é neuropsicóloga clínica especializada em Psicologia Perinatal (área da psicologia que se dedica ao estudo e cuidado da saúde mental e emocional de mulheres, homens e casais durante o período da gravidez, parto e pós-parto/puerpério), diz que fatores como gravidez indesejada, violência doméstica e transtornos mentais podem dificultar o vínculo entre mãe e bebê. “O abandono não é, na maioria das vezes, um ato de crueldade deliberada, mas um grito silencioso de desespero, de ajuda”, explica.
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“Infelizmente, o abandono de recém-nascidos é um fenômeno complexo que quase nunca se reduz a uma única causa. Vários fatores podem influenciar essa mãe, como gravidez indesejada ou fruto de abuso sexual, ausência de apoio familiar ou do parceiro, violência doméstica, violência obstétrica, pobreza extrema, dependência química, transtornos psiquiátricos já existentes ou descobertos durante a gravidez e isolamento social profundo”, cita Cal.
Ela chama atenção para a importância do diagnóstico e do tratamento de transtornos mentais no puerpério, como a depressão e a psicose puerperal. Para Tereza Cal, esses quadros são muitas vezes invisibilizados ou tratados tardiamente, o que pode agravar o sofrimento.

“Os transtornos mentais no puerpério são sérios e muitas vezes subdiagnosticados. A depressão na gestação não é muito conhecida, mas sua porcentagem é maior na gestação do que no pós-parto. A depressão pós-parto, por exemplo, pode gerar sentimentos intensos de culpa, inadequação e, em casos mais raros, até rejeição em relação ao bebê”, explica.
Ela acrescenta que a psicose puerperal, embora rara, é uma emergência psiquiátrica grave caracterizada por delírios, alucinações e perda de contato com a realidade. Nesses casos, a mulher pode agir sob intenso sofrimento psíquico acreditando que está protegendo o bebê ao afastá-lo ou mesmo não reconhecendo a criança como sua.
“De acordo com estudos mais recentes na área, a porcentagem de mulheres com depressão pós-parto gira em torno de 20% no Brasil, ou seja, uma a cada cinco mulheres. Mas é maior na gestação: cerca de 25% das gestantes têm depressão (uma a cada quatro) e, dependendo da região, esse número pode chegar a 45%, ou seja, quase metade das gestantes, um número alarmante e não divulgado”, disse.
Sinais de alerta
Tereza também chama atenção para sinais que familiares e profissionais de saúde podem observar e agir antes de uma tragédia. Mudanças bruscas de humor, choro frequente, insônia severa, isolamento e falas de desesperança são indícios importantes.

“Mudanças bruscas de humor, choro frequente, insônia severa, isolamento social, falas de desesperança, rejeição explícita ao bebê ou ausência de interesse em cuidar dele são sinais importantes”, afirma. Ela destaca ainda que mulheres que dizem sentir que “não são boas o suficiente” ou que “o bebê estaria melhor sem elas” merecem atenção imediata.
Conforme a especialista, a observação cuidadosa no pré-natal, nas maternidades e nas primeiras semanas após o parto é fundamental para detectar riscos e encaminhar a mãe para o tratamento adequado.
A importância do acolhimento
Para prevenir o abandono, a psicóloga defende políticas públicas consistentes e redes de apoio fortalecidas que atendam mulheres em sofrimento. Ela cita a necessidade de ampliar o acesso a psicólogos e psiquiatras especializados em saúde perinatal, além de profissionais da assistência social e grupos de apoio voltados a mães, inclusive online.
“A criação e o fortalecimento de políticas públicas de saúde mental materna são fundamentais”, diz. Ela defende também campanhas de conscientização e alternativas legais e humanizadas, como programas de entrega voluntária para adoção com sigilo e proteção.
Tereza lembra que o suporte começa na família e se estende à comunidade. Pais, sogros e amigos devem se fazer presentes de forma afetiva e sem críticas, enquanto o sistema de saúde deve garantir acompanhamento com profissionais especializados, visitas domiciliares e grupos de apoio ao puerpério.
No Amazonas, a Lei nº 7.568/2025, de autoria da deputada estadual Mayra Dias (Avante) e sancionada no mês passado, instituiu a campanha permanente “Colo para Mãe” dedicada à promoção da saúde mental materna. A iniciativa prevê ações contínuas de acolhimento, prevenção e cuidado com gestantes, puérperas e mães adotivas, reforçando a importância de identificar e tratar precocemente sinais de sofrimento psíquico.

Por fim, a psicóloga chama atenção para o chamado “puerpério psicológico” que pode durar até dois anos após o parto, período em que alterações emocionais ainda podem surgir e precisam ser acolhidas.
“É necessário que essa mulher sinta que não está sozinha, além de dizer que não há vergonha em sentir-se mal após o parto. A maternidade real é desafiadora, e nem sempre o amor pelo bebê surge de imediato. O que você sente é legítimo e merece ser ouvido com respeito e acolhimento. Pedir ajuda é um sinal de força, não de fraqueza”, conclui.
O olhar da polícia
As situações descritas por Tereza Cal — como vulnerabilidade social, ausência de apoio e questões de saúde mental não diagnosticadas — também aparecem no cotidiano das investigações, segundo a delegada Juliana Tuma, da Depca (Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente).
“Embora os casos de abandono de recém-nascidos não estejam entre os mais recorrentes na rotina da Depca, eles continuam a ocorrer e sempre geram grande comoção social. O que temos observado, de forma geral, é que essas situações costumam estar ligadas a contextos de vulnerabilidade social, ausência de rede de apoio familiar e, em alguns casos, questões de saúde mental não diagnosticadas ou não tratadas”, afirma Juliana Tuma, ao ATUAL.
Ao comentar o caso da mãe que jogou o bebê pela janela, a delegada diz que assim como descreve a psicóloga, não se trata apenas de um ato isolado, mas de histórias marcadas por dificuldades profundas. Segundo ela, embora cada caso tenha as suas particularidades, alguns fatores se repetem.

