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© 2022 Amazonas Atual
Augusto Barreto Rocha

O trem está vindo. Ficaremos parados?

1 de julho de 2019 Augusto Barreto Rocha
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Augusto Cesar Barreto Rocha (*)

Há um trem prestes a atropelar a ZFM (Zona Franca de Manaus). A locomotiva está, como de costume, comandada por São Paulo, Brasília e outros mandatários com a cabeça desconectada do Norte brasileiro. Enquanto isso, ficamos conversando e emitindo opiniões a esmo sobre o que estão tramando no trem. Sequer estamos no trem, mas já vemos a sua potência e já nos chegam notícias sobre Dubai, redução de tarifas, acordo do Mercosul com a Europa, redução de impostos, turismo e outras tantas novidades.

A questão não é ficar falando do trem, mas construir um trilho com a bitola certa e que conduza o trem para o caminho que nos interessa. Contudo, construir trilhos é algo trabalhoso e que precisará ser feito por nós. Se esperarmos ser atropelados para apontar por onde o trem deveria ter passado será muito tarde. Não adiantará apelar para relatar como foi o atropelamento ou pedir compensações sobre o estrago já feito. O que precisamos é colocar logo os trilhos que levarão este trem para os lugares de nossos interesses e necessidades.

A questão que temos a enfrentar é: como desenvolver o Amazonas? Como gerar riqueza em Manaus? Esta questão é nossa. Outros poderão nos ajudar, mas o problema é nosso. Não vejo São Paulo esperando Brasília dizer o que precisa ser feito. Temos a mesma possibilidade, mas precisamos ter a coragem de exercer esta possibilidade.

Não se param trens de fora do trem, a menos que exista um controle externo ou um comando dos trilhos e de suas direções. Qual a direção, dentro de um paradigma liberal (ou pseudo-liberal ou fake-liberal…) para isso? Não está em pauta se gostamos ou não do paradigma, se ele é verdadeiro ou falso, se ele é bom ou ruim. O que está em pauta é: qual o interesse do Amazonas para o mundo inteiro ouvir? Cabe apenas ao Amazonas este papel. Não podemos entregar esta decisão para a Alemanha ou para um grupo que colocou uma bela placa a frente de um museu europeu. O mundo inteiro usa nosso nome, mas Brasília prefere nos chamar de Dubai. Nem um, nem outro querem nos defender. Ambos visam seus próprios interesses.

Precisamos começar a prescrever o que e como fazer para levar este trem para um caminho que não nos atropele. O maquinista de plantão quer fazer o trem do país andar. Onde estão nossos trilhos? Para onde eles levam? Qual o tipo de velocidade a ser desenvolvida em nosso território?

O que está faltando para o Amazonas é começar a dizer o QUE QUER. Precisamos declarar em alto e bom som, com algum mínimo consenso. Se isso não for feito logo, seremos atropelados pela história. É visível esta direção e não adianta enterrar a cabeça, tapar os ouvidos ou o nariz. É necessário definir a pauta sobre COMO fazer. Não com objetivos a esmo, tipo “mais turismo”. A questão é COMO fazer turismo em Novo Airão se não é fácil nem rápido adentrar no arquipélago de Anavilhanas. A questão não é se temos terras raras ou petróleo. A questão é como e quando começaremos a explorar estas possibilidades.

Para cada caminho, será preciso um conjunto de respostas que retirem as amarras que nos prendem. Estamos em toda a nossa história travados e com o nosso desenvolvimento emperrado, pois possuímos potencial para desequilibrar o jogo global. Precisamos perceber isso e trazer para a geração do presente esta responsabilidade. Cabe a nós, que vivemos na Amazônia, este papel. Não virão estranhos com boa-vontade. Os colonizadores sempre querem o mesmo e a história é farta em exemplos. Que nos unamos em torno de alguns objetivos, indiquemos como nos libertar e lutemos em conjunto por isso. Caso contrário, continuaremos na condição de escravos, contribuindo com impostos e, no jeito que vai, com as nossas vidas.


Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Dubai, Europa, Mercosul, ZFM
Redação 1 de julho de 2019
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