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Dia a Dia

Números sobre queda nos assassinatos são falsos, diz Caco Barcellos

28 de outubro de 2019 Dia a Dia
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‘A violência do Estado tem aumentado muito’, afirmou Caco Barcellos (Foto: TV Globo/Reprodução)
Por Nelson de Sá, da Folhapress

SÃO PAULO – Caco Barcellos, 68, diz que o nome Profissão Repórter, o programa que idealizou e que acaba de completar 400 episódios na Globo, no último dia 16, tem várias fontes. Uma delas é um livro de Flávio Alcaraz Gomes, repórter de rádio que ele cresceu ouvindo em Porto Alegre, enviado a guerras pelo mundo.

Foi também o título de outro livro de repórter gaúcho, Marcos Faerman, que abriu as portas para Barcellos em São Paulo. E antes houve o filme de Antonioni, de 1975, em que Jack Nicholson, desesperançado, desiste da profissão. Barcellos não é disso.

Em meio à comemoração das 400 edições, ele foi ao morro do Fallet, no Rio de Janeiro, para ouvir a mãe de Roger, 18, e Victor Hugo, 16, dois dos 15 mortos na operação policial de oito meses atrás, que serviu de marco inicial para o governo de Wilson Witzel. “Eles não tiraram só a vida dos meus filhos, tiraram a razão da minha”, falou ela.

Barcellos não desiste da profissão apesar de ver a história se repetir, quase três décadas depois de ter lançado “Rota 66 – A História da Polícia que Mata”, de 1992. Escrito a partir da morte de três jovens em São Paulo, em 1975, o livro-reportagem se tornou referência no desvendamento da violência policial, dando nomes ao esquadrão da morte.

Um dos jovens mortos, Francisco, era namorado da atriz Iara Jamra, então com 20 anos. Ela recorda que foi ao julgamento dos PMs, todos absolvidos, e que o livro de Barcellos foi a única resposta à injustiça contra Francisco, os amigos João Augusto e Carlos e com ela própria. “Agora está igual ou pior”, acrescenta, com desalento.

O jornalista também pensa assim. “As coisas pioraram”, afirma Barcellos. “A violência do Estado tem aumentado muito. Quando lancei o ‘Rota 66’, a polícia de São Paulo atingiu o recorde de 1.500, que o Rio de Janeiro superou no ano passado.”

Entre uma e outra história de mortandade policial, ele conta que foi adquirindo “consciência do pouco poder, da pouca influência” que tem como jornalista. “Hoje, quando conto uma história assim, de natureza negativa, eu tenho apenas essa esperança de que as pessoas se deem conta da tragédia que é”, diz.

Imagina ou fantasia “convencer o causador a parar”, mas evita se mostrar ingênuo. Avisa, por exemplo, contra números sobre queda nos assassinatos. “É falso isso. É análise do homicídio isolado.”

Não levam em conta, diz, as mortes que resultam de operações. “Como se os mortos pela polícia não fossem cidadãos. Outro número que não vai para homicídios é o das milícias. Elas matam e desaparecem com os corpos. A gente viu agora a descoberta de cemitérios no Rio.”

De maneira geral, ele denuncia “uma manipulação dos números, para parecer uma queda, mas é um aumento grande”. O tema é caro para ele, que desconfia até do crescimento nos suicídios, lembrando que “o Brasil já fez muito isso, a ditadura fazia muito”.

Lamenta que persiste “o discurso da violência nos meios de comunicação”, usado até para ganhar voto. Questionado sobre os programas de início de noite, não cita ninguém, mas responde: “Todo mundo precisa pensar bastante sobre isso. De que forma está contribuindo para mais violência. Por que nos tornamos um dos povos mais violentos do mundo”.

Perto dos 70, ele não dá sinal de parar. Para a entrevista na sede da Globo em São Paulo, apareceu de mala na mão, voltando de uma reportagem no Rio, e em seguida saiu para outra em Cidade Tiradentes, bairro no extremo leste de São Paulo. Iria retratar o contraste da expectativa de vida no subúrbio, três décadas menor que na região da avenida Paulista.

Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da Globo, fala dele como “um gigante do jornalismo, suas reportagens, seu programa, seus livros mostram isso”. E conta uma passagem para mostrar que a relevância que alcançou na profissão não levou a “estrelismo”. Foi quando Barcellos viajou a Roma após a morte do papa João Paulo 2º, em 2005.

“Uma fila enorme acabou se formando para ver o corpo. Pedi que acompanhasse, para relatar a experiência de ficar horas na fila, no frio, e mostrar os sentimentos dos fiéis”, diz Kamel.

Começou em seis horas, mas foi a 18 e, apesar dos pedidos, “Caco não arredou pé, a reportagem só estaria pronta diante do corpo”. Foram sete minutos no Jornal Nacional daquela noite.

Barcellos, que foi correspondente no exterior, ainda gosta do noticiário internacional. Uma das coberturas que já estava imaginando nesta última semana para o Profissão Repórter era dos conflitos em Santiago, no Chile.

Pensava em retratar a desigualdade na América Latina, mas na conversa acabou se voltando novamente ao Brasil. Cita dados recentes da organização Oxfam que põem o país como terceiro mais desigual na região, só atrás de Colômbia e Honduras.

“A melhor história, entre aspas, está aqui, devido à nossa urgência”, diz. “Desigualdade extrema gera reações extremas. Menos no Brasil. Por quê? É uma grande pergunta, que fico fazendo. Talvez a explosão aqui seja mais de natureza individual. Pega o revólver e vai assaltar.”

No Chile ou em Cidade Tiradentes, o que ele não quer é ficar na Redação. “Eu nunca saí da rua”, diz. Ao formatar o Profissão Repórter, em 2006, fez questão de eliminar figuras como o produtor e o pauteiro, papéis que no seu entender devem ser feitos pelo próprio repórter.

“E agora a gente acha essencial mostrar os bastidores”, diz. “Porque a concorrência produz muita fake news. Qualquer um hoje vai para a rede social e é concorrente. Sem filtro, produz muita coisa falsa.” Para enfrentar a desinformação, quer revelar como se produz a notícia.

Caco Barcellos

Nascido em Porto Alegre, foi taxista e chegou a cursar matemática antes de se formar em jornalismo pela PUC-RS. Entrou na Globo em 1982, tendo sido correspondente no exterior e diretor do Profissão Repórter.

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Assuntos Caco Barcellos, Profissão Repórter
Redação 28 de outubro de 2019
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