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Política

‘Pequeno Príncipe’ e Alexandre Garcia são realidade paralela do bolsonarismo, diz pesquisador

19 de setembro de 2023 Política
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Alexandre Garcia foi desmentido por apresentadora da CNN (Foto: YouTube CNN/Reprodução)
Alexandre Garcia divulgou fake news sobre inundações no Rio Grande do Sul (Foto: YouTube CNN/Reprodução)
Por Uirá Machado, da Folhapress

SÃO PAULO – Num dia, o jornalista Alexandre Garcia divulgou notícias falsas sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. No outro, um advogado cometeu uma gafe ao citar o livro “O Pequeno Príncipe” no STF (Supremo Tribunal Federal).

São episódios que, para João Cezar de Castro Rocha, ilustram duas facetas típicas do bolsonarismo: a criação de uma espécie de realidade paralela e a aposta na polarização acima de tudo – acima, inclusive, do critério técnico para a tomada de decisões.

Professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Rocha, que pesquisa a extrema direita, acaba de lançar “Bolsonarismo: Da guerra cultural ao terrorismo doméstico” (ed. Autêntica).

Primeiro volume de uma trilogia, o livro reúne entrevistas, artigos já publicados e textos inéditos com o objetivo de compreender o avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.

“O avanço transnacional da extrema direita depende diretamente da relativa incapacidade do campo progressista em entender o alcance radical das mutações provocadas pelo universo digital no mundo da política”, escreve Rocha.

“Infelizmente, parece que as minhas hipóteses se confirmam”, diz em entrevista à reportagem, ao comentar a difusão de fake news sobre as chuvas no RS. “É um problema que não é nem apenas político, é civilizatório”, afirma.

Algumas notícias falsas que circularam em grupos bolsonaristas atribuíram ao presidente Lula (PT) a responsabilidade pelas enchentes, que mataram mais de 45 pessoas.

Em outra versão, Alexandre Garcia sugeriu no canal da revista Oeste que a enchente teria sido causada pela abertura deliberada de comportas de represas construídas nos primeiros mandatos do governo petista.

Contestado pelo governo, o jornalista leu um direito de resposta para negar qualquer relação entre as barragens e as inundações.

Ainda assim, segundo Rocha, a notícia falsa continua sendo difundida. “Pouco importa se há desmentidos. As pessoas apagam postagens no espaço público visível, mas, no espaço público subterrâneo, as posições se mantêm”, diz o pesquisador, que participa incógnito de grupos bolsonaristas.

“O problema é que, quando milhões de pessoas adotam a versão falsa como verdadeira, isso se transforma em fato político objetivo, capaz de decidir eleições. Ou seja, não se pode confundir com puro delírio”, disse.

No livro, ele elabora o conceito de dissonância cognitiva coletiva para explicar esse comportamento baseado em uma espécie de realidade paralela.

Segundo Rocha, essa realidade convence milhões de pessoas porque ela é a única que existe num ecossistema de desinformação que ele chama de midiosfera extremista, formada por redes de WhatsApp, canais de YouTube, redes sociais e aplicativos específicos.

Nesse ecossistema, circulam as mais variadas teorias conspiratórias, por vezes validadas na “mídia amiga” (por exemplo, Fox News nos EUA, Jovem Pan por aqui, diz ele) e sempre imunes ao que se passa fora desses ambientes.

De acordo com Rocha, as notícias falsas – ou mesmo as verdadeiras –  cumprem ainda outro propósito: a produção em série de narrativas polarizadoras, que estimulam a radicalização crescente em torno de inimigos imaginários.

Em seu livro, o pesquisador conecta essa radicalização à noção de guerra cultural, que vai além da mera pauta comportamental para se tornar ferramenta de mobilização em torno de qualquer assunto capaz de manter a militância em estado de excitação permanente.

Isso inclui fantasias como “ideologia de gênero” e “ameaça comunista”, claro, mas também a negação da técnica e da ciência na tomada de decisões administrativas – caso das vacinas, por exemplo.

Para o autor, “o êxito do bolsonarismo significa o fracasso do governo Bolsonaro”, porque a necessidade de negar dados objetivos e de produzir inimigos em série impede a boa gestão da coisa pública.

Impede também que se faça uma boa defesa de um cliente no STF, acrescenta Rocha sobre outro episódio posterior à publicação do livro. Ele se refere à atuação dos advogados que representaram réus acusados de participar dos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Na tribuna do Supremo, os defensores fizeram discursos inflamados contra os ministros, de olho nas redes sociais, e deixaram de aproveitar a chance de fortalecer os argumentos técnicos a favor dos réus. Os três julgados foram condenados.

Sem o devido preparo, um dos advogados, pretendendo citar a obra “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, mencionou “O Pequeno Príncipe”, do romancista Antoine de Saint-Exupéry – um livro não tem nada a ver com o outro, nem remotamente.

“Do ponto de vista da advocacia criminal, o que eles fizeram é um absurdo, porque não defenderam os clientes. Mas essas falas causaram um tsunami nas redes bolsonaristas”, diz Rocha.

“Do ponto de vista da guerra cultural, é a insistência em uma narrativa de que vivemos na ditadura da toga, que é financiada pelo sistema, que descondenou o Lula para derrubar o [Jair] Bolsonaro, que é antissistema. Essa é a narrativa dominante. É insano”, afirma o pesquisador.

Para ele, além da dissonância cognitiva coletiva e da guerra cultural, é preciso levar em conta ainda um terceiro ponto: a monetização.

“Isso é uma máquina de produzir dinheiro. Quem insiste nas fake news e numa visão absurda da honestidade de Bolsonaro não o faz por paixão ideológica unicamente. É um cálculo pragmático objetivo”, diz Rocha.

“O caso do Alexandre Garcia é sintomático. Ele sabe o que está fazendo com o vídeo da barragem. É um aceno para um público consumidor potencial de 58 milhões de pessoas [eleitores de Bolsonaro em 2022]. Isso rende dinheiro. É importante não esquecer dessa dimensão”, afirma o pesquisador.

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Assuntos Alexandre Garcia, bolsonarismo
Cleber Oliveira 19 de setembro de 2023
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