Desceu a montanha numa manhã fria de começo de inverno, mas de sol pleno na serra. E foi-se chegando, pé ante pé, um pouco indeciso e desconfiado. Ainda assim, entrou no jardim e abriu a cauda. Nela, a beleza exuberante, com penas de um verde intenso e de um azul brilhante, ocelos bem redondinhos, formados por círculos dourados. Mostram-se alguns com as cores da minha Portela, o que não foi o caso, como notamos. Vencida a irresolução inicial, o inesperado visitante passeou pelo terreno em torno da casa, já como se fosse senhor daqueles espaços, com a maior naturalidade. Altivo, como todos de sua espécie, aproximou-se da piscina, serviu-se de um pouco d’água e inspecionou tudo em volta, a churrasqueira, o forno e o fogão a lenha, tudo com muita distinção e nobreza.
Foi-se ficando. Aqui e ali, fazia questão de exibir o majestoso leque, que tão bem o distingue de tantos outros animais de seu reino. Tentamos algum contato, mas em vão. Em todas as vezes que dele nos aproximamos, fomos logo mantidos à distância. Ao perceber nossas intenções, se afastava, não permitindo o menor contato. Sem saber como poderíamos alimentá-lo, arriscamos um prato de arroz cozido. Felizmente, com sucesso, fazendo-nos suspirar aliviados.
Saciado, o pavão mais uma vez andou pelos domínios que talvez também pudesse entender como seu, sempre imponente, desceu a rampa do portão de entrada e foi embora. Partiu como chegou, sem nos dedicar sequer um último olhar.
Interessante, um animal magnífico e lindo, altaneiro como ele só. Bem, aí há explicações suficientes, fundadas na simples observação de seu comportamento e postura, para a construção do sentido figurado do substantivo estendido a quem é extremamente vaidoso e presunçoso, na linguagem simples do povo. Quem, no dia a dia das relações humanas, não conhece um pavão bastante emplumado, querendo ser o que a folhinha não marca, segundo o velho provérbio. Neste ponto, somos injustos com as aves da família dos fasianídeos, como os faisões – caça das mais disputadas, que podem ter realmente muito orgulho dos seus encantadores dotes naturais. Como único castigo, deram-lhe a pavoa para companheira, um feminino dos mais horrorosos da língua portuguesa.
Com entendimento figurado, o vocábulo encontra-se consagrado e dicionarizado pelos melhores lexicógrafos, segundo o clássico Houaiss. Enquanto pessoa, o pavão se acha e vai além de suas concretas possibilidades. Dá a si próprio um valor e uma importância que não tem e jamais terá. No exercício de qualquer cargo, logo perde a noção da fugacidade das coisas e das situações. O gênio de Fernando Pessoa, próximo ou da estatura de Camões, advertia com extrema humildade que no futuro talvez não viesse mais a ser lido, ao admitir a hipótese de que o idioma em que escreveu seus mais instigantes e belos poemas poderá se transformar numa língua morta, dentro de quatro ou cinco séculos. Como um pobre diabo, o empavonado redimensiona o valor de suas funções e apresenta-se como o rei da Samotrácia, ainda que simples lacaio. E sai por aí, arrotando uma posição irreal, distante do que na verdade representa.
A desgraça do pavão é que é sempre logo identificado. Mais cedo do que imagina, não tem como escapar, vítima de sua própria soberba. É metido e chato. Tem a ilusão da superioridade sobre todos e se considera melhor do que quem o cerca. Uma ligeira e curta estocada rompe a casca e o pavão se revela inteiro, vazio e sem graça. Sob esse aspecto, é bem diferente de quem nada sabe, mas mesmo assim posa de sábio, só que recolhido e inabordável, discretíssimo, exatamente para que não o vejam como de fato é, apenas forma e nenhum conteúdo, estereótipo de Fradique Mendes, personagem emblemático de Eça de Queiroz.
As sociedades mais acanhadas, ainda com ranços de província, são pródigas em pavões e fradiques da mais variada espécie. Quem quiser pode muito bem reconhecer o seu pavão ou o seu Fradique preferido, de estimação ou não. Basta olhar em volta.
