
Por Milton Almeida, do ATUAL
MANAUS – Uma equipe de pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé (a 526 quilômetros de Manaus), trabalha para conscientizar moradores de que os morcegos são bichos do bem. A missão é convencer as comunidades do Médio Solimões a proteger os mamíferos porque são essenciais à polinização, dispersão de sementes e controle de populações de insetos e pragas agrícolas.
A equipe é coordenada pela bióloga Tamily Santos e conta com a participação das comunidades ribeirinhas em sete reservas ambientais: Estação Ecológica Jutaí-Solimões; Reserva Extrativista do Rio Jutaí; Reserva Extrativista Auati-Paraná; Reserva Extrativista do Baixo Juruá; Estação Ecológica Juami-Japurá; Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá; Áreas urbanas e rurais dos municípios de Alvarães e Tefé.
“Desde 2011 a gente começou a fazer o primeiro levantamento de diversidade de morcegos porque para a gente proteger a gente precisa conhecer as espécies. E é importante frisar que nem todas as espécies de morcegos se alimentam de sangue (morcego hematófago). Noventa por cento das espécies se alimentam de insetos como carapanãs, mariposas, grilos, mosquitos da dengue e da malária. Então, eles são controladores de pragas e de zoonoses (doenças infecciosas) também”, diz a bióloga.

Segundo Tamily Santos, há morcegos frugívoro (Artibeus lituratus), os que se alimentam de frutas e não de sangue, e dispersam sementes pela floresta, chamados também de reflorestadores porque ajudam na regeneração de áreas florestais. E há também as espécies que carregam vírus, que podem ser transmitidos aos seres humanos e animais, como é o caso da raiva.
“Ouvimos relatos nas comunidades do interior que os morcegos chupam sangue das pessoas, são os morcegos hematófagos ou morcego-vampiro (Desmodus rotundus). Mas não são todos e a população precisa conhecer que nem todos os morcegos são iguais e eles não devem sair pela mata matando esses bichos porque eles são importantes para o ecossistema da floresta. Eles são portadores do vírus da raiva, mas, teoricamente, nem todos podem transmitir”, diz Tamily Santos.
Para evitar a caça aos morcegos, os pesquisadores ensinam os moradores a identificarem as espécies benéficas à floresta.
“Por isso que é importante fazer a divulgação do trabalho para que as pessoas conheçam e relatem onde está tendo casos, que a gente chama de mordeduras, e comunicar aos órgãos de saúde. Então, o principal objetivo do trabalho é desmistificar os morcegos, é orientar que os morcegos não são vilões, nem todos se alimentam de sangue, a maioria se alimenta de insetos”, diz Tamily Santos.
Até o momento, a equipe de biólogos não encontrou o vírus da raiva (Lyssavirus) nos 2.700 morcegos coletados e estudados desde 2011.
“Isso não quer dizer que o vírus não ocorra na região. A gente não pode afirmar isso. Mas, nas amostras que eu coloquei, dos mil e setecentos morcegos analisados, não encontramos esse vírus”, disse.
