
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL
MANAUS – A psicóloga educacional Vanessa Karolynna acompanha casos de jovens que relatam dependência em plataformas de apostas online no Amapá. A especialista percebeu que a consequência do vício em bets pode ir além da queda no desempenho escolar. Afeta a saúde mental, as relações familiares, a vida social e até a saúde física.
Em um dos casos, um estudante do ensino superior que usava todo o salário para bancar as apostas enfrentou problemas para pagar a faculdade.
“Essa situação acabou gerando conflitos familiares, perdas financeiras e um intenso sofrimento psicológico. O prejuízo foi muito além da questão financeira. O envolvimento com as apostas comprometeu a saúde mental, as relações familiares, a vida social e até a saúde física. Ele passou a apresentar muita ansiedade, uma necessidade constante de acompanhar as apostas pelo celular, dificuldade para dormir, alimentação inadequada e perda da qualidade de vida”, contou Vanessa.
A psicóloga percebeu que casos como esse começaram a aparecer com mais frequência entre os jovens. Essa modalidade de aposta se popularizou no Brasil a partir de 2018, quando o então presidente Michel Temer sancionou a lei que regulamenta a aposta de quota fixa, em que o jogador sabe exatamente o valor que vai ganhar quando finaliza o palpite, caso o resultado escolhido aconteça. Para apostar, é necessário ter 18 anos ou mais, mas adolescentes conseguem burlar as plataformas informando dados de terceiros.

Dependência e impactos na formação
Quando o apostador investe cada vez mais em busca de recuperar o que perdeu, a expectativa pelo retorno financeiro se torna dependência. Essa frustração atinge adolescentes e jovens adultos com impactos que podem paralisar a vida profissional e desviar o foco da vida acadêmica.
A dependência pelas bets também pode gerar a perda de bens materiais e conflitos familiares. A atração por esse “entretenimento de azar” é intermediada pelas redes sociais ou, até mesmo, pelas mídias tradicionais, como ocorreu durante os jogos da Copa do Mundo deste ano, quando as bets ganharam espaço na publicidade.
De acordo com a ABMES (Associação Brasileira de Mantedoras de Ensino Superior), os gastos em sites de apostas já dificultam o ingresso e a permanência de jovens na faculdade. A Associação realizou uma pesquisa que mostra que 34% dos entrevistados precisariam ter interrompido as apostas para iniciar os estudos no primeiro semestre de 2025.
A projeção nacional indica que dos 2,9 milhões estudantes que ingressariam no ensino superior em instituições privadas no primeiro semestre de 2026, aproximadamente 986 mil estavam sob risco de não efetivar a matrícula por conta do comprometimento financeiro com bets.
Ainda de acordo com a pesquisa, 14% dos alunos matriculados em faculdades particulares atrasaram as mensalidades ou trancaram o curso por causa dos gastos com esse tipo de aposta.
“Já acompanhei estudantes de realidades muito diferentes que foram impactados pelas apostas online. Alguns conseguiram buscar ajuda e permanecer na escola ou na faculdade; outros interromperam os estudos. O que mais preocupa é que existem muitos casos que sequer chegam ao conhecimento da escola ou dos profissionais de apoio. Esses estudantes sofrem em silêncio e, muitas vezes, nunca serão identificados. Por isso, acredito que esse é um tema que precisa ser discutido no ambiente escolar”, ressaltou a psicóloga.
“Ganho fácil”
A promessa de vantagem financeira é o que incentiva mais jovens a arriscar. Eles são atraídos por uma forma rápida de ganhar dinheiro. Mas o professor de economia do IFAC (Instituto Federal do Acre) Sérgio Lobão explica que, nas finanças, as apostas podem desestimular o jovem e levá-lo à inadimplência logo do início da vida. Ele afirma, também, que os mais prejudicados são aqueles que estão inseridos em famílias de baixa renda.
“Os relatos que ouvimos sempre são dessa facilidade, mesmo menores de idade. São vendidas imagens de ganhos e lucros rápidos e fáceis na ponta da mão. Acaba se tornando um hábito diário. Qualquer dinheirinho que esses jovens conseguem eles passam a utilizar nesses jogos de azar, não se dando conta que é um dinheiro que poderia ser gasto com outras demandas de consumo prioritários, como uma alimentação mais adequada, lazer ou de necessidade mais básica ainda, como vestimenta ou melhor habitação”, disse Sérgio.

Educação financeira
Aprender a organizar e administrar o próprio dinheiro é o caminho ideal. É como explica a professora de matemática Silmara Branco, da escola estadual dr. Isaac Sverner, em Manaus. Ela criou um projeto de letramento financeiro digital para as turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos), com o objetivo de agregar conhecimento sobre a digitalização de serviços financeiros e o uso consciente do dinheiro.
“Alguns alunos apostam nas bets. Em uma roda de conserva durante o projeto, eles falaram sobre os descontos e sobre como eles colocam o valor para jogar, só que eles perdem sempre um valor a mais. Uns tem a consciência. Outros dizem ‘ah, não, eu coloco tanto, mas eu já ganhei tanto’”, disse Silmara.
“Na educação financeira, a gente tem uma parte introdutória que tem como um dos assuntos o orçamento doméstico, isto é, a gente anotar tudo o que entra e tudo o que sai. Nessa aula, a gente pode conjugar com as bets. Quanto eles colocam na aposta? Quanto já ganharam? Se eles fizerem como fazem no orçamento doméstico, eles podem visualizar se está valendo a pena ou não”, acrescentou a professora ao sugerir um exercício que evidencia os gastos com as plataformas.
A abordagem sobre esse assunto nas escolas ainda é tímida, mas professores buscam desenvolver ações de engajamento sobre as bets desde cedo com o objetivo de formar adultos mais responsáveis financeiramente.
“A educação financeira desenvolve o autocontrole, o planejamento e a consciência sobre o uso do dinheiro. Essas habilidades ajudam a reduzir a vulnerabilidade às apostas e a outros comportamentos de risco. E nesse sentido, a escola tem um papel fundamental nesse processo, promovendo conhecimentos e valores relacionados ao consumo consciente”, disse o professor de matemática, Daniel Costa, da rede pública de Manaus.