“É comum que situações como essa estejam inseridas em contextos de vulnerabilidade social, desamparo emocional ou dificuldades relacionadas à maternidade precoce ou indesejada. Em alguns casos, há também histórico de transtornos mentais ou uso de substâncias psicoativas. A ausência de uma rede de apoio — seja familiar, institucional ou comunitária — pode contribuir para atitudes extremas”, disse.
Tuma cita que, além de entender os fatores que levam ao abandono, a polícia enfrenta desafios práticos na investigação. A delegada explica que muitas vezes não há testemunhas ou registros que identifiquem a autoria. “Um dos maiores desafios nesses casos é justamente a identificação da autoria, já que muitas vezes o bebê é deixado em local público sem testemunhas ou registros que indiquem quem foi o responsável”.
Juliana Tuma conta que, quando a equipe policial é acionada para casos de bebês abandonados e resgatados, a prioridade “absoluta” é preservar a integridade da criança e acionar rapidamente a rede de proteção.
“A criança é levada imediatamente para atendimento médico e o Conselho Tutelar é acionado para acompanhar o caso e tomar as medidas cabíveis de proteção. Quando necessário, o bebê é encaminhado a uma unidade de acolhimento”, explicou.
Ela acrescenta: “Paralelamente, a Depca instaura o procedimento policial para apuração dos fatos. Se identificada, a mãe ou o responsável é ouvido e, havendo indícios de crime, a investigação segue com todas as diligências necessárias para responsabilização conforme a legislação vigente”.
Casos assim também expõem a importância de políticas públicas e prevenção conforme o que defende Tereza Cal. “É por isso que a prevenção e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à saúde mental, à proteção social e à orientação de gestantes são tão importantes”, afirma a delegada.
Grito no vazio
Além de discutir o que leva ao abandono, especialistas apontam as consequências imediatas e a longo prazo para quem vive essa experiência logo após nascer. A psicóloga Gabrielle Ehm, especialista em avaliação psicológica, explica que nos primeiros momentos o recém-nascido sente não apenas os riscos físicos, mas um medo absoluto diante da ausência de cuidados.
“Além dos perigos óbvios como o frio, a fome e a falta de proteção, a consequência imediata para um bebê é o terror absoluto. Um recém-nascido é totalmente dependente. Ele não entende o que está acontecendo. Para ele, a ausência de um cuidador não é apenas um desconforto, é uma sensação de que o mundo inteiro desabou”, afirma.

Conforme Ehm, o impacto emocional começa ainda ali, no primeiro choro que não encontra resposta. “O choro do bebê, que deveria ser um chamado atendido, se torna um grito no vazio. Essa experiência inicial ensina ao cérebro do bebê, da forma mais dura possível, que o mundo não é um lugar seguro e que ele está por conta própria”, explica.
A falta de vínculo com a mãe ou cuidador nos primeiros meses de vida também deixa marcas profundas no desenvolvimento social e emocional. Para a psicóloga, esse laço inicial é como o alicerce de uma casa. “Quando esse espelho não existe, a criança cresce com um sentimento de vazio, sem saber ao certo quem é ou qual o seu valor. Isso pode fazer com que, no futuro, ela tenha grande dificuldade em se relacionar”.
Gabrielle acrescenta que o abandono também compromete o desenvolvimento neurológico e cognitivo do bebê, pois priva a criança de estímulos fundamentais. “O cérebro de um bebê é como uma pequena semente que precisa de água, sol e cuidado para crescer forte. Para o cérebro, o alimento são os estímulos: o som da voz da mãe, o toque, as canções de ninar, as conversas. Quando um bebê é abandonado, ele é privado desses estímulos essenciais”, disse.
A especialista explica que, a curto prazo, podem surgir atrasos na fala e na locomoção, além de dificuldades de aprendizado. A longo prazo, podem aparecer problemas de concentração e menor capacidade de lidar com frustrações e estresse. “A ausência de afeto no início da vida literalmente deixa marcas no cérebro”, completa.
Redução de danos
Após ser resgatado, o bebê pode ter uma nova chance de reconstruir laços e segurança. Gabrielle explica que o acolhimento institucional ou familiar pode começar a reverter os danos deixados pelo abandono.
“Cada gesto de cuidado — um banho quentinho, ser alimentado com calma, receber um abraço apertado — envia uma nova mensagem ao cérebro da criança: ‘Você está seguro. Você é amado. O mundo pode ser um bom lugar’. Essa nova rotina de afeto funciona como uma espécie de reprogramação. Aos poucos, a criança pode começar a construir a confiança nas pessoas que foi quebrada no início. Um novo lar não apaga o passado, mas pode dar ao bebê a chance de construir um futuro muito diferente e mais feliz”, afirma.

Além disso, o acompanhamento médico e psicológico é fundamental para que a criança não apenas sobreviva, mas se desenvolva de forma plena e saudável. “O terapeuta funciona como um tradutor, ajudando a nova família a entender o que o comportamento do bebê significa. O choro excessivo, a dificuldade para dormir ou a recusa do contato físico podem ser sinais do trauma vivido. O profissional ensina os cuidadores a responder a esses sinais com paciência e afeto, fortalecendo o novo vínculo e ajudando o bebê a se sentir seguro”, explica Gabrielle.
