Lá atrás, no auge do regime militar, quando Pelé disse que os brasileiros não sabiam votar e nem escovar os dentes, ficamos todos indignados. Foi um deus nos acuda, a esquerda caiu de pau em cima dele e logo o craque passou a ser rotulado como aliado do golpe e bajulador dos militares. Até hoje há quem o veja de forma atravessada e muitos jamais o perdoaram por tamanhas aleivosias. Com sentido mais ou menos parecido, Romário, com indisfarçável ironia, passou a dizer que Pelé calado seria um poeta, de modo um tanto quanto incompreensível.
Mas a verdade é que ninguém, com um mínimo de isenção, cuidou sequer de analisar se Pelé teria ou não alguma razão em suas declarações, especialmente considerada a época em que foram prestadas, quando o voto não tinha realmente o menor valor. Deixando de lado o problema da inaptidão para escovação dentária correta, mesmo porque milhões de brasileiros não têm acesso à escova de dentes, resta indagar como de fato votam os brasileiros, com espírito aberto e sem conceitos arraigados ou preestabelecidos.
Será que temos votado com competência, será que temos escolhido bem nossos governantes? Nas eleições nacionais, passado o desastre do governo Sarney, fruto de uma tragédia do destino, o Brasil elegeu Collor, substituído por Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma. O célebre Caçador de Marajás das Alagoas, ainda que sem entrar no mérito de seu curto mandato, foi defenestrado deixando uma mancha na história da República, na condição de primeiro presidente a ser cassado via processo de impeachment pelo Congresso Nacional. Lula e Dilma ainda estão aí, ambos amparados num projeto político que ofereceu ao país o maior escândalo de corrupção de sua existência. Um, que saiu sem nunca ter saído; e outra, que até agora não disse a que veio, tendo-se uma cópia bem pior do que o original.
O povo elegeu e reelegeu Lula e tudo indica que fará o mesmo com Dilma, salvo algum desvio de rota, pouco provável.
O que Lula fez efetivamente para ser conduzido e reconduzido ao poder? Qual sua atitude como estadista? Como pensou e projetou o Brasil para o futuro? Quais as iniciativas que poderiam consagrá-lo como presidente na história do país? Quais as grandes obras de seu governo, especialmente em setores estratégicos e infraestruturais?
Na contramão dos petistas empedernidos, a resposta a qualquer uma das indagações acima será sempre negativa. Lula teve juízo apenas e tão somente em manter os fundamentos macroeconômicos do Plano Real do governo Fernando Henrique. E no mais? Nada. Criou o Bolsa Família, que não passou de uma reunião de outros programas assistencialistas já constituídos, mas o transformou no maior instrumento de manipulação eleitoreira e de compra de votos do mundo. E assim estendeu-se por oito anos no Palácio do Planalto, sem que possamos extrair de um tão longo período um resultado sequer que possa projetar-se na vida da Nação com caráter de perpetuidade.
Na outra ponta, o metalúrgico, com ações típicas do sindicalismo pelego, legou-nos um Estado aparelhado por milhares e milhares de companheiros e companheiras pagos pelos cofres da Viúva, uma militância que em 2014 irá às ruas e às urnas para manter-se no poder a qualquer preço. Deixou-nos, de igual modo, o Mensalão, a corrupção institucionalizada e levada ao extremo, com a manipulação e pretendida anulação do sistema secular de independência e harmonia entre os poderes. Não teve o menor pejo em orquestrar a compra de maiorias parlamentares na Câmara Federal, fato criminoso que levou à prisão os maiores dirigentes do Partido dos Trabalhadores, Dirceu, Genoíno, Delúbio e caterva. Como se não bastasse, logo que estourou o imbróglio ilícito, em entrevista concedida nos jardins da Embaixada do Brasil em Paris, mentiu à Nação, ao sustentar que tudo não passou de caixa dois de campanha, ao mesmo tempo em que atribuiu procedimento idêntico aos demais partidos políticos. Em qualquer país de instituições sólidas, perderia o mandato.
Com Dilma agrava-se a situação. Depois da faxina promovida no início de seu governo, durante a qual demitiu vários membros acusados de corrupção em sua equipe, inclusive o potiguar Alfredo Nascimento, senador pelo Amazonas, retrocedeu e preferiu aliar-se ao que há de mais nefasto na política brasileira. Vive agora de ceca e meca com os exonerados e não conseguiu nem ao menos manter a fama de boa gestora, que adquiriu por equívoco em cima da gerência do PAC, cujas obras andam há anos a passos de cágado. Com ela, que já não consegue esconder mais a péssima administradora que sempre foi, o Brasil começa a descarrilar de vez, com a economia fora de controle e com o fantasma da inflação novamente batendo à porta dos lares dos brasileiros.
É assim que o brasileiro vota e pelo andar da carruagem continuará votando. O povo tem a classe política e os governantes que escolhe e merece. Pelo amor de Deus, até quando?
