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Sem categoria

O calendário amazônico de Gisele

11 de janeiro de 2014 Sem categoria
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Como não poderia deixar de ser, guarda as mesmas medidas temporais do gregoriano, com dias da semana e datas mensais que se repetem, sem deixar de obedecer às variações de cada ano entrante. Tudo muito bem equacionado e previsto para uso universal, desde 1582, quando instituído pelo papa Gregório XIII, seguindo uma cronometragem mergulhada em estação após estação.

É o relógio que registra o tempo, angustiante, fluídico, implacável. Com ele e em função dele, vivemos todos os seres humanos. Marca eventos que nos dão contentamento, mas também lembra momentos de padecimento e  tristeza. Consigna extremos, o nascimento e a morte, a alegria diante da vida e a dor da perda. E a cada milésimo de segundo, esvai-se a existência, algumas duradouras e outras breves, tão curtas quanto uma sonatina de verão, no conjunto mágico e belo da natureza, em vir a ser constante.

Trato do calendário de Gisele, de Gisele Braga Alfaia, talento natural e multifacetado, rico de opções. Como poucos na região e com muita singularidade, agarra sua época e nela procura revelar-se com fina sensibilidade. Anda agora inteira pelo mundo da fotografia e capta nas raízes seu chão primeiro, a Amazônia, Circo Sem Teto de nosso sempre lembrado Ramayana de Chevalier. Talvez como forma de deter a rolagem do tempo, mera e alquímica ilusão, via imagens suspensas, impressas ou gravadas nas telinhas digitais, a serem reproduzidas de mil formas.

Presenteou-nos na alvorada de 2014, com uma delicada obra de arte. A cada mês um painel da região. Em alguns, a exuberância do verde intenso e brilhante, refletido nas águas do imenso caudal. Em outros, a maciez pictórica das flores, fazendo assomar a sutileza de seus aromas frágeis. Há o homem e seu mais expressivo instrumento de trabalho, o barco caboclo de pesca, um inocente e modesto rosário de canoas avançando sobre o rio, a cuia e o arpão. Mais adiante, as praias virgens sem fim, areias alvas de ampulheta, plenas de reentrâncias cavadas docemente pelas águas escuras e carameladas do Negro, algumas vezes, de tão negras, azuladas. No céu, o prenúncio da tempestade pesada na selva, e o velho pescador, já de cabelos nevados de tantos sóis amazônicos, debruçando-se em dezembro sobre o gigantesco rio, no espetáculo das primeiras grandes águas, pátria para sempre idolatrada.

E tem-se em tudo o que ela faz uma dose densa de amor telúrico, autóctone, em cada foto, em suas linhas e ângulos mais significativos ou em matizes pronunciados ou mais suaves. Nas nuances, as variações de cores sedutoras, recolhidas na floresta, lagos, rios e fauna abundante, sob a perspectiva de quem sente e interpreta a magnitude do meio, fruto de uma miríade formidável e encantada do maior banco biogenético do planeta.

O projeto gráfico que emoldura a criação de Gisele mostra-se com o traço da distinção, uma bela composição sobre um fundo clássico, tudo muito bem diagramado e impresso com discrição. As mensagens publicitárias, longe de desagradar ou agredir, como é comum em iniciativas dessa natureza, elevam o valor artístico da obra, conferindo-lhe a primazia com a qual termina por apresentar-se.

Importa mesmo é a valorização do sentimento que motiva e impulsiona o olhar de Gisele, o foco de sua objetiva, sedimentado numa visão muito particular e numa bagagem cultural herdada de gerações em família. A mãe, Ursulita Alfaia, poeta de reconhecida acuidade lírica, é filha de Genesino Braga, escritor e autor de um legado cultural de leitura indispensável, a quem se interessa pelo nosso passado. E o pai, Erasmo Alfaia, jornalista e advogado, solidário e suscetível às emanações do espírito, um entusiasta da produção da filha Gisele, em todos os segmentos das artes visuais.

É isso aí. Segundo a minha querida mãe, a professora Olga de Moraes Rego Figueiredo, pródiga em sábios provérbios, quem sai aos seus não degenera. E assim Gisele Braga Alfaia dá sequência a uma tradição intelectual cultivada no berço, com um tempero muito forte e pessoal, tipificações de suas bem definidas inclinações interiores.

Ainda em relação às suas origens, independente da admiração que nutro sem reservas pela artista e por seus pais, devo registrar que fui amigo e irmão de seu tio Carlos Genésio Braga, com quem dividi muitas das noites e madrugadas boêmias de nossa antiga Manaus, hoje desfigurada e jamais reencontrada, pelo menos com a face que cultivamos dos melhores momentos de nossa amada província.

[email protected]

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administrador 11 de janeiro de 2014
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